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domingo, setembro 25, 2005

FONTE

Talvez eu vá à fonte
E descubra que as águas
– Matariam minha sede –
Vêm de uns olhos tristes
Por encontrarem os meus vidrados
Por sentirem da vida cansaços
Por não saberem que sonhos sonhar

Talvez eu vá à fonte
E veja as moedas dos meus desejos
– Nunca até agora satisfeitos –
Corroídas pela ação das águas-lágrimas
Enegrecidas de tanta submersão
Desprovidas já de todo e qualquer valor
Esquecidas no fundo do poço

Talvez eu vá à fonte
E descubra que há ópio naquelas lágrimas
– Não parecem, mas são minhas –
Desnorteando minha alma
Abalando a estrutura do meu ser
Corrompendo uma essência que eu julgava existir
Destruindo o que ainda resta de mim.

Talvez eu não vá à fonte.

domingo, setembro 11, 2005

SILENCIO

Eu mergulho tanto, tanto
Que sobe de mim um canto
Triste, muito triste
Com toda a beleza dos cantos que são tristes

Tão tristes são os cantos
Que brotam dos meus mergulhos
Que brotam pedregulhos
Por onde eu sei que vou passar

Não quero caminhar
Minha vontade é mesmo parar
Transformar-me em pedra
E ver a vida passar

Talvez – quem sabe? – ser o mar?
Palpitante, fazendo barulho
Destruindo gente
Mas calado, sempre calado
Porque o mar não fala
E o mar – cínico – se cala
Diante da tragédia

A realidade é que não sou mar,
Não sou pedra, não sou nada...
Sou o que recebe as conseqüências do viver
Sou o que sofre e – pior! – não se cala
Deram-me o dom da fala.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Nu diante do espelho

Não costumo olhar-me muito no espelho. Isso porque o que vejo geralmente não sou eu, mas um corpo estranho qualquer. Feio, sem expressão, com uma vida de comprometimentos que lhe modificou a face que era pra ser outra. Todas as vezes que estou diante do espelho, sinto que este lugar é por demais apertado para conter minha alma; e o que antes passava despercebido, traz agora esse incômodo que me aperta o coração.
Olhar-me no espelho é olhar pra minha cara, que parece suficiente para tentar desvendar o que nem sei sequer se está realmente oculto. O resto do corpo vem como adendo material desta cabeça que não parece mas é minha. É na cabeça que me sinto localizado. Mal localizado, pelo visto.
Apesar de nu e de meus olhos não deixarem de fixar-se mais demoradamente no sexo, sinto ainda que tudo é mero complemento perfeitamente dispensável. Meu pau aparece demais. Tanto quanto a palavra neste texto e, como ela, não pelo tamanho, mas pelo efeito que causa e por toda a metáfora que traz consigo desde as mais remotas encarnações. Traduz amor, morte, prazer e dor, tudo com seus sentidos mais primitivos que datam de antes da limitação, por estas palavras, daqueles sentires. E apesar de carregar tantos signos, meu pau, cabisbaixo, é só isso: carne da minha carne. Anexo da minha cabeça.
Meus olhos passeiam, como minhas mãos, pelo corpo, mas terminam sempre dentro dos olhos da imagem deste outro que está por detrás do espelho e que não é outro, mas eu mesmo, inacreditavelmente eu. Olhos nos próprios olhos tentando descobrir algo mais do que não sei sobre mim e a confusão só tende a aumentar. Procuro na boca as palavras que estão por sair e os beijos que nunca beijei. Gemidos que nunca gemi. Línguas que sempre sonhei. Lembranças do que nunca fiz por motivos vários são inevitáveis e prefiro não discorrer sobre isso. Prefiro continuar calado e deixar esse silêncio invadir-me e pesar sobre minhas costas, deixando-me assim, um tanto curvado. Silêncio que sufoca, fazendo com que minha boca esteja ligeiramente aberta, talvez mais por distração, mas há necessidade de sorver algo mais além do ar que está dentro deste silêncio e que toma conta deste quarto.
E só agora, vendo a boca aberta nas duas imagens, percebo que sou uma trindade. Não sou eu quem está diante do espelho e, muito menos é meu aquele reflexo. Sou o que olha por todos os olhos. Estou dentro de cada pensamento, sou a alma que trafega, livre, dentro desses corpos que tendem à podridão mas buscam negá-la, com suas poções milagrosas, suas vestes de ouro e colares de diamante. O que aquele ser, agora ajoelhado pelo silêncio, busca dentro dos olhos de si mesmo sou eu que o olha de cima e vê sua nuca. Um golpe com a foice e todo o significado do mundo derramar-se-ia em carmim. E foi assim que aconteceu.
Talvez não me compreenda muito bem o leitor por não possuir a vivência que tenho. Para mim não há idade, tempo ou tamanho. Tudo isso é carnal e efêmero. Basta-se a si. Eu não. Infinito, estou além do universo, realizo o que bem entendo e não acredito em Deus porque sei que não existe. Não da maneira que você imagina: acima de tudo e de todos. Deus dos exércitos, Deus dos homens, inventor de dilúvios e destruidor de sodomas. Não. Desses o inferno está cheio. Fugirá à compreensão e só servirá para gastar papel e palavras; por isso calo-me diante de sua dúvida e lanço a foice ao pescoço do infeliz que me procura dentro dos próprios olhos, entretido com a metafísica que não existe.
Logo o sangue escorre pelo chão do quarto vazio. Um chão de tábuas corridas a refletir os raios de sol que ultrapassam a vidraça da janela fechada e iluminam o homem e seu espelho. E só. Mais nada há no aposento, o que faz do bater a cabeça na madeira um som mais forte, mais amplo, que se encerra ali mesmo, sem mais delongas. A cabeça olha o sol, o corpo recosta-se ao chão e, como um cântaro, derrama seu conteúdo último de vida que brevemente secará, tornado-se inútil.
Não sei quem era ele, se tinha família ou sentimentos mais nobres. Tampouco faz diferença pra mim se ele ia à igreja aos domingos comer o pão que o diabo amassara, na véspera, antes de virar hóstia ele, o homem. Amizades, amores, paixões, obras em vida, nada levou consigo porque nada disso existe e por esse motivo é bobagem sua ficar impressionado com a foice que separou em dois pedaços de carne o que era um só. Você faz isso quase diariamente quando parte um bife e não se espanta.
O corpo partido resfriou-se, os reflexos sangüíneos tornam todo o ambiente avermelhado. É hora de partir para outra vida, escolher um alguém que pense menos e cuide mais dos músculos, dando valor a si mesmo enquanto corpo. Quero voltar a ter essa sensação de estar olhando-me ao espelho mais amiúde. Preciso sair daqui antes que seja tarde.
A imagem do espelho há muito já se foi.

sábado, setembro 03, 2005

ABRAÇO

A João Silvério Trevisan

O melhor abraço que recebi
Com o gosto literário de maçã
Foi o seu, João Silvério Trevisan,
Num dia de um sonho de Dalí.

Foi mágico o que aconteceu ali.
Queria o outro encontro já amanhã
– Não se trata de delírio de um fã –
Mas de um mundo novo que conheci:

Os sonhos e a necessidade humana
Esparramados assim pelo chão,
Palavra com música que se irmana...

Mexendo com nossa imaginação,
Entrevi, nesta vida tão insana:
Literatura cumprindo missão!

Wallace Fauth

Paralelos

Ontem estava pensando. Paralelo a isso, abria a porta do automóvel para ir embora. Pensava nas coisas que eu tinha para preparar, pensava nos prazos.

Domingo foi um dia eleito em que fixei meus pensamentos. No domingo e nos afazeres para que, na segunda, tudo estivesse pronto. Tudo dentro dos limites e dos "conformes" do que deveria estar pronto na segunda. Paralelo a esses pensamentos, eu ligava o carro.

Enquanto eu lembrava da farmácia, da rua em que eu deveria entrar para conseguir a vaga mais fácil e comprar o remédio que me fora pedido mais cedo, meu pé direito afundava no acelerador, minha mão direita engatava a ré e minha cabeça movimentava-se para trás. Eu estava saindo. Literalmente.

Eu ali, parado. Pensando. E, paralelo a isso, o mundo começava a movimentar-se do lado de fora. A cada virada no volante, cada pisada no acelerador, o mundo entendia o que eu queria e ia obedecendo. Ninguém compreendeu as duas voltas que eu dei naquele balão. Ou pensaram ter entendido: "ele errou a entrada". Mal sabiam as pessoas que eu brincava de girar o planeta a meu bel prazer, com a velocidade que EU desejasse. Paralelo a isso, os prazos chamavam-me à razão. Por que motivo eu girava sem sentido, sem função, enquanto estava sendo esperado?

Esperado pela mulher que, às seis horas, estaria atenta aos barulhos da casa, dos motores que passavam na rua, ciente da minha segura chegada. Esperado pela filha que necessitava do tal remédio. Nada grave, mas o pai estaria chegando com ele. Esperado, na segunda, com aquelas atividades prontas em mãos. Um texto para fazer, uma fiação para consertar, um telefonema prometido. Tudo me esperava.

Mas eu morri. Ninguém estava comigo ou me vendo naquele instante. Poderia estar morto e ninguém saberia, pois ainda estava dentro do prazo, apesar da terceira volta na rotatória, fazendo o mundo girar. Eu parado, o mundo girando, as pessoas passando nesse carrossel e olhando para mim ali, no centro de tudo, de todos os acontecimentos e perfeitamente dentro dos limites do tempo.

Às seis horas a porta não se abriria. Às sete horas a esposa estaria com o telefone na mão. No dia seguinte, várias pessoas estariam em polvorosa a me procurar porque ultrapassara os limites que haviam me imposto. Não cumprira o tempo regulamentar, social e lógico do planeta.

Atravessando a margem do tempo e dos espaços dirijo o mundo como quero, sem precisar aonde pretendo chegar, simplesmente porque não pretendo nada além de pisar num pedaço do terreno da morte. Dou um pequeno chute na fragilidade das horas e gargalho dos círculos concêntricos que vão se formando, causados por essa pequena pedra que lanço displicentemente no silencioso lago que, faz-nada, está ali.

Paralelo a isso, chorarão os que se julgavam ligados a mim. Bem que sentiram algo estranho no ar - dirão. Mas só sentiram depois do prazo, tenho certeza. Um minuto que fosse, mas sempre depois da hora mais que prometida: comprometida. Antes não haveria como sentir. Nem eu sabia da quarta volta do balão.

Se, em vez de círculos a queimar combustível, eu estivesse a dirigir minha alma em direção aos céus ou infernos prometidos pelas vãs igrejas, ninguém estaria sabendo. Não agora, que encontro-me dentro do tempo que me foi dado e permitido e que faço dele quase tudo o que quiser.

Na quinta volta, quando faço o mundo girar mais rápido e aprofundo-me nas próprias entranhas, desperto alguém que está ali para não deixar que o mundo se desgoverne. Alguém que observa esse girar monótono e não permitirá que outro venha revolucionar o que anda "normalmente". Normais são os acidentes, normais os assassinatos, normal é a vida que levamos todos os dias, meio que dormindo no sem-querer da existência, ora porque dormir é mais fácil, ora porque não queremos ser acordados propositadamente pelo pedinte do sinal. Preto. Feio. Sujo e fedorento preto do sinal a querer empurrar-me sem-delícias balinhas. Dormir é melhor.

Como aquele pedinte, começo a acordar gente. A sétima volta está demais. Já não chegarei mesmo às seis horas em casa. Nem mesmo parei na tal farmácia.

Mundo-carrossel que fiz pra mim, mas já a mão autoritária recorta-me da minha própria vida que pensei ter em minhas mãos. Como um texto pronto, minha vida já não é minha. É dos outros. É desse mundo ridículo como aquele uniforme unicolor azul. Ridículo como tudo o que é uniforme e não varia. Ridículo como um dia após o outro em que sabemos de antemão o que vai acontecer. Um mundo onde o dejá-vu é, de certa forma, aguardado. Gostamos de repetições. Repito, portanto, aquele diálogo absurdo:

- O que o senhor está fazendo? Deve ser a décima volta que dá nesse balão. - pergunta o policial, cumprindo o seu prazo, estabelecendo e mantendo os limites do que aprendeu serem os aceitáveis.

- Estou passeando.

- Está procurando alguma entrada? Está perdido?

- Não. Estou dando umas voltas. - Disse isso sem conseguir segurar o riso que àquele homem pareceu deboche, mas eram as cócegas da semântica que brincava em meu cérebro. O sentido daquelas voltas era diferente para cada um de nós. Para mim, ele é que girava. Para ele, eu era um louco que provocava sua ira.

- Documentos, por favor. - Pediu o guarda com gravidade.

Não sei para que servem os documentos, mas a falta deles é razão suficiente para sermos classificados como personas non gratas para a sociedade. Não podemos ser sem-registro. Os índios podem e nunca serão incomodados por isso. Vivem num mundo paralelo ao nosso, mas também têm seus tempos, seus compromissos, suas misérias. Eu não era índio e tinha documentos. E os documentos serviam para mudar o assunto. Quando a autoridade não tem motivos para interromper nosso curso natural, ela pede os documentos. Por que sou obrigado a parar? A vontade que tenho é mostrar os documentos metafóricos que levo por dentro das calças e gargalhar dos cornos previstos com que o filho de uma égua fuzilar-me-á.

Mas não. Sou educado. Ultrapassei os limites do esperável e o polícia não encontrava registro, no regulamento, capaz de impedir alguém de dar quantas voltas quisesse numa rotatória.

- Pode ir. Tudo bem. - Liberou. - Vai continuar dando voltas?

- Há alguma objeção?

- Não. Mas é muito estranho. Talvez o senhor necessite de algum tratamento.

- Pode ser. Tchau.

- Tchau.

Paralelo a isso, pessoas me esperavam. Minha vida me esperava. E eu tinha prazos a serem cumpridos. Ia pra casa normalmente, dessa vez, mas pensava na espiada que tentei dar numa dessas brechas da vida e descobri que há vigias por lá. Em cada esquina alguém olha para você à espera de uma resposta que aprove a própria existência. E esse alguém, que somos todos nós, só sabe que existe e que é normal porque é solene e educadamente ignorado nessas avenidas do cotidiano.
(TEXTO DE 04 de setembro de 2000)