Pesquisar este blog

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Duas coisas

Tenho duas coisas para contar:

A primeira: estou escrevendo uma história que, como eu, não pediu para nascer. Causa-me muito sofrimento e não quero aqui ficar lamentando nada. O fato é que a coisa desembestou mais do que imaginei. Pensava em acabar logo isso, receber as críticas boas ou ruins, publicar ou não, sei lá... E, logo em seguida, outra idéia me aborda e eu fico puto! Porra, já estão me encomendando coisas? Por que não encomendam logo um caixão?


Segunda coisa! Essa tem a ver com o que estou escrevendo. Veja o texto abaixo:


PARE DE COMER OS ANIMAIS!

A carne ou o peixe não são produtos banais: são pedaços de um ser que foi sensível, sofreu, sentiu dores, alegrias. Pedaços de um animal que foi morto por uma questão banal, inteiramente evitável: simplesmente para o nosso alimento.

Porque consideramos que a vida de um animal, o que este sente, seus desejos, seus medos, não têm importância? É ele tão desprezível que mereça que nós lhe tiremos o único bem que ele possui (sua vida), pelo prazer de uma simples refeição?

Por que tão pouca consideração? Freqüentemente as pessoas respondem: ora, os animais são irracionais, eles não são livres, foram feitos para isso... Essas razões são plausíveis? Por acaso devemos tratar os seres humanos diferentemente, segundo o grau da inteligência que possuam? Idiotas, autistas, gênios devem ter direitos diferentes? Por que há tantas formas de moral? Uma moral de igualdade para os humanos e uma outra forma de moral (meritocrática) para os outros seres?

Devemos levar em consideração os interesses dos animais assim como levamos em conta os nossos. Devemos dar tanta importância a suas vidas, a seus sofrimentos, a suas alegrias, assim como damos aos nossos. Os argumentos utilizados para legitimar aos nossos olhos os sofrimentos que lhes causamos são indefensáveis.

Maltratá-los é injusto, exatamente porque é injusto maltratar os humanos,as razões são as mesmas: porque isto lhes faz sofrer e/ou lhes tira a vida. É necessário determos a carnificina atual: é tão mais urgente quanto o número de vítmas é pavoroso. Mais de um bilhão de animais vertebrados terrestres (bezerros, galinhas, porcos, etc) são massacrados por ano para serem comidos apenas pelos franceses; assim como dezenas de milhares de peixes que também sofrem intensamente em criações de peixe ou durante a pesca. Se cada animal pudesse gritar antes de ser morto, o planeta terra vibraria com o estrondo de gritos incessantes e pavorosos que viriam de todos os lugares.

As prateleiras dos açougues e das peixarias expõem uma vasta carnificina que nós encontramos, de modo mais íntimo, ao longo de nossas refeições diárias, e no estômago de 98,5% da população (os 1,5% restantes já decidiram não mais comer carne nem peixe e, desta forma, não participar mais do massacre).

Este desprezo assassino não é justo. Somente através de um ato de violência podemos decidir que aqueles que não são de nossa espécie são insignificantes. Trata-se de uma forma de discriminação tão arbitrária quanto o racismo e que se chama ‘especismo’: discriminação fundamentada na espécie dos indivíduos, e que visa nos dar o direito de explorar outros seres que não façam parte da espécie ‘superior’. Assim como o racismo se fundamenta na discriminação feita a partir da raça (contra aqueles que não pertençam à raça superior)...

Reflita sobre o que você faz, reflita sobre as conseqüências dos seus atos! A moral atual, especista, estabelece que os interesses vitais de um animal nada são perto do nosso mais insignificante interesse. Isto é justificável ? Defensível? E se não o é, você pode continuar ? Pare com o massacre!


Anti especistas de Paris, Lyon, Bordeaux, Toulouse, Dijon, Grenoble, etc.
http://anima.animal.site.voila.fr/

Marly Winckler
Florianópolis - Brasil
www.vegetarianismo.com.br


AGORA MINHA VEZ


Eu estou prestes a escrever um artigo parecido, que valerá para o controle populacional:

Comecemos a comer humanos

Afinal, tenhamos direitos iguais para os animais e para os homens. Se comemos animais, por que não comermos homens? Por que termos leis diferentes para ambos?

Criancinha, então, de carnes tenras, devem ser uma delícia!

Huuuuummmmmm!

domingo, dezembro 04, 2005

olhar

Um anjo...

Ontem, no Delta Blues Bar, Campinas, um anjo olhou pra mim, fixamente, por uns trinta segundos... O que tanto te aflige? Nada, respondi.

Não sei o porquê de estarmos aqui conversando. Nem nós. O japonês ria nervoso, mas fazia parte da coisa, vocês eram um casal! Pretendem casar? Perguntei idiotamente. Risos? Podem rir... Eu casei, estou casado... Ridículo tudo isso. Ridícula aquela conversa... Ridículos vocês, e eu mais ainda...

Depois disso, fui embora. Era o que me restava...Mas não esqueço seu olhar em mim, por uns trinta segundos... Pensei passar despercebido... Algum filho da puta me achou... Por isso fui embora. Estava muito bom o som, tudo uma delícia! Até a bebidinha! Stonehenge ou steinhagen! Sei lá! Mas o seu olhar em mim, daquele jeito, me dissecando, descobrindo que eu não estava tão bem... Quem era você para saber dessas coisas?

Como sempre, fugi! Sou um idiota de um covarde...

Cabelos negros de personagem minha, olhando daquele jeito... Fui embora. Melhor assim!

sábado, novembro 12, 2005

Tenho uma vaga lembrança de que escrevi isso

Outro dia, no orkut, recebi uma mensagem do além. Alguém perguntava se era eu quem tinha escrito um texto. Sim, lembro-me vagamente. Reli e achei interessante. Abaixo o diálogo e, em seguida, o tal texto.

(07/11/2005)
Gisele: Vc q escerveu akela crônica Pra Não Dizer Que Não Passei Cerol na Mão??
Nossa morri de rir!!! Se for vc me responde por favor!

(10/11/2005)
Gisele: Oi...Eu li em www.navedapalavra.com.br/cronicas/pranaodizer
Eu levei pro colégio e minhas migas leram tbm!! Detalhe elas nem gostam de ler... Soh uma lá...Mas tds adoraram... A q menos gosta de ler foi a que mais riu.
Tah muito boa mesmo, e mt engraçada! ADOREI!
Ahhh se tem msn?

(11/11/2005)
Gisele: Pow tp eu tbm to escrevendo um livro, mas dei uma parada agora pq to estudando q nem loka pro vestibular. Heheheh tem prova no domingo, e eu nem deixei o fessor de literatura dar aula. Eu levei sua crônica e ele pediu pra uma amiga ler, depois a gente debateu. O assunto rendeu... hauahuahua teve ateh montinho pq um colega disse que o ambiente da micareta é pior que o de um baile funk... Mas td mundo gostou, meu fessor riu mt rsrsrsr(e eu tbm, nem teve aula!)
Mas e aí, sobre o que é seu romance??
Bjs!

Se está curioso, aí vai o texto:


Pra não dizer que não passei cerol na mão

(publicado em 15 de março de 2001)

Depois de ler notícias a respeito do baile funk e da dança das cadeiras, fiquei pasmo. Quer dizer que as mulheres vão ao baile sem calcinha, brincam de sentar no colo de quem está nas cadeiras quando a música pára e ainda engravidam? Dizem, os que trabalham em postos de saúde, que os casos de gravidez aumentaram e, segundo relato das próprias que brincaram de cadeira-sem-calcinha, foi assim mesmo. E o pior: como são várias as cadeiras e, portanto, variado o "colo", não se sabe quem foi o pai.
Tudo isso noticiado na semana do dia internacional da mulher. Terrível para a imagem das mulheres, que tanto lutam pela "causa". Por que têm que existir essas moças que gostam de ser chamadas de "cachorras", "potrancas" e "popozudas" como se, isso sim, fosse sinal de carinho? Fiquei pensando em como deve ser difícil a tal "luta". Assim fica difícil.
Fiquei chocado com tudo isso e logo veio à cabeça a frase original: "onde vamos parar?" Como pode a mídia deixar isso passar assim? Isso dá ibope? Que coisa terrível. Pensei filosoficamente nisso tudo, no mundo perdido em que vivemos, cheio de drogas, aids, sexo inseguro, nas mazelas da televisão, no caos cibernético em que se pode acessar tudo de bom e de ruim, na violência, no tráfico de drogas, nos adolescentes que morrem ao saírem desses bailes. Pensei em tudo isso, lamentei, li um pouco de jornal, li, depois, umas páginas de "Chatô: o rei do Brasil". Parei tudo para jantar. Tomei um delicioso cafezinho e aquele absurdo da dança das cadeiras e das moças de dezesseis anos sem calcinhas não saía da minha cabeça. Essas coisas mexem mesmo com a gente.
No dia seguinte a mesma martelação, recarregada com comentários de amigos, mais artigos nos jornais sobre o assunto, 'charges.com.br' batendo na mesma tecla, e-mails comentando as letras sexuais (sabia que passar cerol na mão é cuspir para lubrificar o "vocês-sabem-o-quê"?)... Que coisa mais absurda! E os pais dessa gente? Onde estão que deixam as moças assim, sem calcinhas por aí?? Depois de tudo isso, cheguei a uma conclusão.
Tenho que ir num baile funk desse.
E foi assim que, às dez e meia da noite, eu colocava minha calça jeans e minha camisa de botão com a manga dobrada até os cotovelos. Burro. Deveria ter ido com uma bermuda até os joelhos, camiseta sem manga, um tênis absurdo e um boné de pala enorme. Mas tudo bem, para primeira vez até que me saí bem. O mais importante, escolhi a calça velha cujo fecho éclair vive abrindo sozinho. Precisava facilitar as coisas para a dança da cadeira. Hehehe.
Lá fui eu. Na entrada, o negão estranhou. Para dizer a verdade, eu mesmo me estranhei. Era o único daquele jeito. Não sei explicar direito, mas minhas roupas saíam um pouco do padrão "tigrão". Que me desculpem os ativistas do movimento negro, mas era um negão que estava de segurança. E, com todo o respeito, no aumentativo mesmo.
Já lá dentro - do baile, claro - meio deslocado, fui até o bar tomar uma cerveja em copo descartável e, para animar, tomei um conhaque e, não satisfeito, tomei uma caninha. Agora sim, estava pronto para a dança das cadeiras.
"Quer dançar, quer dançar, o tigrão vai te ensinar... Quer dançar, quer dançar, o tigrão vai te ensinar..." Estava ali há meia hora e devia ser a terceira vez que essa música tocava. Ou será que não tinha acabado? Eu bem que tentei prestar atenção nas músicas, mas estava preocupado com "onde estaria rolando a dança das cadeiras" e acabei ouvindo só uns trechos. Lembro bem que deu vontade de correr quando o cara cantou que ia passar cerol na mão e ia me pegar, mas percebi a tempo que ele se dirigia a uma popozuda e fiquei na minha. Ela que se vire, no mais amplo sentido que a expressão possa permitir.
Mas onde diabos estariam as tais cadeiras? Já passava da meia noite e não vi nenhum agrupamento de cadeiras no centro do salão com homens sentados e adolescentes de dezesseis anos sentando nos respectivos colos. E eu ali, sem cueca, achando que a coisa deveria esquentar mais tarde. Tomei mais uma e mais outra para ficar "calibrado" quando chegasse a hora e, mais desinibido, pudesse deixar meu bingolim de fora, pronto para a sentada de um popozão. Aliás, um esclarecimento lingüístico: "popozuda" se escreve assim mesmo, com 'z', senão não é autêntica. Com 's' são as de baile refinado da zona sul, como o do canecão, na última terça-feira. Ali só tem popoSuda. Onde eu fui, o que tinha era popoZuda mesmo, as verdadeiras.
De repente, com meu copo descartável na mão, parado e observando todo mundo dançar, tentando perceber quem seriam as meninas que estariam "preparadas", já sem calcinha, para a hora do "assim... assim", encosta um cara com os olhos esbugalhados e vermelhos, sério, e me diz: "Tu tem cara de alemão! Tu é alemão, né?" Não entendi o tom agressivo, mas ele devia estar sob o efeito de algum remédio, um antidepressivo, talvez. Eu, como estava ligeiramente alcoolizado, tentei, com urbanidade: "De fato, meu sobrenome é Fauth e sou descendente de alemão. Muito prazer". E estendi-lhe a mão. O rapaz levantou a sua e deu uma porrada na minha: "Está tirando onda com a minha cara?"
- Absolutamente! - respondi.
Acontece, caro leitor, que "absolutamente" significou, para ele, "totalmente", e ele não estava absolutamente errado, não é mesmo? Fui agarrado pelo braço e parecia que ele era aquele do cerol, pois sua palma da mão arranhava. Um outro chegou, perguntando o que estava acontecendo. Eu respondi que era porque eu descendia de alemão. Depois do "absolutamente", o "descendia" acabou prejudicando mais ainda.
- Ele está tirando onda da nossa cara, esse alemão escroto! - Disse o do cerol e me deu uma joelhada na barriga. Poderia ser no saco, mas me poupou. Entretanto, apenas esse gesto foi capaz de acordar a turba de "amigos" daquele tigrão.
"Dói, um tapinha não dói... Tapinha! Dói, um tapinha não dóóóóói". Mas em mim doeu o tapão. Caí sentado e, por ironia, a música do tapinha rolando. Juntou mais gente. Até que, diante da minha não-reação, alguém gritou: "o cara é da paz!". Discutiram entre si e decidiram que eu não era ofensivo. Aliás, um perfeito banana. Bater em mim era covardia. Mais fácil que matar barata, pois esta última ainda corre.
Um dos "amigos" ajudou-me a levantar do chão. Percebi umas risadas cachorras e notei que, na confusão, meu fecho éclair abriu e, como estava sem cuecas e caí sentado, meu piu-piu modesto estava querendo fugir desesperadamente. Agora entendi porque um dos apelidos das meninas nesses bailes é "cachorra".
- Vai rir da sua avó, sua cachorra! - esbravejei com a que estava mais perto e rindo mais. Para meu espanto ela tomou aquilo como um elogio.
- Ai, tigrão, não fala assim. - respondeu jogando um beijo e sumindo na multidão.
Não consegui ver se estava sem calcinha.
De qualquer forma, o amigo que me ajudou a levantar, pôs a mão no meu ombro e fomos andando em direção à saída. Ele ia me convencendo, dizendo que qualquer um que olhasse para mim saberia que era a primeira vez que eu ia a um baile daqueles, que de longe tinha notado minha presença, essas coisas. Sintetizando o que ele disse: daquele jeito, além do papel ridículo que eu fazia com minha cara "coroa-quer-pegar-popozuda", eu não ia comer ninguém.
Saí do baile decepcionado. Não vi cadeira, muito menos a tal dança. Fui pensando na inusitada experiência enquanto percorria, a pé, o percurso que levava da porta do baile ao estacionamento. Só eu saía, naquela hora. Os seguranças, tranqüilos, faziam uma rodinha e batiam papo. Já perto do carro, o negão que me vira na entrada cotuca seus companheiros, mostrando minha direção. Todos olham pra mim e, devidamente montada a cena, ele diz:
- Ô, 'cumpadi'. Seu 'bingolim' tá aparecendo.
- Oh, obrigado - disse eu, envergonhadamente. Entrei no carro o mais rápido que consegui, dei um real pro amigo que já vinha me cercando e arranquei para nunca mais.
Acho que já passei da idade. Pena que, na minha época, as meninas usavam calcinhas e, quando eu brincava de dança da cadeira, tinha apenas cinco anos de idade. Se continuar assim, o futuro nos brindará com a 'dança do bercinho', onde não haverá cerol na mão, mas óleo Johnson e outras coisinhas mais, como a brincadeira do chocalhinho e a coreografia da 'chupetinha'.
Mas aí já quero estar bem longe.

sexta-feira, outubro 28, 2005

personagem

Acabo de chegar da rua. Saí de pés no chão, sentindo toda a força da Terra... Uma prancheta com folhas nas mãos, umas canetas no bolso e, isso foi o mais chato de encontrar, uma carteira contendo identidade para o caso de alguém achar que eu era louco. Como se identidade pudesse isentar alguém de algo.
Mas pelo menos identifica o (mau)elemento que está encostado a um poste (provavelmente já mijado por algum outro), quase à meia-noite, escrevendo, olhando para o nada, voltando a escrever.
O mais estranho: saí de casa pensando em escrever algo muito meu, sobre a poesia que sempre aconteceu nos lugares em que vivi, por mais inóspitos que parecessem aos olhos cegos de outras pessoas que só vivem do que (a)parece.
O começo foi sério, mas aí desembocou para o personagem do romance que estou para escrever. Foi muito estranha a sensação. De repente não era mais eu... Fiquei puto porque queria escrever coisas minhas e acabei por entrar no personagem de tal forma que o personagem era eu.
O pior: a-do-rei.
Tanto quis um tempo para mim, para escrever o meu "romance" e acabei encontrando-o, o tempo, sem querer. Se, por um lado, não consegui escrever o que ia na minha alma, por outro acabei por desenvolver mais uma idéia para minha história.
Fluxo de pensamento, ficção...
Fico imaginando sendo encontrado, com cara de indigente (pés no chão, bermuda e camiseta velha), e aquele texto escroto. Hahahaha!

Em pensar que desta vez nem bêbedo eu estava!

A sensação que eu tenho, com o que está na minha garganta para dizer, é que eu acordei para algo e que quero acordar pessoas.
Preciso tomar conta desse meu desespero...
Quem sou eu para salvar alguém? Quero apenas contar aos outros da minha salvação. Odiaria que ocorresse qualquer traço de "panfletagem" na minha história. Há essa preocupação em "Augusto Matraga"? Não. Há essa preocupação em "A Confissão de Lúcio"? Não. Há essa preocupação em Fernando Pessoa? Não. Mas há escritores 'engajados'... Odeio isso! Não tenho a intenção de acordar ninguém, mas bem que gostaria que enxergassem o que eu vi.
Mas, prometo, deixarei que a sensibilidade de cada um perceba o tema por baixo das figuras que apresentarei.

A dúvida é: serei capaz disso??

sábado, outubro 22, 2005

momento criativo

Ando muito ocupado. Momento de criatividade tomando meu tempo... Mas algo hoje fechou meu dia: um fotógrafo cego. Sabia de sua existência, mas nunca o havia visto na TV, conversando. Maravilhoso. Agradeço à rede Sesc/Senac por ter passado isso às quatro da manhã! Para quem não sabe do que estou falando, uma amostra abaixo:

Nascido na Eslovênia, Evgen Bavcar ficou cego aos 12 anos de idade após sofrer dois acidentes. Mesmo assim ultrapassou os limites impostos pela deficiência e pela sociedade e tornou-se fotógrafo. Hoje é conhecido internacionalmente e causa polêmica por onde passa

O mundo não é separado entre os cegos e os não cegos. A fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar. Nós também construímos imagens interiores”. Quem afirma isto à exaustão é Evgen Bavcar, fotógrafo, filósofo e cineasta. Nascido na Eslovênia, Bavcar ficou cego aos 12 anos de idade em dois acidentes. O olho esquerdo perdeu a visão quando perfurado por um galho de árvore. O olho direito foi afetado durante a explosão de um detonador de minas com o qual ele brincava. Em oito meses havia perdido a visão completamente. Por volta dos 17 anos, Bavcar conheceu a fotografia através de sua irmã, que lhe emprestou uma câmera fotográfica para que ele fotografasse uma menina do colégio por quem era apaixonado. Desde então, ele afirma ter descoberto uma forma de exteriorizar suas imagens interiores e comunicar-se com os outros.

Doutor em História, Filosofia e Estética pela Universidade de Sorbonne, na França, Bavcar vive em Paris e viaja o mundo, mostrando às pessoas que a imagem não precisa ser explicitamente visual. Bavcar esteve no Brasil no final do ano passado participando do congresso Arte Sem Barreiras, em Belo Horizonte. Durante a visita ao Brasil, também ministrou um workshop para um grupo do Instituo Londrinense de Cegos. Durante o workshop, mostrou que os cegos enxergam com o toque e desenvolvendo outros sentidos é possível perceber o mundo com a mesma eficiência que aquelas pessoas que empregam apenas o sentido visual. Também ensinou conceitos como sombras e horizontes para cegos de nascença. “O teu horizonte é ate onde você pode ver. Se você vê com as mãos, logo o teu horizonte é até onde você pode tocar”.

Poliglota, fala francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, esloveno e servo croata. Sempre causando polêmica por onde passa, Bavcar não se intimida diante daqueles que não admitem que um cego possa fotografar. Para a execução das suas fotos, conta com a ajuda de sua irmã e com técnicas desenvolvidas ao longo dos anos. Entre algumas características do seu trabalho, destaca-se a composição da luz em contraste com ambientes totalmente escuros.
Freqüentemente também usa a técnica de multi-exposições e procura sempre interferir em seus trabalhos. Abaixo, trecho de uma entrevista:

Photos - E qual seria o motivo pela sua preferência pela fotografia em preto-e-branco?
Bavcar - Esta preferência tem a ver com o preço do filme colorido. Na Europa o filme PB é muito mais barato que o filme em cor, por isso sempre uso PB.
Photos - Você já chegou a fotografar em cor? O que achou do resultado?
Bavcar - Já fotografei em cor, mas não gosto porque tenho alguns problemas técnicos. O preto e branco permite uma melhor expressão da luz. A fotografia colorida é um fantasma, o mundo não é colorido desta maneira, é uma ilusão. Quando vemos uma fotografia colorida, vemos apenas as diferentes ondas e não os seus nuances. Eu posso combinar em minha cabeça muito exatamente os aspectos de diferentes cores, alterando a porcentagem de cada uma de acordo com a informação que recebo.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Puta que o pariu

Porra!

João Silvério Trevisan fora do SESC????

Adeus oficinas maravilhosas...

Não entendi nada, nem quero entender...

Aliás... Acho que já entendi (problemas financeiros)

É o que dá viver no capitalismo... Ainda mais quando o comunismo também se fodeu!!!

Resumindo: é o que acontece com quem vive...

Relaxe: a morte está próxima!

domingo, setembro 25, 2005

FONTE

Talvez eu vá à fonte
E descubra que as águas
– Matariam minha sede –
Vêm de uns olhos tristes
Por encontrarem os meus vidrados
Por sentirem da vida cansaços
Por não saberem que sonhos sonhar

Talvez eu vá à fonte
E veja as moedas dos meus desejos
– Nunca até agora satisfeitos –
Corroídas pela ação das águas-lágrimas
Enegrecidas de tanta submersão
Desprovidas já de todo e qualquer valor
Esquecidas no fundo do poço

Talvez eu vá à fonte
E descubra que há ópio naquelas lágrimas
– Não parecem, mas são minhas –
Desnorteando minha alma
Abalando a estrutura do meu ser
Corrompendo uma essência que eu julgava existir
Destruindo o que ainda resta de mim.

Talvez eu não vá à fonte.

domingo, setembro 11, 2005

SILENCIO

Eu mergulho tanto, tanto
Que sobe de mim um canto
Triste, muito triste
Com toda a beleza dos cantos que são tristes

Tão tristes são os cantos
Que brotam dos meus mergulhos
Que brotam pedregulhos
Por onde eu sei que vou passar

Não quero caminhar
Minha vontade é mesmo parar
Transformar-me em pedra
E ver a vida passar

Talvez – quem sabe? – ser o mar?
Palpitante, fazendo barulho
Destruindo gente
Mas calado, sempre calado
Porque o mar não fala
E o mar – cínico – se cala
Diante da tragédia

A realidade é que não sou mar,
Não sou pedra, não sou nada...
Sou o que recebe as conseqüências do viver
Sou o que sofre e – pior! – não se cala
Deram-me o dom da fala.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Nu diante do espelho

Não costumo olhar-me muito no espelho. Isso porque o que vejo geralmente não sou eu, mas um corpo estranho qualquer. Feio, sem expressão, com uma vida de comprometimentos que lhe modificou a face que era pra ser outra. Todas as vezes que estou diante do espelho, sinto que este lugar é por demais apertado para conter minha alma; e o que antes passava despercebido, traz agora esse incômodo que me aperta o coração.
Olhar-me no espelho é olhar pra minha cara, que parece suficiente para tentar desvendar o que nem sei sequer se está realmente oculto. O resto do corpo vem como adendo material desta cabeça que não parece mas é minha. É na cabeça que me sinto localizado. Mal localizado, pelo visto.
Apesar de nu e de meus olhos não deixarem de fixar-se mais demoradamente no sexo, sinto ainda que tudo é mero complemento perfeitamente dispensável. Meu pau aparece demais. Tanto quanto a palavra neste texto e, como ela, não pelo tamanho, mas pelo efeito que causa e por toda a metáfora que traz consigo desde as mais remotas encarnações. Traduz amor, morte, prazer e dor, tudo com seus sentidos mais primitivos que datam de antes da limitação, por estas palavras, daqueles sentires. E apesar de carregar tantos signos, meu pau, cabisbaixo, é só isso: carne da minha carne. Anexo da minha cabeça.
Meus olhos passeiam, como minhas mãos, pelo corpo, mas terminam sempre dentro dos olhos da imagem deste outro que está por detrás do espelho e que não é outro, mas eu mesmo, inacreditavelmente eu. Olhos nos próprios olhos tentando descobrir algo mais do que não sei sobre mim e a confusão só tende a aumentar. Procuro na boca as palavras que estão por sair e os beijos que nunca beijei. Gemidos que nunca gemi. Línguas que sempre sonhei. Lembranças do que nunca fiz por motivos vários são inevitáveis e prefiro não discorrer sobre isso. Prefiro continuar calado e deixar esse silêncio invadir-me e pesar sobre minhas costas, deixando-me assim, um tanto curvado. Silêncio que sufoca, fazendo com que minha boca esteja ligeiramente aberta, talvez mais por distração, mas há necessidade de sorver algo mais além do ar que está dentro deste silêncio e que toma conta deste quarto.
E só agora, vendo a boca aberta nas duas imagens, percebo que sou uma trindade. Não sou eu quem está diante do espelho e, muito menos é meu aquele reflexo. Sou o que olha por todos os olhos. Estou dentro de cada pensamento, sou a alma que trafega, livre, dentro desses corpos que tendem à podridão mas buscam negá-la, com suas poções milagrosas, suas vestes de ouro e colares de diamante. O que aquele ser, agora ajoelhado pelo silêncio, busca dentro dos olhos de si mesmo sou eu que o olha de cima e vê sua nuca. Um golpe com a foice e todo o significado do mundo derramar-se-ia em carmim. E foi assim que aconteceu.
Talvez não me compreenda muito bem o leitor por não possuir a vivência que tenho. Para mim não há idade, tempo ou tamanho. Tudo isso é carnal e efêmero. Basta-se a si. Eu não. Infinito, estou além do universo, realizo o que bem entendo e não acredito em Deus porque sei que não existe. Não da maneira que você imagina: acima de tudo e de todos. Deus dos exércitos, Deus dos homens, inventor de dilúvios e destruidor de sodomas. Não. Desses o inferno está cheio. Fugirá à compreensão e só servirá para gastar papel e palavras; por isso calo-me diante de sua dúvida e lanço a foice ao pescoço do infeliz que me procura dentro dos próprios olhos, entretido com a metafísica que não existe.
Logo o sangue escorre pelo chão do quarto vazio. Um chão de tábuas corridas a refletir os raios de sol que ultrapassam a vidraça da janela fechada e iluminam o homem e seu espelho. E só. Mais nada há no aposento, o que faz do bater a cabeça na madeira um som mais forte, mais amplo, que se encerra ali mesmo, sem mais delongas. A cabeça olha o sol, o corpo recosta-se ao chão e, como um cântaro, derrama seu conteúdo último de vida que brevemente secará, tornado-se inútil.
Não sei quem era ele, se tinha família ou sentimentos mais nobres. Tampouco faz diferença pra mim se ele ia à igreja aos domingos comer o pão que o diabo amassara, na véspera, antes de virar hóstia ele, o homem. Amizades, amores, paixões, obras em vida, nada levou consigo porque nada disso existe e por esse motivo é bobagem sua ficar impressionado com a foice que separou em dois pedaços de carne o que era um só. Você faz isso quase diariamente quando parte um bife e não se espanta.
O corpo partido resfriou-se, os reflexos sangüíneos tornam todo o ambiente avermelhado. É hora de partir para outra vida, escolher um alguém que pense menos e cuide mais dos músculos, dando valor a si mesmo enquanto corpo. Quero voltar a ter essa sensação de estar olhando-me ao espelho mais amiúde. Preciso sair daqui antes que seja tarde.
A imagem do espelho há muito já se foi.

sábado, setembro 03, 2005

ABRAÇO

A João Silvério Trevisan

O melhor abraço que recebi
Com o gosto literário de maçã
Foi o seu, João Silvério Trevisan,
Num dia de um sonho de Dalí.

Foi mágico o que aconteceu ali.
Queria o outro encontro já amanhã
– Não se trata de delírio de um fã –
Mas de um mundo novo que conheci:

Os sonhos e a necessidade humana
Esparramados assim pelo chão,
Palavra com música que se irmana...

Mexendo com nossa imaginação,
Entrevi, nesta vida tão insana:
Literatura cumprindo missão!

Wallace Fauth

Paralelos

Ontem estava pensando. Paralelo a isso, abria a porta do automóvel para ir embora. Pensava nas coisas que eu tinha para preparar, pensava nos prazos.

Domingo foi um dia eleito em que fixei meus pensamentos. No domingo e nos afazeres para que, na segunda, tudo estivesse pronto. Tudo dentro dos limites e dos "conformes" do que deveria estar pronto na segunda. Paralelo a esses pensamentos, eu ligava o carro.

Enquanto eu lembrava da farmácia, da rua em que eu deveria entrar para conseguir a vaga mais fácil e comprar o remédio que me fora pedido mais cedo, meu pé direito afundava no acelerador, minha mão direita engatava a ré e minha cabeça movimentava-se para trás. Eu estava saindo. Literalmente.

Eu ali, parado. Pensando. E, paralelo a isso, o mundo começava a movimentar-se do lado de fora. A cada virada no volante, cada pisada no acelerador, o mundo entendia o que eu queria e ia obedecendo. Ninguém compreendeu as duas voltas que eu dei naquele balão. Ou pensaram ter entendido: "ele errou a entrada". Mal sabiam as pessoas que eu brincava de girar o planeta a meu bel prazer, com a velocidade que EU desejasse. Paralelo a isso, os prazos chamavam-me à razão. Por que motivo eu girava sem sentido, sem função, enquanto estava sendo esperado?

Esperado pela mulher que, às seis horas, estaria atenta aos barulhos da casa, dos motores que passavam na rua, ciente da minha segura chegada. Esperado pela filha que necessitava do tal remédio. Nada grave, mas o pai estaria chegando com ele. Esperado, na segunda, com aquelas atividades prontas em mãos. Um texto para fazer, uma fiação para consertar, um telefonema prometido. Tudo me esperava.

Mas eu morri. Ninguém estava comigo ou me vendo naquele instante. Poderia estar morto e ninguém saberia, pois ainda estava dentro do prazo, apesar da terceira volta na rotatória, fazendo o mundo girar. Eu parado, o mundo girando, as pessoas passando nesse carrossel e olhando para mim ali, no centro de tudo, de todos os acontecimentos e perfeitamente dentro dos limites do tempo.

Às seis horas a porta não se abriria. Às sete horas a esposa estaria com o telefone na mão. No dia seguinte, várias pessoas estariam em polvorosa a me procurar porque ultrapassara os limites que haviam me imposto. Não cumprira o tempo regulamentar, social e lógico do planeta.

Atravessando a margem do tempo e dos espaços dirijo o mundo como quero, sem precisar aonde pretendo chegar, simplesmente porque não pretendo nada além de pisar num pedaço do terreno da morte. Dou um pequeno chute na fragilidade das horas e gargalho dos círculos concêntricos que vão se formando, causados por essa pequena pedra que lanço displicentemente no silencioso lago que, faz-nada, está ali.

Paralelo a isso, chorarão os que se julgavam ligados a mim. Bem que sentiram algo estranho no ar - dirão. Mas só sentiram depois do prazo, tenho certeza. Um minuto que fosse, mas sempre depois da hora mais que prometida: comprometida. Antes não haveria como sentir. Nem eu sabia da quarta volta do balão.

Se, em vez de círculos a queimar combustível, eu estivesse a dirigir minha alma em direção aos céus ou infernos prometidos pelas vãs igrejas, ninguém estaria sabendo. Não agora, que encontro-me dentro do tempo que me foi dado e permitido e que faço dele quase tudo o que quiser.

Na quinta volta, quando faço o mundo girar mais rápido e aprofundo-me nas próprias entranhas, desperto alguém que está ali para não deixar que o mundo se desgoverne. Alguém que observa esse girar monótono e não permitirá que outro venha revolucionar o que anda "normalmente". Normais são os acidentes, normais os assassinatos, normal é a vida que levamos todos os dias, meio que dormindo no sem-querer da existência, ora porque dormir é mais fácil, ora porque não queremos ser acordados propositadamente pelo pedinte do sinal. Preto. Feio. Sujo e fedorento preto do sinal a querer empurrar-me sem-delícias balinhas. Dormir é melhor.

Como aquele pedinte, começo a acordar gente. A sétima volta está demais. Já não chegarei mesmo às seis horas em casa. Nem mesmo parei na tal farmácia.

Mundo-carrossel que fiz pra mim, mas já a mão autoritária recorta-me da minha própria vida que pensei ter em minhas mãos. Como um texto pronto, minha vida já não é minha. É dos outros. É desse mundo ridículo como aquele uniforme unicolor azul. Ridículo como tudo o que é uniforme e não varia. Ridículo como um dia após o outro em que sabemos de antemão o que vai acontecer. Um mundo onde o dejá-vu é, de certa forma, aguardado. Gostamos de repetições. Repito, portanto, aquele diálogo absurdo:

- O que o senhor está fazendo? Deve ser a décima volta que dá nesse balão. - pergunta o policial, cumprindo o seu prazo, estabelecendo e mantendo os limites do que aprendeu serem os aceitáveis.

- Estou passeando.

- Está procurando alguma entrada? Está perdido?

- Não. Estou dando umas voltas. - Disse isso sem conseguir segurar o riso que àquele homem pareceu deboche, mas eram as cócegas da semântica que brincava em meu cérebro. O sentido daquelas voltas era diferente para cada um de nós. Para mim, ele é que girava. Para ele, eu era um louco que provocava sua ira.

- Documentos, por favor. - Pediu o guarda com gravidade.

Não sei para que servem os documentos, mas a falta deles é razão suficiente para sermos classificados como personas non gratas para a sociedade. Não podemos ser sem-registro. Os índios podem e nunca serão incomodados por isso. Vivem num mundo paralelo ao nosso, mas também têm seus tempos, seus compromissos, suas misérias. Eu não era índio e tinha documentos. E os documentos serviam para mudar o assunto. Quando a autoridade não tem motivos para interromper nosso curso natural, ela pede os documentos. Por que sou obrigado a parar? A vontade que tenho é mostrar os documentos metafóricos que levo por dentro das calças e gargalhar dos cornos previstos com que o filho de uma égua fuzilar-me-á.

Mas não. Sou educado. Ultrapassei os limites do esperável e o polícia não encontrava registro, no regulamento, capaz de impedir alguém de dar quantas voltas quisesse numa rotatória.

- Pode ir. Tudo bem. - Liberou. - Vai continuar dando voltas?

- Há alguma objeção?

- Não. Mas é muito estranho. Talvez o senhor necessite de algum tratamento.

- Pode ser. Tchau.

- Tchau.

Paralelo a isso, pessoas me esperavam. Minha vida me esperava. E eu tinha prazos a serem cumpridos. Ia pra casa normalmente, dessa vez, mas pensava na espiada que tentei dar numa dessas brechas da vida e descobri que há vigias por lá. Em cada esquina alguém olha para você à espera de uma resposta que aprove a própria existência. E esse alguém, que somos todos nós, só sabe que existe e que é normal porque é solene e educadamente ignorado nessas avenidas do cotidiano.
(TEXTO DE 04 de setembro de 2000)

domingo, agosto 21, 2005

Quero dormir bem

Quero dormir bem,
Com minha cabeça bem descansada no travesseiro.
Por isso não furto a fruta bonita do meu amigo
Não faço nada de errado
E posso dormir em paz!

Não espanco meus filhos
Não traio minha mulher
– nem em pensamento –
Não ofendo as pessoas
E posso dormir em paz!

Não consumo drogas ilícitas
E as lícitas eu, quando consumo, é com bastante moderação!
Não tiro meleca do nariz com o dedo
Não cheiro meu dedo depois de coçar o saco
E posso dormir em paz!

Depois de fazer xixi lavo as mãos
Sempre
E depois de cagar tomo banho
Sempre
E sempre posso dormir em paz!

Não tenho revólver em casa
Nem bebidas fortes
Nem cigarros
Nem escritos proibidos
E posso dormir em paz!

No meu computador não entra sacanagem
Nem joguinhos imbecis.
Também não fico conversando à toa
Com pessoas desconhecidas – sou casado!
E posso dormir em paz!

Todos os dias tomo banho
Sou uma pessoa muito limpa...
Meu cabelo está sempre cheiroso,
Meus pés não exalam mau cheiro
E posso dormir em paz!

Não sei nada sobre você, nem quero saber
Pois tenho aversão a novas amizades
Não quero nada de novo...
Medo de saber que o mundo não é só isso
E posso dormir em paz!

Nunca queimei a comida
Nunca tirei nota vermelha
Nunca me achei o máximo
Sempre fui virgem
E posso dormir em paz!

Nunca duvidei da existência de Deus
Nunca atravessei a rua sem olhar para os lados
Nunca ultrapassei o sinal vermelho
Sempre segui à risca todas as regras
E posso dormir em paz!

Nunca deixei de tomar o remédio no horário certo
Nunca cheguei atrasado
Nunca abandonei meu amigo
Sempre fui muito ético
E posso dormir em paz!

Nunca estudei matemática na aula de português
Nunca saí no meio de uma palestra
Nunca joguei papel no chão da rua
Sempre procurei os lixos
E posso dormir em paz!

Nunca bati no meu cachorro
Nunca gritei com meu gato
Nunca castiguei ninguém
Sempre estimulei o aprendizado
E posso dormir em paz!

Nunca estuprei uma mulher
Nunca matei um homem
Não fui capaz de matar nem um rato
Sempre gostei de todo mundo
E posso dormir em paz!

Nunca senti nada diferente
Nunca andei fora da calçada
Nunca voei em pensamentos maus
Sempre quis ir para o Céu
E posso dormir em paz!

Nunca olhei para a bunda de ninguém
Nunca virei minha cara, na rua, para observar uma mulher bonita
Nunca fui a um puteiro
Sempre vivi na santidade
E posso dormir em paz!

Nunca falei mentira
Nunca enganei ninguém
Nunca cometi aleivosias
Sempre fui o homem mais correto do mundo
E posso dormir em paz!

Nunca me masturbei
Nunca chorei de amor
Nunca esqueci de coisa alguma
Sempre tenho consciência do que faço
E posso dormir em paz!

Nunca li os papiros egípcios
Nunca tive vontade de lê-los
Nunca saí do meu país
Sempre penso demais
E posso dormir em paz!

Nunca fui à Disney
Nunca bebi absyntho
Nunca fiz nada de errado
Sempre procuro fazer o certo...
E posso dormir em paz!

Nunca ri da pessoa que tropeçou e caiu no chão
Nunca ri da avó surda que confundia minhas palavras
Nunca ri da cara de ninguém – por mais engraçada que ela me parecesse –
Sempre ri da piada alheia, por mais sem graça que fosse
E posso dormir em paz!

Nunca corrigi meus erros
Nunca fui hipócrita
Nunca fiz nada
E posso dormir em paz!

E você? Pode dormir em paz?

Cinco coisas do orkut

Para entrar no orkut, há que preencher coisas... Preenchi o que eu achava e o que eu achava não era o que achavam que eu achasse... Mudei tudo, para agradar os outros, sabe como é... "se você quer ser palhaço, invente um personagem no orkut, mas não coloque sua foto e responda coisas estranhas". Só porque eu disse, em orientação sexual, que eu era curioso. E mais: moro "com filhos", "com parceira", "sozinho"... O computador aceitou... "Como sozinho?" - ora, eu apenas "testava o sistema"... Minha resposta foi cruel: "quando estou trancado no quarto, estou sozinho... Às vezes eu moro sozinho, sabia?" Descobri que ela não sabia! Sentiu-se diminuída, chorou de verdade... Gente! Às vezes eu fico sozinho!! Não posso? E para explicar?

Resumindo... Umas respostas que dei e achei interessante deixar aqui...


CINCO COISAS SEM AS QUAIS NÃO CONSIGO VIVER
– Literatura (escrever e ler)
– Música
– Solidão
(tem que ser cinco?)
– Amor
– Comida (e bebida)

Depois pensei comigo: "putz, o amor tá lá embaixo"...

Foda-se. Tenho que agradar quem? E mais: defina "amor" para mim... E mais embaixo ainda está a comida...

Alguém vive sem comida? Quando perguntei "tem que ser cinco?" é porque não deveria colocar obviedades como "amor", "comida", "água"... Qualquer bicho sobrevive sem literatura, sem música e sem solidão... Eu é que não.

quarta-feira, agosto 10, 2005

O Mágico de Oz

A Doroty

O poema virá dessa idéia. Aguardem.

sexta-feira, agosto 05, 2005

LXXXVII

Quem se vê maltratado, e combatido
Pelas cruéis angústias da indigência
Quem sofre de inimigos a violência,
Quem geme de tiranos oprimido:

Quem não pode ultrajado, e perseguido
Achar nos céus, ou nos mortais clemência,
Quem chora finalmente a dura ausência
De um bem, que para sempre está perdido:

Folgará de viver, quando não passa
Nem um momento de paz, quando a amargura
O coração lhe arranca e despedaça?

Ah! Só deve agradar-lhe a sepultura,
Que a vida para os tristes é desgraça,
A morte para os tristes é ventura.

[Manuel Maria Barbosa du BOCAGE – 1765-1805]

terça-feira, agosto 02, 2005

Derrame

Sei que meu cérebro entrará em pane
Meu lado esquerdo não responderá
Não sei ao certo o que acontecerá
Mas eu não quero que você reclame.

Quero somente que você me ame
Esqueça isso tudo que poderá
Ser um motivo p'ra nos separar
ou então para que a morte nos chame.

Nessa hora, caminhando na estrada,
Pouco importará tudo que vivi
Um olho meu olhará para o nada

Você, então, estará bem cansada!
E eu, voando como um colibri,
Estarei na minha maior alçada!

segunda-feira, agosto 01, 2005

PASSAGEIRA

Seus olhos doidos de passageira
Encontraram os meus e fixamo-nos
O mundo inteiro parou
Para ver
E nada aconteceu.
Mas em nossa alma algo foi impresso
E levaremos esse arranhão para sempre.
Pode ser que amanhã não mais lembremos
Que nosso olhar se misturou
Que nos amamos por um instante
E que um ônibus levou você de mim
Ou a vida, ou o tempo, ou um disco voador…
Não importa. Você foi embora e
Tenho certeza
Nunca mais nos encontraremos.
Pode ser que esteja no mesmo lugar
Pode ser que eu, de novo, passe por ali
Mas nunca mais verei isto:
Seus olhos doidos de passageira.

sexta-feira, julho 29, 2005

Agora entendi

Ontem me disseram que meus versos decassílabos estavam falhos...

Concordei. Mas não entendi...

Preocupei-me com isso quando escrevi... Aí descobri: o verso do blog está certo:

"E nos faça o bem de andar na calçada"

Agora, sim! Melhor do que aquele ridículo "caminhar" que eu tinha inventado.

Caminhar é muito ridículo. Eu nunca faço caminhada. Eu ando (pelo mundo)... E meus amigos... cadê?!!

Amanhã mesmo

Chamaram-me para cargo um tanto político.

Aquela coisa dentro do meu âmbito... Coisa que eu não queria, mas que poderia ser interessante...

suplente do suplente do suplente do suplente...

Não soube dizer não...

Hoje eu sei.

Amanhã mesmo estou ligando para algumas pessoas e pedindo para tirar meu nome da lista das possibilidades e enfiando-o no arquivo morto.

Não compactuo com nada disso.

Como disse-me, certa vez, um pseudoamigo: "sou incorruptível"
(e eu completo: a menos que me diga a palavra mágica: "é missão").

A corrupção não se dá só pelas malas...

Mas pelas malas sem alça também...

Não quero ter obrigações com malas-sem-alça.

Quem receber meu telefonema, amanhã, saberá: estou fora!

Nada quero nada de vocês. Nada quero nada de ninguém.

Quero só dormir em paz... Com a cabeça no travesseiro, assim, bem leve... Como estou agora.

Boa noite!

quinta-feira, julho 28, 2005

A Formiga e a Cigarra

Será que algum dia a palavra "trabalho" valerá também para quem lida com a parte intelectual e artística do mundo? Ou seremos eternamente "vagabundos"?

Lembrei do Caetano (letra do Chico):

SAMBA E AMOR
"Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã

De madrugada a gente inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama - reclama
Do nosso eterno espreguiçar

No colo da bem-vinda companheira
No corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação"

Ou então assumimos de vez e fazemos coro com Raul Seixas em resposta aos que preferem diminuir a reconhecer nosso trabalho:

"A formiga só trabalha porque não sabe cantar"

sábado, julho 23, 2005

SUBTERFÚGIOS

Esse é de agosto de 2000

Não gosto de seu texto. O problema é que não sei como lhe dizer isso. E por que eu devo me preocupar? Não gosto e pronto. Seu texto é ruim mesmo. Verdadeiramente ruim. Mas tenho que ter argumentos para afirmá-lo. Não posso simplesmente dizer que não gosto e pronto. As pessoas querem esses argumentos, precisam de motivos e não há problema: isso é o que não me falta.
Aquele erro de concordância básico e por isso gritante me incomodou demais. A falta de acentuação naquela palavra que nem tenho coragem para dizer qual é, a própria escolha do vocabulário que utiliza... Tudo junto faz desse seu texto um verdadeiro lixo. A cesta de lixo é a sua direção.
Mas levanto os olhos do papel, ao fim da leitura, e vejo que você, muito simpático, está sorrindo para mim, ansioso, com esse olhar de brilho radiante feito criança que acaba de ganhar um presente.
– E aí? Gostou?...
Sua pergunta, como uma flecha, entra no fundo da minha alma.
– Não. É péssimo.
A resposta seria essa. Depois viriam minhas argumentações do ponto de vista gramatical, lexical, coesões e coerências que lhe faltam, além da própria idéia que, em si mesma, não diz nada.
Conheço autores que escrevem sobre o quase absolutamente nada. Gente que é capaz de desenvolver parágrafos e parágrafos a respeito de um mero atropelamento (e só o atropelamento: sem antecedentes e sem conseqüências), ou sobre os pregadores de madeira que quase não existem mais hoje em dia. Coisas banais mas que conseguem ser ditas com arte. Mas o seu texto sobre essa coisa banal, sem arte e sem classe, além de vários erros de português...
E você ali, sorrindo, parecendo que tem certeza de que serei favorável a ele, o texto. Como vou compactuar com isso? Não posso. Seria como concordar com a corrupção ou coisa que o valha.
– Quem, além da sua mãe, elogiou esse texto?
Não posso perguntar isso, apesar de ter essa curiosidade. Séria curiosidade. Tirando a parte "da sua mãe", que não passa de ironia, eu realmente gostaria de saber quem foi que deu a força, pois o jeito como você aguarda minha voz é de quem tem uma certa confiança. Aquela confiança que algum “amigo” lhe deu só para manter a amizade, para não feri-lo. Feliz, você vem até mim com o intuito de angariar mais um voto para sua produção literária; produção essa carregada de momentos de inspiração que o fizeram descrever todos aqueles sentimentos de maneira bastante comum. Bem lugar-comum.
Por que eu, que sou seu amigo? Para você era muito lógico que eu ratificaria a opinião desse possível outro. Tem que ter havido um outro. Do contrário não estaria, então, me olhando com esse sorriso de quem não está preocupado com o que pode vir.
– Você precisa ler mais, amigo. Está muito ruim isso aqui.
Mas não consigo dizer nada. E alguém consegue? É cruel, muitas vezes, expor uma verdade. Começo a escarafunchar o cérebro em busca de subterfúgios. Qualquer coisa que me leve a afirmar algo como:
– Está bom, mas...
E por que eu tenho que dizer que está bom se não está? Que situação foi essa que você colocou diante de mim?! Agora preciso resolver esse impasse. Você aí, olhando pra mim com avidez, à espera de uma confirmação que não virá. Para você sou autoridade. Minhas palavras serão sua vitória ou sua desgraça. E se chegou até aqui é porque, de certa forma, espera alguma vitória.
Agora eu... Dentro de mim a luta. Não quero estar aqui para ver seu sorriso transformando-se numa fisionomia triste ao encontrar uma realidade que o colocará num lugar bem diferente de onde o fizeram acreditar que estivesse.
Seu texto é muito ruim e você nem tem autocrítica suficiente a ponto de imaginar o quanto. Não faz idéia do que são seus erros de concordância e seus diversos clichês. A luz do luar refletida nas águas paradas do lago, o coração que gela por outrem, os sentimentos mais profundos de amor, tudo isso encontrado nas mais diversas capas de cadernos, agendas adolescentes e atribuídas a Sheakespeare, Lord Byron e outros figurões. E você ali, com suas livres adaptações do que é de domínio mais do que público.
Olho novamente para o papel e releio o último parágrafo para ganhar tempo. "Ele perguntou se gostei e o que eu vou responder"?
– Esse último parágrafo foi surpreendente, não foi? - pergunta ele como se adivinhasse o que eu estava relendo, enganando-se, porém, com os motivos para meu paralisado estado estupefacto.
Olho para o relógio e, num instante, estou apressado para fazer qualquer comentário. Inesperadamente alguém me salva:
– Eurico! - chama um amigo comum, do outro lado da calçada.
Eurico olha, sorri, acena, e fica mais apressado do que eu para sair dali e encontrar seu amigo. Sua pressa é verdadeira. A minha, fingida. Aceno também, despedimo-nos assim, com a coisa mal resolvida, deixando pendente o momento. Melhor para mim, que vou ganhar tempo para pensar numa resposta. Melhor, talvez, para ele mesmo. Mas o pior é saber que a situação voltará e estarei na mesma.
Informar a um amigo que se acha poeta "com alguma incursão na prosa" (como ele mesmo gostava de dizer), que seus escritos são um lixo não será tarefa fácil. Gosto dele. Todo mundo gosta e ninguém diz nada porque é mais fácil elogiar e manter a amizade sem arranhões. Mas penso que, se gosto mesmo dele, devo dizer a verdade. Pode odiar-me agora, mas agradecer-me-á no futuro, mesmo que lá no fundinho de sua alma. "Foi o único sincero, pois sempre desconfiei que minhas inspirações não eram lá essas coisas..."
Amanhã, então, vou dizer a ele. Prevejo o diálogo:
– E aí? O que achou daquele texto de ontem? - perguntará Eurico, eufórico.
E eu responderei, metafórico:
– Zagueiro.
– Como?
– Zagueiro! Vi você jogando futebol, ontem...
– E daí? O que uma coisa tem a ver com a outra?
– Dedique-se ao futebol. Sério. Você tem futuro ali. E com a alma de escritor que eu sei que você possui, tenho certeza de que entende esta metáfora. Por favor, Eurico, não me faça, agora, ser mais claro.
– Claro - ele responderá, engolindo em seco e, adultos, continuaremos amigos.
Disso eu tenho certeza.

Publicações

Estou aproveitando a descoberta de que não deletaram meu espaço para publicar coisas que estão com teia de aranha nos meus arquivos... Daqui a pouco aparecerá mais poesia velha.

Existe poesia "velha"? Tenho lido algumas e parecem-me tão atuais...

PERDIDOS NO CYBER-ESPAÇO

Este conto foi parte de um exercício proposto pela Oficina Literária do Sesc, organizada por João Silvério Trevisan.

Daqui não vejo nada que possa mentir, porque o cyber-espaço é meu. O cyber-espaço sou eu. No mínimo a projeção do que tenciono pensar que sou, porque, assim como o cyber-espaço, minha identidade é nula e ganha contornos apenas quando surjo nele - ou ele surge em mim, assim, reto... Infinito.

Passeio por essas luzes e tenho a impressão de que, apesar das almas que habitam ou apenas estão de passagem por aqui, ouço os ecos da minha voz a cada vez que grito seu nome. Um nome que não conheço de um alguém que não vi.

Branca é a cor do cyber-espaço. Branca é a voz surda que sai de mim. Branco é esse perfume que exala dos chips que, quentes, seduzem minha visão de mundo. Um mundo vazio, mas que, a julgar pelo calor emanado dessas paredes invisíveis, possui uma riqueza infindável. Temos que saber olhar. Precisamos descortinar o que há por trás dessa coisa que não tem frente.
Como descrever? É como essas criaturazinhas que dançam, neste exato momento, diante de seus olhos e, pela característica fugidia de seu intrínseco ser, não consegue enxergá-la sem esforço. São assim, como as entrelinhas: pequeninas, fugidias, risonhas... e brancas. As entrelinhas, como o cyber-espaço, são também brancas e vão nascendo do cruzamento da tinta preta com esse esperma branco de que é feito o papel. Entram e saem pelos buracos das letras, escondem-se por detrás de algum negrito, observam o mundo por sobre as maiúsculas e têm a impressão de serem sozinhas. Não sabem que a razão de sua existência são meus olhos que as enxergam sem ver.

O Cyber-espaço é o esperma branco que interaje comigo, mera tinta preta a produzir verdadeiras entrelinhas. Não sabemos por que motivo estamos navegando nesse caldo que parece incongruente. Uns nem pensam nisso. Outros, como eu, indagam incansavelmente:

- De quem são os olhos que perseguem as minhas filhas entrelinhas?

E o que ouço é a resposta do infinito, em forma de eco, a devolver-me a minha própria releitura.

terça-feira, julho 19, 2005

ÍCARO

Eu não tenho mais palavra nenhuma
Para exprimir o que passa comigo
Quero suave sumir numa bruma
Ter neste mundo somente um jazigo.

Queria passar por ti como amigo
Simplesmente como alguém que perfuma
Teu ambiente – p'ra nós muito antigo!
E estamos aqui... leves como pluma...

Sem sabermos desta vida mais nada
Que possa repor nossos pés no chão
E nos faça o bem de andar na calçada.

Que o ícaro perigo desta alçada
Nos seja rejeitado!... Mas então
É tarde, e nossa alma já está aleijada.

sexta-feira, julho 15, 2005

Hoje

Hoje estou voltando ao BLOG...

É a única página que me resta.

É o único espaço meu.

Um beijo a todos.

Fauth