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sexta-feira, novembro 10, 2006

sereia

Há uma certa apreensão no ar
Tudo vai muito estranho
As pessoas parecem sumir
De repente, todo o mundo é tímido
Ninguém diz nada

Tudo está calado

E só eu assoviando

Nessas horas entendo as sereias!

– Venha!

segunda-feira, outubro 02, 2006

REI

Incessantemente
Os raios da manhã
Enchem-me de poder e malícia
Visto-me com majestade
Pouso a coroa de ouro sobre a minha cabeça
E sorrio diante do espelho
Tão belo me vejo
Com esse ar superior de semideus
Suspiro minha superioridade
E vou!
Cabeça erguida e olhar altivo
Caminho devagar
Arrastando a cauda vermelha
De minha veste régia
E todos, então, são meus súditos
Ajoelham-se quando eu passo
Espíritos abertos a qualquer palavra minha
Vox Dei
Segurando firme o cetro
Bem do alto do meu trono coberto por brilhantes
Dou ordens o dia inteiro
Depois, escolho a mulher que eu quero
Lambuzo-me o quanto posso
E ronco na minha felicidade real!
E nesse sono profundo e delicioso
Não me importo que digam:
“O rei está nu”.

sábado, setembro 02, 2006

Colapso

Minha mente sobrevoa mansa o abismo
Em meus pés há pregos enormes
Eu não me precipito em você
Seus olhos são duas glandes querendo me comer
Sua boca resume-se a um traço
À minha frente explodem edifícios
E você só é branca por causa da fumaça
Seu cheiro e seu ódio derramam-se em meu continente
Mas sou apenas uma ilha deserta
Não queira habitar-me: aqui não há comida
Não há nada em mim
Seguro com força o fio desencapado
Mas o susto do choque não me diz nada
Meu coração pára, minha mente entra em colapso
E sinto-me feliz
Adoro quando isso acontece:
O nunca fica diferente.

Revólver

Meu coração sangra
Por eu não ter o mundo nas mãos
Quem sou eu
Para querer direcionar tua arte?
Não posso ser senhor e dono da alma de ninguém
Se nem mesmo a minha alma eu governo
O pneu do meu carro passa sobre uma cabeça
E eu não sei em qual esquina devo parar
Acelero e vou em busca do infinito
Por que a necessidade desse derramamento de alma?
Estou cansado de transbordar
Minha alma vai pingando cintilante pela cidade
E os pontos fosforecentes que vou deixando
Não servem para o caminho de volta
São apenas alimento de um pássaro que retorna eternamente
Depois de comer os pedaços de mim
Perco o equilíbrio de novo
E minha apresentação nessa corda bamba é triste
Palhaço de circo
Não nasci para isso
Mas teimo em ter o mundo nas mãos
Por mais que me mostres que atiras para onde quiseres
Por isso eu sou nada
Nem gatilho, nem pólvora
Porque a arma é tua
Eu chupo as balas do teu revólver
E elas têm gosto de carmim
Do meu corpo inteiro saem lágrimas
São suores de um mundo impossível
Eu não sou capaz de retornar
Avançar ou pausar
Ainda não inventaram o controle remoto da vida
Por isso meu coração sangra
Tuas direções são só tuas
E o meu poder se encerra em mim
O resto são sonhos
(e eu ainda acredito neles).

sábado, agosto 26, 2006

Erótico

A Rogério Skylab

Não entendo.
Por que vejo bundas e peitos gostosos
E não fico de pau duro?
E por que, enquanto leio um livro,
Sem pensar em sexo,
Meu pau entumesce?
Acho que o pau endurecer ou não
Nada tem a ver com sexo.
Ou então,
Meu tesão é maior pelos sonhos
Pelos pensamentos
Pelas pessoas
Do que assim, propriamente,
Pelas “mulheres”.
Meu tesão é pela vida!

Imunda

Eu apertei os meus olhos
Profundamente
“Palavras tão secretas não podem ser reveladas”
Mas tão profundamente…
Ao apertá-los mais
“Palavras tão secretas não podem ser reveladas”
A buzina de um automóvel despertou-me.

A realidade se faz presente
Olha nos meus olhos bem fundos
Como se quisesse dizer algo
“Palavras tão secretas não podem ser reveladas”
Mas permanece imóvel, absorta,

E muda.

sexta-feira, agosto 18, 2006

"Toda vez que eu olho no espelho
a minha cara
Eis que sou normal
E que isso é coisa rara!"
Raul Seixas
(Mas era eu que deveria ter escrito isso!)

quinta-feira, agosto 17, 2006

Estou a fim de fazer isso...

Tenho que ficar explicando???
Penso muito o tempo inteiro. E isso, aparentemente, não me tem feito bem. Porque não me faz bem, como pessoa, perder noites de sono, perder dias de trabalho, prejudicar-me no emprego, nos relacionamentos, no eu.
Tudo besteira! Simplesmente porque eu não sei o significado de prejudicar-me. Alguns se prejudicam fumando, bebendo ou comendo no shopping. Mas comer no shopping é ajuda, não é prejudicamento. Dormir é ajuda. Beber água é ajuda. Almoço de domingo com a família. Praia com direito a piscininha inflável de água doce e aquela criança obesa e loira sorrindo, com dois dentinhos inferiores, para você tal qual propaganda de banco. Que delícia de vida magnífica é essa de poder chegar em casa e sofrer com a dúvida: alugo um DVD ou assisto ao Telecine da Net? Melhor dar um mergulhão na piscina! Mas são quatro da manhã!! Você é louco mesmo (risos de pasta de dente televisivos)! Ai, que vida invejável: correr e tomar um isotônico! Um dia chego no isotônico, porque por enquanto só corro!
Socorro!
Não adianta olhar para o céu. De lá só vem calor e águas. Não adianta olhar para baixo: sob seu pedestal só há cimento cru. Mas você olha para frente e vê o nada. Se virar o pescoço para trás, cai. O que fazer além de respirar e esperar. A espera é um dos sinônimos da eternidade. Quer ser eternizado? Fique onde está. Não é preciso fazer nada. Você terá o seu quinhão. Eu prefiro viver.
Salto. Esborracho-me e viro outra coisa. Qual o problema de ser um cão? Docilidade e obediência irracional, como nos quartéis. Direita,volver, quando estou querendo ver, ao fundo, o soldado que foge do passarinho só porque não está em casa. Nem ele, nem o passarinho. Daí a luta libanesa retratada no microcosmo. Batem asas, batem mãos, mas ninguém essencialmente odeia ninguém. O pássaro é lindo, já o soldado… É só um soldado.
Canso-me de olhar para tudo. Quero, então, fechar os olhos e dormir: isso é ajudar a mim, sonhar, voar. Asas de cera.
Um poema é escrito
Quase com sangue.
Bem fez a Ana que,
Cansada da poesia,
Foi ver o mundo.

Açucareiro

Isso é um açucareiro
Não um cinzeiro!

Obrigado pelo aviso.
Estava tão bom
Tão doce
Mas acho que o dia começou, né.
Vamos, então?

Memória

Minhas decisões bêbadas
Atordoam meus pensamentos
Tudo já foi, tudo já era
E eu entro no túnel
Do que já não importa
Não há condições, não há mais espera
Não há mais nada:
O beijo-na-boca esvaziado
O êxtase sem ter sido
O foco da luz que se apaga
Enquanto a memória
Ah, a memória!
O tudo que eu sei
De quem já não fui.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Eis a minha cama!
Buraco negro de ácido –
Líquido Jasmim
Por onde se desenham abismos sob meus pés.
Meu corpo assim
Descalço, desfalecido, cansado
Vai submergindo
Na escuridão do que não sei.

sexta-feira, agosto 11, 2006

No Sobrado dos Calixtos

A Giancarlo Mecarelli

Corpos lindos no Sobrado dos Calixtos
E ali estão, negros,
Fagulhas e bicos de seios
Corpos-serpentes cativando os homens no feitiço
Ou por gostosa e sabida de cama
E a negra, brilhante, segura a barra
Chocolate branco que quero comer
Me lambuzar e escorregar
Por todos os seus brilhos e contrastes
- Não lhe parece que cada um tem o direito de viver sua vida em paz
Sem ninguém nela se envolver?
E que berros horríveis são esses
Nos confins da cidade
Nos confins de mim mesmo
(onde vivem raras rameiras)?
Ah, Giancarlo!
Vosmicê encontrou a poesia da vida
Vosmicê apreendeu o valor de Tereza!

(sobre exposição de fotos "Beleza Afro-brasileira", Galeria ZOOM, em Paraty - criação sobre trechos de Jorge Amado)

domingo, agosto 06, 2006

Não quero sentir – digo a mim mesmo –
Mas é inútil
É como não querer pensar
Respirar
Não quero sentir
Mas vem o Sol e queima minha pele
(sem pedir licença)
Eu beijo o rosto impresso nas trinta moedas
E gasto outras trinta com o impossível
Que é como não sentir
Entretanto sinto muito
Meu pescoço espera a corda
A faca, o tiro
Mas o que vem é sentimento
E eu não quero
Ando fugindo de todo o mundo
Mas todo lugar é o mundo
E não há como esconder
Os sentidos, as facas, as cordas
Não há como correr
Dos tiros, dos barulhos, dos sonhos
Então me atiro no lago negro
Cheio de lama e dúvidas.

sexta-feira, abril 21, 2006

Impressões Karmicas

Nada tinha a dizer.
A mesma rapidez do encontro – que eu queria
Ela proporcionou.

Rapidez eterna.

Beija-flor, com asas batendo muito rápido,
Perto de outro beija-flor…

Foi assim.

Beija-flores não se bicam,
Mas têm a prerrogativa dos beija-flores:
A doçura
A candidez santa
Os objetivos etéreos-aromáticos dos toques imperceptíveis.
Enquanto isso as asas
(Coração da gente)
Batendo mil vezes por segundo…


Tudo. Tudo para que fiquemos parados assim

No ar

A sorver o que há de mais lindo entre as pétalas
Asas de Borboleta.

segunda-feira, abril 17, 2006

E as coisas vão passando...

Segurança Nacional

O soldado Cleber
Do blog
Bebe
Dança
Ri
E não vai embora
Dorme na rede
Perdido em casa alheia
e depois…

quarta-feira, abril 05, 2006

Montador

Ontem eu montava ventiladores
Hélices, vértices, vórtices
Ferramentas sobre ferramentas
Sobretudo
As chaves!

E as chaves, levo-as comigo:

Em casa, o chuveiro
Na rua, um amigo:
As coisas montadas aqui.
Outras, em muitos lugares
– Quase todas sem terminar –
defeitos de fábrica
sabe como é, seu moço, a gente não tem controle…
Ao menos tenho as chaves
E posso tentar consertar.

E essas chaves, levo-as comigo:

No trabalho, trabalho com elas
Montando ventiladores
Hélices, vértices, vórtices
Ferramentas sobre ferramentas
Sobretudo
As chaves!

E essas chaves, levo-as comigo:

Abro os brutos ventiladores do Exército
Conserto os relógios da Estação Central
Monto e desmonto tudo
Até a mim mesmo, se preciso for.
Simplesmente por causa dessas malditas chaves!

Mas essas chaves, levo-as comigo:

Pesam no bolso, chacoalham, chateiam
Precisam de cópias e disso eu já sei!
Pois perdem-se as chaves, perco meu mundo,
Perco meu dia, perco o além.

As chaves que tenho não abrem os moinhos
Que só Dom Quixote tem.

sábado, abril 01, 2006

Sangue da madrugada

As portas estão se fechando
As pessoas estão saindo
E eu…

Sinto isso.

Não deveria estar aqui.

Mas agora é tarde!
E a bala que atiro em seu peito
Faz parte de um prazer mórbido que sinto por estar vivo.

Você morre

E eu sinto por estar vivo…
não suporto mais você
o desejo se apagou há tempos
o respeito, a tolerância
a amizade, se é que
chegaram a existir
realmente

sexta-feira, março 31, 2006

Recado

Eu queria deixar um recado
E seria mais ou menos assim:
Oi, meu amor, tudo bem?

***

Eu queria deixar um recado
Mas não sei
Ser mais ou menos
Assim.

quinta-feira, março 30, 2006

Céu

Você é maluco!
Eu sorri.
Maluco não, você é alcoólatra.
O sorriso acabou.

Sentei no muro
Bêbedo
Balançando a perna direita.

Naquele dia contemplava o céu.

quinta-feira, março 23, 2006

Bússolas

Navegando com carta na mão
E bússolas espalhadas por toda a embarcação
Singro rumo a uma ilha desconhecida
Cabeça erguida, olhos ao longe
E a segurança própria dos que sabem para onde vão...

Vencendo tempestades e monstros marinhos
Insensível ao canto, à dança e à magia das sereias
Rezo ao bom Deus para que as noites sejam menos tenebrosas
E a cada dia sinto-me mais próximo...

Durante a viagem não penso na ilha.

Preocupa-me a saúde dos marinheiros
O estado das cordas
A ferrugem da âncora
As condições dos botes possíveis
(Qualquer coisa que aconteça...)
Vidas salvas!

Antecipo-me, acautelo-me, vigio...
Tudo vai bem
Não falta água nem alimento
Os tripulantes dormem e eu
Alerta
Conduzo o barco
Singrando águas geladas e escuras.

Durante a viagem não penso na ilha.

Penso no quando se a chuva cai
No sonho se o dia vai
No dia se o barco chega
No mar de água e sal.

O Sol, o calor, o luar
A calmaria infinita da certeza
Dos caminhos vazios mas cheios de coragem
E a beleza que a tudo isso acompanha
Como gaivota enfeita o ar.

Durante a viagem não penso na ilha.



* * *



Eis que a ilha se mostra e é nada
O objetivo da viagem, então,
(E isso é o mais certo de todas as certezas)
Nunca foi outro senão:
a própria viagem.

Se é assim
Se estamos dentro do barco
E não há como voltar...

Se o destino é incerto
E o itinerário eternamente circular...
Só há dois caminhos:
Um que não caminha
Outro que descaminha.
Seguir o primeiro é lançar a âncora e aguardar.

Rasgo, então, a carta
Desfaço-me da âncora
Solto o leme e vou passear
Lançando bússolas ao mar...

Sem ilhas nem cautelas
Entorpecido pelo vento
Navego à esmo em busca do nada
Singrando a incerteza de qualquer chegada.

Dizem-me enlouquecido
Pensam-me desorientado
E eu não quero explicar
(dificilmente entenderiam)
Que ao fim e ao cabo
Não haverá ilha, só barco.

sábado, março 04, 2006

Empreste-me o seu sorriso...

Empreste-me o seu sorriso
É que vou sair por aí
Encontrar uns amigos
Uns desconhecidos
Umas pessoas diferentes
E não posso ir assim, com essa cara

Empreste-me o seu sorriso
É que vou comprar um barco
E, como sabe, não tenho muito dinheiro
Navegar até você é preciso
Que não seja um qualquer
Vapor barato

Empreste-me o seu sorriso
É que vou acordar mais cedo
Preciso trabalhar nessa vida
Inteira
Toda
Muito...
Nossa!

Empreste-me o seu sorriso
É que vou para a guerra
Vestir a farda
Dar uns tiros para matar
Umas pessoas diferentes
Uns desconhecidos
Quem sabe uns amigos

Empreste-me o seu sorriso
É porque vou me vestir bem
Gastar o pouco que ainda me resta
E atirar-me
Ao abismo
Da arte
Da loucura
Da música
E de tudo que dança
No coração.

domingo, janeiro 29, 2006

Soneto falso

O soneto abaixo foi escrito por um personagem de um romance para sua amada. Portanto, por mais belo que pareça, é falso. De alguém que não existe para outro igualmente fictício.


Ana

Das brumas que jazem na paz celestial
Enleada pelas alegrias circenses
Surges diante de mim em branco angelical,
Vestidos esvoaçantes e refulgentes.

Teu olhar para mim absorto e ancestral
Cabelos negros derramando-se plangentes
Em melancólico choro de alma imortal
Que sabe a dor de viver de todas as gentes.

Olhas para dentro de mim e não me vês
Porque já não estou onde deveria estar
Sou uma parte de ti ou daquilo que crês

És um sonho divino que me veio amar
Desse jeito perfeito em sua lividez
Com a calma, a beleza e a estranheza de um mar.

(Dimas Silva)

sábado, janeiro 14, 2006

Não consigo livrar-me das coisas que nunca tive

Não consigo livrar-me das coisas que nunca tive
Antes de vir ao mundo não era nada, não tinha nada
Deram-me a vida e tudo o que nela há:
Plantas, animais, coisas e pessoas...
E eu inocente no meio de tudo!
Deram-me ensinamentos
Certos, errados, além de conceitos variáveis de um a cem
Fui classificado em tudo o que fiz
Bom, muito bom, excelente, ruim – sofrível
Desclassificado, algumas vezes...
Tornei-me sonso, idiota, esperto,
Nerd, CDF e fodão
Fraquinho, bobinho e ridículo
Hippie e militar certinho
Cabeludo e reco, soldado padrão, moleque ladrão
Magrelo, pele-e-osso, cabide, narigudo
Gordinho, engraçadinho e beberrão
Católico, protestante, ateu e Hare Krishna
– “Jamais aquilo!” “– Nunca isto!”
Tanta certeza sobre tantas coisas...
Como se eu fosse capaz de eternizar o efêmero,
Quis ser o dono da verdade e do mundo inteiro
Mas já agora, o que faço com tudo isso que não é meu?
Que nunca tive e que não estava comigo quando aqui cheguei?
Todas essas coisas
Deram a mim sem consultas e gratuitamente,
Aí está a minha fortuna que não quero.
E a definição do que é impossível torna-se bastante clara:
Não conseguirei livrar-me dessas coisas que nunca tive.