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sexta-feira, março 31, 2006

Recado

Eu queria deixar um recado
E seria mais ou menos assim:
Oi, meu amor, tudo bem?

***

Eu queria deixar um recado
Mas não sei
Ser mais ou menos
Assim.

quinta-feira, março 30, 2006

Céu

Você é maluco!
Eu sorri.
Maluco não, você é alcoólatra.
O sorriso acabou.

Sentei no muro
Bêbedo
Balançando a perna direita.

Naquele dia contemplava o céu.

quinta-feira, março 23, 2006

Bússolas

Navegando com carta na mão
E bússolas espalhadas por toda a embarcação
Singro rumo a uma ilha desconhecida
Cabeça erguida, olhos ao longe
E a segurança própria dos que sabem para onde vão...

Vencendo tempestades e monstros marinhos
Insensível ao canto, à dança e à magia das sereias
Rezo ao bom Deus para que as noites sejam menos tenebrosas
E a cada dia sinto-me mais próximo...

Durante a viagem não penso na ilha.

Preocupa-me a saúde dos marinheiros
O estado das cordas
A ferrugem da âncora
As condições dos botes possíveis
(Qualquer coisa que aconteça...)
Vidas salvas!

Antecipo-me, acautelo-me, vigio...
Tudo vai bem
Não falta água nem alimento
Os tripulantes dormem e eu
Alerta
Conduzo o barco
Singrando águas geladas e escuras.

Durante a viagem não penso na ilha.

Penso no quando se a chuva cai
No sonho se o dia vai
No dia se o barco chega
No mar de água e sal.

O Sol, o calor, o luar
A calmaria infinita da certeza
Dos caminhos vazios mas cheios de coragem
E a beleza que a tudo isso acompanha
Como gaivota enfeita o ar.

Durante a viagem não penso na ilha.



* * *



Eis que a ilha se mostra e é nada
O objetivo da viagem, então,
(E isso é o mais certo de todas as certezas)
Nunca foi outro senão:
a própria viagem.

Se é assim
Se estamos dentro do barco
E não há como voltar...

Se o destino é incerto
E o itinerário eternamente circular...
Só há dois caminhos:
Um que não caminha
Outro que descaminha.
Seguir o primeiro é lançar a âncora e aguardar.

Rasgo, então, a carta
Desfaço-me da âncora
Solto o leme e vou passear
Lançando bússolas ao mar...

Sem ilhas nem cautelas
Entorpecido pelo vento
Navego à esmo em busca do nada
Singrando a incerteza de qualquer chegada.

Dizem-me enlouquecido
Pensam-me desorientado
E eu não quero explicar
(dificilmente entenderiam)
Que ao fim e ao cabo
Não haverá ilha, só barco.

sábado, março 04, 2006

Empreste-me o seu sorriso...

Empreste-me o seu sorriso
É que vou sair por aí
Encontrar uns amigos
Uns desconhecidos
Umas pessoas diferentes
E não posso ir assim, com essa cara

Empreste-me o seu sorriso
É que vou comprar um barco
E, como sabe, não tenho muito dinheiro
Navegar até você é preciso
Que não seja um qualquer
Vapor barato

Empreste-me o seu sorriso
É que vou acordar mais cedo
Preciso trabalhar nessa vida
Inteira
Toda
Muito...
Nossa!

Empreste-me o seu sorriso
É que vou para a guerra
Vestir a farda
Dar uns tiros para matar
Umas pessoas diferentes
Uns desconhecidos
Quem sabe uns amigos

Empreste-me o seu sorriso
É porque vou me vestir bem
Gastar o pouco que ainda me resta
E atirar-me
Ao abismo
Da arte
Da loucura
Da música
E de tudo que dança
No coração.