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domingo, janeiro 29, 2006

Soneto falso

O soneto abaixo foi escrito por um personagem de um romance para sua amada. Portanto, por mais belo que pareça, é falso. De alguém que não existe para outro igualmente fictício.


Ana

Das brumas que jazem na paz celestial
Enleada pelas alegrias circenses
Surges diante de mim em branco angelical,
Vestidos esvoaçantes e refulgentes.

Teu olhar para mim absorto e ancestral
Cabelos negros derramando-se plangentes
Em melancólico choro de alma imortal
Que sabe a dor de viver de todas as gentes.

Olhas para dentro de mim e não me vês
Porque já não estou onde deveria estar
Sou uma parte de ti ou daquilo que crês

És um sonho divino que me veio amar
Desse jeito perfeito em sua lividez
Com a calma, a beleza e a estranheza de um mar.

(Dimas Silva)

sábado, janeiro 14, 2006

Não consigo livrar-me das coisas que nunca tive

Não consigo livrar-me das coisas que nunca tive
Antes de vir ao mundo não era nada, não tinha nada
Deram-me a vida e tudo o que nela há:
Plantas, animais, coisas e pessoas...
E eu inocente no meio de tudo!
Deram-me ensinamentos
Certos, errados, além de conceitos variáveis de um a cem
Fui classificado em tudo o que fiz
Bom, muito bom, excelente, ruim – sofrível
Desclassificado, algumas vezes...
Tornei-me sonso, idiota, esperto,
Nerd, CDF e fodão
Fraquinho, bobinho e ridículo
Hippie e militar certinho
Cabeludo e reco, soldado padrão, moleque ladrão
Magrelo, pele-e-osso, cabide, narigudo
Gordinho, engraçadinho e beberrão
Católico, protestante, ateu e Hare Krishna
– “Jamais aquilo!” “– Nunca isto!”
Tanta certeza sobre tantas coisas...
Como se eu fosse capaz de eternizar o efêmero,
Quis ser o dono da verdade e do mundo inteiro
Mas já agora, o que faço com tudo isso que não é meu?
Que nunca tive e que não estava comigo quando aqui cheguei?
Todas essas coisas
Deram a mim sem consultas e gratuitamente,
Aí está a minha fortuna que não quero.
E a definição do que é impossível torna-se bastante clara:
Não conseguirei livrar-me dessas coisas que nunca tive.