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Quarta-feira, Outubro 05, 2011

Gosto de framboesa

Este ser que me sufoca só pode ser imundo. Uma possessão! Talvez seja a melhor definição. Como um demônio, toma conta do meu corpo, modifica minha voz, domina minha razão, pressiona minha cabeça e prostra-me com o rosto nos lençóis. Sob meus olhos, uma maquiagem fúnebre deixa-me com jeito de zumbi. As pessoas olham para mim com cara de nojo, lastimando serem minhas conhecidas.

Preciso de ajuda para expulsar de mim essa coisa! Do contrário, este ser imundo e repugnante tomará conta de minha alma e transformará meu corpo por inteiro.

Um anjo surge com um líquido vermelho. Seria sangue? Estarei transformando-me em algum vampiro? Bebo e é doce. Sabor framboesa, diz-me o anjo a sorrir. Bebo como quem beija. Boca vermelha, primeira delícia nesta manhã de inverno.

Mais tarde, ao tentar respirar fundo, sou impedido pelo ser repugnante, que não me deixa chegar ao fim da minha respiração. Eu queria apenas dar um suspiro, mas não! Enfureço-me e todo o meu corpo, com uma força fora do comum, resolve expelir o demônio numa tosse. Sinto como que um pedaço de carne passando pela minha garganta e invadindo-me a boca. Com nojo, cuspo no chão a parte daquilo que me sufoca. Não identifico o quê, mas sei que é verde e tenta me matar. Ao vê-lo imóvel, depois de um surdo baque, sinto alívio por vê-lo fora de mim. Sei que há muitos pedaços verdes para expelir ainda, mas já consigo dar o primeiro suspiro em paz e começo a sonhar com o anjo do beijo vermelho com gosto de framboesa.

04/out/2011

Quinta-feira, Setembro 22, 2011

ilhas

Com a internet, as pessoas começaram a tornar públicos os seus medos, os seus anseios, as suas ideias, as suas teorias. Com isso, muitos solitários encontraram amigos com quem compartilhar seus delírios...
E começaram a formar ilhas de solidão.

Quinta-feira, Agosto 04, 2011

Estamira no canal Brasil

quem puder assista, hoje, 16h40, no canal Brasil, o documentário ESTAMIRA e sinta um pouco de poesia de onde ninguém imagina que poderia sair.
O diretor esta de parabéns pelo belo e terno filme.

Wallace Fauth

Sábado, Julho 30, 2011

Adriana Lisboa

Ela diz que escrever é como um emprego qualquer. Você acorda de manhã e vai para seu emprego.
Chegando lá, escreve mecanicamente, como a gente faz em nosso emprego qualquer:

IMPERIALISMO CULTURAL

A vida íntima
de uma menina de dez anos
na Somália (Somália é qualquer lugar
neste mundo, neste mesmo mundo):
o clitóris e os lábios vaginais são decepados
a menina é costurada em seguida, deixando-se
apenas uma pequena abertura para a urina e a
menstruação
a menina é imobilizada até que a pele grude
entre suas pernas
e no dia em que estiver pronta para o sexo
seu marido
ou uma mulher respeitada na comunidade
vai abri-la de novo, cortá-la
como se corta uma fruta, como se corta
um envelope que traz um documento
importante
como o avião corta a nuvem
como a nuvem corta o céu.

[Adriana Lisboa]

Q I

As pessoas cuja classificação cai na parte mais baixa da escala de QI tendem resistir a mudar.

Sábado, Julho 09, 2011

Serviço

Dizem que é muito bom fazer o que a gente gosta e ainda ganhar com isso. Ganhar, aliás, é um pensamento tipicamente ocidental levado às últimas consequências pelos americanos que somos todos nós, mas que só os norte-americanos tomam para si.
O problema é fazer o que a gente gosta quando não se está nem um pouco a fim de fazê-lo. Nesse caso, melhor seria nem receber por isso, já que não se vai dar conta de estar-se sempre a sorrir, no caso dos palhaços, ou de estar-se sempre a pintar, para o caso dos pintores.
Gosto de tudo e quero fazer tudo e o faço.
Não vislumbro ganhos
Nem vejo como isso seja possível:
Estou vivo como um bebê que nem aprendeu a própria língua
Porque se sou humano e não entendo o que outro ser humano diz...
Quando descubro que temos visões de mundo totalmente diferentes,
Vem a mim a falsidade que é o querer aproximar-se.
Tolerar, talvez...
Aproximar-se, jamais.
Aí está essa a distância. Aí o atraso do crescimento global.
A saída não está em todo o mundo falar inglês, mas falar, realmente, uma mesma língua, o que me parece impossível. Uma visão global só seria possível se todos fôssemos capazes de falar todas as línguas, isto é, capazes de compreender todas as nuances das palavras e entonações. Esse tal de "way of life", uma imposição cultural como a estadunidense, é uma bosta. Basta você visitar os estados unidos: tudo muito bem organizado, bem pensado, onde não se vê horário de almoço porque as pessoas estão produzindo algo de útil para a humanidade. Acreditam estar fazendo o melhor.Levam o homem à Lua,tudo "otimizado". Mas você não tem muitas opções além do hambúrguer, da pizza, do taco mexicano ou do frango xadrez chinês. Talvez seja um sonho de muitos poder comer só besteira o tempo todo e achar que está certo, afinal sua vida é sua e por que não viver prazerosamente? Isso remete à infância: se você deixar, seu filho só come doce e hambúrguer. Nos Estados Unidos isso é normal entre os adultos, o que me faz imaginar que, sendo a potência mundial que é, a humanidade está perdida, ou muito imatura.
Enquanto estive aqui, tentei comer uma só vez por dia (hamburguer, pizza e afins) e, à noite, somente uma salada de frutas que se achava em potes por aqui. No terceiro dia "no more" salada de frutas. Não é uma coisa que se encontra com facilidade. Resultado: comi tudo com muita gordura, com muita manteiga e a vida em torno de um grande parque de diversões. Tudo o que a gente sonha quando criança, eles tentam reproduzir na realidade para viverem assim, como adultos... O extremo disso parece ser o Michael Jackson: aquele que parece nunca ter crescido. Ídolo por essas bandas. Querer ser criança... Bando de idiotas. Não que eu queira ser adulto, pois o que chamam adulto mostra-se frágil como um bebê. Queria apenas ver a humanidade avançando... Há uma claridade enorme na minha maneira de ver tudo assim, meio de longe. Ao mesmo tempo, tenho a sensação de estar ficando cego (literalmente), como se fosse proibido enxergar demais.
A paisagem de Las Vegas é surreal. Digna de um Salvador Dali. Está amanhecendo. Tiro a foto e vou dormir.

Quinta-feira, Junho 23, 2011

Domingo, Junho 12, 2011

Miscelânea de leituras

Interessante o artigo de Mirian Goldenberg sobre quem foi Leila Diniz (http://hemeroteca-fauth.blogspot.com/2011/06/os-asteriscos-de-leila-diniz.html).

Mais adiante, li que Rogério Tolomei Teixeira aposentou-se do Banco do Brasil e  matou seu personagem, Rogério Skylab, com o lançamento do seu último CD (o décimo). Disse ele: não prefiro a escatologia, nem o terror, nem a piada, como muitos pensam. Prefiro a morte. Eu sempre fui um cadáver dentro da MPB. Eu, particularmente, prefiro que ele continue um cadáver (reconhecido por poucos) do que um Luan Santana da vida.

Suzana Herculano-Houzel, em seu artigo Exaustão Cerebral afirma o que eu já havia lido faz um bom tempo: uma ou duas horas de atividade cerebral intensa (uma visita a museu, por exemplo) cansam os neurônios. Fiquei pensando como devem ficar meus neurônios em quatro horas de correção de redação.

A Apple está investindo no conceito de nuvem. Meus recortes que ficavam engavetados, por exemplo, estão hoje nas nuvens, isto é, posso acessá-los de qualquer lugar do mundo. Lembro-me da época em que usávamos o programa de e-mail da Microsoft de muito sucesso: Outlook Express. Baixávamos as mensagens em nosso PC e depois só poderíamos rever em casa. Em que computador estão as minhas mensagens? Já não existe mais isso. Não há um único computador, mas uma série deles, interligados, transmitindo as informações e fazendo backup o tempo inteiro para segurança de todos. E onde, então, especificamente, estão guardadas as mensagens? Nas nuvens, meu caro. Nas nuvens! Esse é o mais novo conceito e que está sendo aproveitado por Steve Jobs, da Apple. Acho que agora ele conseguirá superar o Bill Gates, ao unir o tal Ipad e o conceito de nuvem. As informações da sua vida andarão com você para onde você for: seus amigos do facebook, seus discos em MP3, seus livros em PDF e nada mais... Só falta a casa no campo, mas nada que um aplicativo da Apple não resolva.

Sairá, em breve, um auto de João Cabral de Melo Neto inédito. "A casa de farinha". O tema parece interessante: o estranhamento das pessoas da casa de farinha porque o dono do local de repente deixa de cobrar aluguel.

Por fim, na revista VEJA desta semana, Isabela Boscov comenta o filme "Blue Valentine", mal traduzido para o português como "Namorados para sempre". Veja o comentário aqui: http://veja.abril.com.br/blog/isabela-boscov/cinema/namorados-para-sempre-blue-valentine/