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domingo, novembro 25, 2007

Ritmo do dia

Você acorda, manhãzinha, e qual é a primeira coisa que faz?
A primeira coisa que pensa?
Arrumar-se? Tomar o remédio?
Um possível atraso?
Eu penso em mim
Em meu corpo
Naquilo que sou
Entro, então, no ritmo do dia
E seja o que Deus quiser!

quinta-feira, novembro 15, 2007

A moça no banco de trás do táxi

A moça no banco de trás do táxi
Olha
Através dos meus olhos
Bem dentro de mim
No outro carro, na outra vida.
Nada há que interesse em nós
A não ser essa devassa
Que cada um faz no outro
Sem ver nada porque nada há.
Tenho dentro de mim muitas coisas
Essas coisas todas: minha riqueza –
Um baú de jóias das mais raras
Das mais brilhantes.
Com medo de ser roubado, apago a luz
Sei que ela nada enxerga, agora,
Porque também apagou a sua luz
E o que vemos agora é só um desafio:
O que há? O que é? O que houve?
Por quê?
A única luz que acende
É a verde – um farol.
Ela segue em frente
E eu estaciono poema.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Um doce aroma de morte

Ler Guillermo Arriaga é conhecer um mundo diferente.
Ao mesmo tempo é ler um best seller
Ao mesmo tempo é amar você!
Amor tão lindo acontecendo
Dias Gomes ressuscitando
A vida sendo levada por intrigas
A gente, "bobinha", sendo levada pela correnteza
Dimas, Arthur Schopenhauer, Graciliano Ramos
Pessimismos todos, sensações ruins
Uma linguagem boa e tudo, o mais, no fim:
Um doce aroma de morte!

sexta-feira, setembro 14, 2007

Preconceito

O olhar asiático tem muita raça
O olho negro-vermelho dá medo
Mas os dentes brancos de todo o mundo
São portas abertas de simplicidade
Alegria que há muito se perdeu…
Alegria que vai além do branco
Além dos dentes
Além dos olhos
Além de tudo
Está na boca escancarada
Que gargalha do mundo
Sem dentes, sem cor, sem nada

Sem mim

Gargalhada!

quinta-feira, setembro 06, 2007

PUNHETA II

Deixa eu tentar explicar. As punhetas que se tocam “em homenagem” a “A”, “B” ou “C” não são, efetivamente, tocadas com o pensamento no ato sexual com tais pessoas. Imagina-se a boca, a pele, a temperatura das entranhas. Imagina-se e é só. Se a pessoa “homenageada” aparecer dizendo “vem”, eu não vou! Porque a boca, a pele e a temperatura não vão condizer com a expectativa. Portanto, “homenagear” alguém é uma forma de condenar essa pessoa a nunca mais fazer sexo com você. Se ela quiser, você “amarela”, entende?

O que estou tentando dizer é que fazer uma “homenagem”, numa punheta, não é o mesmo que “desejar”. Quando toco uma punheta pensando num boquete da Angelina Jolie, por exemplo, não é que eu a queira aqui, agora, fazendo isso. Ainda mais porque não sei se sua pele, seu cheiro e sua temperatura vão me agradar. Só quero dela a imagem de sua boca subindo e descendo e lambendo e mais nada. O mesmo acontece em um filme pornográfico. Não queremos aquelas mulheres, mas suas representações. Quem não consegue separar essas coisas corre um sério risco: fazer de suas amadas não-pessoas, mas objetos de prazer. Seria como casar-se com um vibrador.

Essa talvez seja a diferença entre transar e fazer amor. Transar, sim, pode ser com qualquer um ou com qualquer coisa: uma pessoa, um vibrador, uma bananeira, um touro, uma vaquinha… A gente pensa na Angelina Jolie e põe o pinto nos beiços de um bode. E goza! Para isto servem as angelinas: para comermos de olhos fechados.

Mas o nosso amor, não! Quando fazemos amor, curtimos o corpo do outro, seja ele como for. Não importa o padrão de beleza, mas tudo o que sentimos. Quando fazemos amor, não é o corpo do outro que tocamos, mas a sua alma. Cada pequeno toque é cheio de energia capaz de fazer estremecer o mundo! E não se trata de exagero o que estou a dizer: experimente tocar em uma mulher pensando exclusivamente nela, porque só ela é o amor da sua vida… Ponha todo o universo de sua alma nas pontas dos seus dedos e perceberá que, dessa forma, conseguirá tocar na alma dessa mulher. Dispa-se de suas fantasias e seja completamente você mesmo dentro dela e ela saberá que você, inteiro, está ali, e os dois perderão os limites – onde começa um e termina o outro?

Quando isso acontecer, pode ter certeza: vocês fizeram amor!

25/08/2007

Não me chame para coisas rígidas
A ponte é pênsil
Apesar do poço profundo...

Quem não quer arriscar
Que se atire!

quarta-feira, agosto 29, 2007

Cães

Oito ou oitenta?
Setenta vezes sete
Meia, meia, meia
Cães adoram meias
E eu, como bom moço,
Adoro cães.

Tempo

Dividiram o mundo em séculos…
Mesmo assim os atravessei
Não é fácil, eu sei!
Não é fácil mesmo!
Dizem que tudo vai acabar
Bombas ameaçam tudo explodir
A gente vai ficando triste
Muito triste
Mas nenhuma bomba explode
E o mundo continua assim:
Vai, não-vai, vai, não-vai…
E nesse ir-e-vir vejo séculos passando
Não muito diferentemente dos anos
Dos dias
Das horas
E cada segundo meu é demais!
(sem blasfêmias: sei do tempo de Deus)

sábado, agosto 25, 2007

Mãe de Deus

Um dia
Tanto fez
A nossa Maria –
Mãe do Menino Jesus...
Beijei-lhe a boca!
Ela queria mais,
Mãe que era...
Não resisti.

Nenhum Jesus Nasceu.

Outro dia
A nossa Maria –
Agora Nossa Senhora Respeitável...
Pedi-lhe a boca!
Assim fez, como se quisesse paz:
Embarcar dali mesmo – o cais.

Nenhum Jesus ia nascer.
Nunca mais...

Os barcos pairavam
Luzes artificiais nas águas –
mais bonitas...
Luas, luas e mais luas naquele porto
De sol a sol, todos os dias
Sem ninguém.

Só Maria ali
Imóvel a olhar navios –
Nossa Senhora Minha
Mãe de Deus
Amém!

quarta-feira, agosto 15, 2007

Mulheres

As mulheres são tão bonitas!
(Como conseguem conversar com homens?)
O olhar escondido entre os cabelos
Os versos que saem dos seus gestos
E essa infinidade de pensamentos
Tão pequenos… Tão pequenos…
Mas tantos, tantos e tantos…
Que juntos formam a copa de uma árvore!
A árvore mais linda que se pode ver
Quando a gente olha pra cima
Contempla o céu sereno
E essas folhinhas vibrando à luz do sol que vai…

domingo, março 11, 2007

REVÓLVER II

Tem um jornal ali fora
Olhando pra mim
Sei disso
E não quero saber de mais nada

O jornal, o sol, o plástico
O dia que vai indo
E eu não sou capaz…

Nada, na minha vida, aconteceu porque eu quis
Nada, na minha vida, aconteceu…
Na minha vida… Nada

Grito! E mandam-me calar
Achei que o grito era o que me restava
Nem isso!

Vou arranjar um revólver
Para poder gritar pelo cano

Eu só queria que respeitassem
Esse meu modo de sentir.


sábado, março 10, 2007

PUNHETA

Nessas horas, minha merda
Cheira a frutos do mar
Não porque eu os tenha comido
Mas porque produzo em mim
Meus própios prazeres
Meus sonhos, minha vida
Minha merda…

Tudo meu em mim mesmo
Em egoísmo próprio
De mim mesmo e para mim mesmo
Como quem se mata!
(Prazer solitário)

É tudo tão triste…
As coisas parecem ser tão ruins…

Mas estou aqui e gozo!
Gozo gostoso
Mais gostoso do que muita gente
Que não goza
E acha que a vida é assim
Mesmo…

Sem vida

sábado, fevereiro 24, 2007

DIÁRIO DA FLIP III (final)

DOMINGO – 13 de agosto

Meu ônibus estava previsto para sair às 14h30min. Isso significa que eu deveria passar no hotel e já assistir à Adélia Prado com a mochila nas costas. Foi o que fiz. Tomei um delicioso banho e fui embora para a mesa 16, cujo tema era "Bagagem". A propaganda do folheto que eu carregava nas mãos já prometia:

Arte, ciência, filosofia e religião nascem da nossa busca por respostas a perguntas fundamentais relacionadas à gratuidade de nossa existência. Porém, argumenta Adélia Prado, somente a arte e o misticismo, que ultrapassam a razão e nos tocam onde realmente interessa, as emoções, dão um acesso abrangente à vivência humana. Felicidade e tristeza resultam do ato de sentir emoções, não de entendê-las. São os afetos que movem, comovem. Essa é a bagagem que carregamos e sobre a qual falará uma das mais proeminentes poetisas brasileiras.

Fui.

Vão abaixo as palavras que pude captar. Outras coisas maravilhosas deixei de captar por ficar embasbacado, olhando para uma senhora que sabia exatamente o que eu sentia. Alguém que tem a noção da poesia no seu sentido mais amplo, que não se pode ensinar, apenas mostrar. Era possível perceber quem estava na sintonia, quem estava completamente fora. Quem conseguiu não gostar desse momento com Adélia Prado, acho que pode ficar em casa, quietinho, comendo pipoca e assistindo a O exterminador do futuro que vai fazer melhor negócio. Não. Minto. Retiro o que disse. Continue indo a todos os encontros literários! Quem sabe um dia as portas da poesia se abram e você descubra que essa vida que você enquadra não é tudo? Vamos às palavras de Adélia, muito melhores do que as minhas, claro.

"A gente gostaria de ser o AUTOR, mas a metáfora é dada."

"O que você faz com as tardes de maio? São uma beleza em si mesmas! Graças a Deus que existe um poeta, pois eu posso reler e, com isso, voltar lá! Graças a Deus que existe um Mozart, ainda bem que há alguém que fez isso!"

"Quem ama a razão odeia isso. A poesia vem, não é criada, mas dada. A verdadeira linguagem da poesia é religiosa. Você pode recitar um salmo ou rezar uma poesia. Os poetas sabem disso e dizem isso, com raiva, mas dizem."

"Se eu destruo o mistério, estou celebrando o quê?"

"Toda obra de arte é uma mandala. A obra de arte verdadeira não tem data. A gente quer uma coisa que não morre."

"A rosa no pé, por exemplo. Ela está lá. Não há discussão: você vê e ponto."

"Cultivar a vida simbólica… [perdi] quando a moça vira o jarro para arrumar, pois assim está cultivando a vida simbólica. Certa vez um homem, mexendo no jardim do seu quintal, me disse, sorrindo: "estou fazendo uns fingimentos aqui". O que eram aqueles fingimentos que ele fazia? Ele estava cultivando a vida simbólica."

"O silêncio da primeira vez que nos conhecemos atravessa a cozinha. Gostei do que você disse naquela receita de peixe, disse uma mulher."

"Todo mundo entende tudo! Precisa haver derramamento. Um outra mulher não entendeu porque estava armada."

"Vida simbólica é igual a vida espiritual."

"Essa tristeza que baixou nas pessoas hoje… Essa falta de reverência…"

"A arte não é fruto do arbítrio. Ela vem da terceira margem."

[estou chorando… não consigo anotar as coisas direito]

"Entre tantas delícias, querer ser eterno."

"Pura sarça ardente de memória."

[sarça ardente: sarça em chamas em cuja forma Deus apareceu pela primeira vez a Moisés no monte Horebe]

ARTE

DAS TRIPAS

CORAÇÃO

"Nossa condição é miserável demais"

"A gente inventa Bezerro de Ouro. A alma tem que adorar."

"A gente vive no Inconsciente Coletivo. Eu não sei o que é, mas me dá cada rasteira!"

"A neurose protege a gente da psicose"

"A razão é cheia de certezas. Já perceberam a certeza dos loucos?"

"A contemplação do cotidiano é um mergulho que quem não faz não sabe o que está perdendo."

"É mais fácil entender a alma do que um abacaxi."

"O natural é que é espantoso."

"Na obra de Guimarães Rosa não há nada de extraordinário. É o ordinário que está ali."

"Quando você começa a cismar com um dedo, cuidado! Você está tendo uma experiência poética, religiosa ou mística."



Ao final da palestra, sempre tocam uma música de fundo.

Saio escutando e cantando a música de Alceu Valença:

De puro éter assoprava o vento

Formando ondas pelo milharal

Teu pelo claro boneca dourada

Meu pelo escuro cavalo-de-pau

Cavalo doido por onde trafegas

Depois que eu vim parar na capital

Me derrubaste como quem me nega

Cavalo doido cavalo de pau

Cavalo doido em sonho me levas

Teu nome é tempo vento vendaval

Me derrubaste como quem me nega

Cavalo doido cavalo de pau



Assim termino a palestra de Adélia Prado – que sabe do mundo mágico.

A fila para autógrafos é absurda em tamanho. Pergunto às pessoas das barracas em volta, que aqui estão desde o início, e todas dizem-me que essa é a maior fila que já viram. Perguntam-me quem é tão famoso assim. Respondo, simplesmente: Adélia Prado. Alguns ficam com cara de paisagem. Outros, mais ousados, perguntam-me se é alguém de alguma novela. Respondo, sorrindo dentro de mim, que não, é apenas uma poeta. E saio em lágrimas em direção à minha partida.



14h50min

Sou como a criança que se distrai com as pedras e quase se perde da mãe.

Um grito gutural e tudo continua bem.



Até a próxima Flip. Dessa vez homenageando Nelson Rodrigues!


Tentarei enviar em tempo real minhas experiências poéticas.

DIÁRIO DA FLIP II

12 de agosto, sábado


07h50min

Um café da manhã melhor do que o esperado. Um casal com dois filhos fala alemão. Clima pesado.
E o homem fala sem parar. O requeijão e a manteiga estão uma delícia. Comi três pães e um copão de café-com-leite! A pele dos estrangeiros que estão comigo à mesa é de um branco maltratado, como se fossem trabalhadores do campo lá de onde vieram. São 08h17h e saio do hotel em direção ao Centro Histórico. Às 08h25min estou na Praça do Chafariz.

– Acabei de descobrir, por acaso, que ainda são 7h25min. Bem que achei muito vazio para oito e meia.



07h50min

Acabo de pesar uma maçã. Foi a maçã mais deliciosa que já comi. Trinta e cinco centavos por um sabor imenso! Sentado em um banco, à beira do mar. Vontade de nunca mais voltar. Só para me lembrar de que nada é perfeito, estou ao lado de canhões – um dia foram de verdade.



10h45min

André Sant'Anna é interessante. Reinaldo Moraes é chato. Falta-lhe algo. Essas coisas que normalmente saem das entranhas dos artistas. Em André isso aparece, mas sinto que é pouco. A preocupação com chocar o público parece maior do que a Literatura. Isso não fica ruim na proposta literária de André. Em Reinaldo falta mesmo "aquilo".

Quando explicou o romance, André disse que o Mané existe (e mora em Ubatuba), e isso me levou a Daniel Galera com o Mãos de Cavalo. Comparo com outras histórias e, inevitável, com o que escrevo: Dimas não existe. Nem Ana. Não tive em quem me basear. Parece que para eles foi mais fácil… André Sant'Anna promete. Reinaldo Moraes, não.

"Eu tenho dificuldade de contar uma boa história. Sempre quis ser músico, nunca pensei em ser escritor. Cada narrador que aparece, fala em uma música diferente." (André Sant'Anna).

"Todos os meus trabalhos partem de uma neurose, de um problema psiquiátrico. Quando escrevi O Cheiro do Ralo, disseram que eu fiz algo novo. E foi sem querer. Escrevi aquilo porque não sei escrever. Eu tenho muito respeito pela música e pela literatura: são minhas religiões." (Lourenço Mutarelli)

"Sartre disse que ou você escreve para Deus, ou para seus vizinhos. Eu resolvi escrever sobre os vizinhos, pessoas que eu conhecia. Meu primeiro romance foi assim: resolvi parar quando achasse que o livro ia ficar em pé." (Reinaldo Moraes) – ou seja, acho que não é bom porque escreve sem projeto. Deve ser isso.

11h05min – Quero ir embora.

Reinaldo está incomodado por se sentir "funcionário de uma idéia". Ele prefere se deixar levar pela escrita

"Queria contar uma história e não sabia como. Não havia intenção de romper. Se aconteceu, foi natural. Penso em um dia escrever um clássico assim." (André Sant'Anna).

"É preciso conhecer a forma para poder deformar, disse Goethe. Eu deformo porque sou ruim mesmo. Mas descobri, recentemente, que estou no mundo a passeio; pensei que era a trabalho, e quando a gente descobre isso, a gente faz o que gosta, sem se preocupar se é bom ou não." (Lourenço Mutarelli, em excelente discurso). Perguntado se, ao escrever, vinham-lhe imagens de quadrinhos, respondeu que não, que as imagens que vinham eram aqueles desenhinhos do Word, do cachorrinho que aparece abanando o rabo, e isso o incomodou muito.

Lourenço é bom no discurso, por sua sinceridade. André é artista. Reinaldo é chato mesmo. Vou colocá-lo no mesmo saco em que já estão o César Augusto e o Márcio Bueno. Estou criando um grande arquivo de malas-sem-alça.

Gostaria de deixar claro aqui que estou falando sobre autores(pessoas). Não tenho condições de dizer nada sobre suas obras. São impressões pelo que eu vi em poucos minutos. Talvez, no futuro, ache a obra de André muito ruim e passe a amar as coisas que Reinaldo escreve. Tenho a intuição de que não. Mas como minhas intuições já me enganaram, fico apenas na superfície de um discurso de feira.



11h20min (e acabei não saindo porque as coisas melhoraram nessa mesa-redonda)

"A fragmentação faz parte do cotidiano. A coisa é assim porque a gente nasceu em um mundo com rádio, televisão, internet, computador, telefone celular. Não é possível, hoje, sentar à luz de velas, em Viena, e escrever a quinta sinfonia de Beethoven." (Lourenço)

Wilson Martins pergunta [para André] se você leu Plíno Marcos. Resposta: não.

Uma pergunta para os três: quais foram as figuras que os influenciaram?

ANDRÉ: José Agripino de Paula, Arrigo Barnabé.

LOURENÇO: Rótulo de Steinhagen (eu ficava horas olhando aquilo), Machado de Assis, Kafka, Dostoiévski e música.

REINALDO: Já está respondido.

Sem mais comentários de minha parte. Agora vou mesmo embora.



12h20min

Inicia Ferreira Gullar, 30 anos de publicação de Poema Sujo.

Leu parte de um longo poema chamado Meia-Noite.

Alguns versos que consegui captar:

TAGARELO

O cabelo esfrega a parede

Amor selvagem

Esfrega seu relincho no chão

As cadeiras dos cafés avançam pelas calçadas

Uma pátria além desta página

Gira a maçaneta do universo

Músculos das ondas

Cavalos de fósforos

Vomito os escombros

Como se seu olhar devolvesse

As maçanetas às portas.



"O poema surgiu como se fosse a última coisa que eu tinha a dizer."

"A poesia não vale para o mercado. Para outras coisas até que vale."

A vida dentro e fora do armário.

Azuis felicidades.

Em quantas velocidades diferentes se move uma cidade?

O dia tem inumeráveis centros.

Porta e janela no centro da alegria

Para que não se extinga o jogo na cozinha da casa.

Eu nasci poeta. Há quem nasça ladrão.

Eu escrevo muito pouco. E escrevo quando há um espanto.

Não existe significado na natureza. Há significado na linguagem, e escrever poesia é inventar significados.

O poema é o lugar onde a linguagem de todos vira poesia.

A palavra serve para esclarecer a confusão que a palavra cria.

Nas minhas discussões com minha mulher, procuro ser claro e conclusivo.

Se você diz na lógica, você não diz o que quer dizer, se você diz fora da lógica, também não diz o que quer porque ninguém entende.

Eu não quero ter razão. Eu quero ser feliz. Ter razão para quê?

Numa discussão, por exemplo: – Meu bem, você tem razão! Vamos ao cinema?

Ter razão me serve para quê?

Se você é um escritor, você olha nos olhos de todos individualmente.

Sou do presente. A vida é o presente. Tenho horror ao passado, porque se o passado foi bom, a gente sofre. Se foi ruim… Pior ainda!

(Fim da palestra de Ferreira Gullar)



13h40min

Acabou a palestra e acabo de encontrar dois colegas de literatura. Vieram de ônibus, sem terem reservado lugar para ficar. Chegaram às cinco da manhã e pretendem ir embora hoje ainda. Os dois com um baita mochilão nas costas. Causou-me uma certa inveja dessa coisa de sair com mochila nas costas sem ter onde ficar, mas acho que estou ficando velho para isso. Eles são, no mínimo, dez anos mais novos do que eu. Eu arriscaria quinze. Nessa idade eu fazia pior, acho. Está tão bom fica em um hotel cujo conforto se resume a uma cama, um café da manhã e um ventilador (de mesa, hehe). Convidaram-me para uma praia aqui perto. Aceitei, mas eles tiveram que me prometer que veriam a exposição do Giancarlo Mecarelli.

Enquanto espero os dois na fila, tomo uma cerveja. Talvez fosse melhor almoçar, mas para quem está sozinho não há pratos. Quando há, vem muita comida. Odeio sentir-me empanturrado.

O que aconteceu foi que os dois estavam com fome, procurando uns biscoitos na bolsa. Resolvi que pagaria o almoço se eles me acompanhassem. Foi ótimo: não sobrou comida e eu consegui almoçar bem. Como havia dormido muito pouco, fui cochilar um pouco. Isso já quase quatro da tarde. Pensei que acordaria uma sete e voltaria para assistir ao romancista norte-americano Jonathan Safran Foer. Interessante, pois li que, antes de se tornar romancista, trabalhou como vendedor de jóias, assistente de necrotério e ghostwriter. Além disso, seu romance Extremamente alto e incrivelmente perto foi traduzido por Daniel Galera. E mais ainda: sua esposa, Nicole Krauss também é escritora e uma gracinha e, provavelmente, deve ter vindo acompanhando o marido na Flip e eu poderia ver se ela de perto é bonitinha como nas fotografias. Ah… Seu romance chama-se A História do Amor.

Enfim… O que aconteceu, foi que dormi além da conta e não vi mais nada nesse dia, pois acordei às onze da noite e só deu para ir até o Pub (que estava muito bom, por sinal). Vaguei pela noite, conversei com um andarilho que catava coisas dos lixos e fiquei acordado até o dia seguinte olhando os movimentos preguiçosos de uma Paraty em último dia de festa. No dia seguinte, estava prontinho para sentir Adélia Prado.


quinta-feira, fevereiro 15, 2007

DIÁRIO DA FLIP

Com seis meses de atraso, meu diário da FLIP.

FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATI / 2006

SEXTA-FEIRA, 11 DE AGOSTO de 2006.

16h35min

Um senhor toca, na rua, “Medo da Chuva”. Emenda em “Maluco Beleza” e, depois, “Sampa”. Uma turma de rapazes, uns sem camisa, outros com long necks na mão, cantam as músicas que o Neguinho’s somente dedilha no violão. Música instrumental, sem outras vozes. Um solo de violão. Assim começa meu final de semana na Festa Literária Internacional de Paraty.

Descobri há pouco – e já esperava algo assim – que ocorre um evento paralelo. Chama-se FLIP Off. Começou no dia 04 de agosto (antes do dia 9 da FLIP oficial) e só vai terminar em 10 de setembro. Bem depois do 13 de agosto.

Vejo em uma porta fechada a foto de uma negra nua, de quatro, numa composição fotográfica muito linda. Trata-se de uma exposição da galeria ZOOM entitulada “Beleza Afro-brasileira”. Abre às 18h30min. Preciso voltar para ver isso. Fotografias de Giancarlo Mecarelli, com textos de Jorge Amado selecionados por Olívio Poli Júnior. Ficará aberta até 23h30min.

16h45min

Faz dez minutos que estou no Centro Histórico e estou arrepiado e com vontade de chorar. Sinto-me em casa. Como se meu lar fosse aqui desde muito, muito tempo. Estou me segurando para não chorar sozinho feito um doido.

16h50min

A cena. Eu escrevendo o que vejo e um pintor, Jonas Lemes (acabo de perguntar seu nome) pintando, agora, um belo quadro do que vê: a esquina. Um vendedor de café, numa bicicleta, serve algo enquanto “Tarde em Itapuã” emerge de seus lábios em belo assobio que inunda essas ruas de pedra.

Ainda não faço a mínima idéia: para que lado ficam as tendas?

A homenagem da FLIP deste ano é o escritor Jorge Amado. Descubro que ele nasceu em 10 de agosto. Caetano em 7 de agosto. Todo mundo sob o signo do Leão. Eu nasci no dia 9. E o que isso tem a ver com qualquer coisa?

17h25min

Encontro a Tenda da Matriz. Acontece uma palestra sobre “Arte e Reportagem”. Interessante, mas não é literatura. A discussão não é daquelas que tocam o coração da gente. Vou ao espaço da livraria e toca-me mais olhar uma exposição em que aparece a carta de Florípedes Paiva Madureira, dona Flor dos Guimarães enviando uma receita do bolo de puba. Interessante essa necessidade de o escritor de certa forma “viver” o que escreve. Não sei por que, mas lembrei-me de Adriana Lisboa. Quem quiser ver a carta, que está no romance “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, pode acessar http://alenacairo.wordpress.com/tag/nao-fui-eu-quem-disse/ que encontrará a tal carta.

Percebo em alguns originais que Jorge Amado errava muito acentuação gráfica. Lembrei-me de Gabriel García Márquez e seu problema com a ortografia. O escritor não é gramático. É um artista, não um técnico.

17h45min

Leio trechos de Phillip Roth em “Complexo de Portnoy” e, como me alertaram, ali está o Dimas do meu romance, só que mais bem desenhado. Fechei o livro. Interessante a semelhança literária. Estou com fome e preciso deitar um pouco. Andei por duas horas, hoje à tarde, em busca de um lugar mais barato para dormir e estou em pé há muito tempo. Daqui a pouco começará a palestra “A arte de narrar”, com Toni Morrisson. O que achei interessante a seu respeito é o fato de ter escrito um romance chamado “Amor” aos 72 anos de idade. Fiquei curioso.

18h

Sentei. Tomo uma cerveja em um boteco da esquina. Sinto-me melhor. Há pouco reencontrei as mulheres que vieram comigo na Van, de São Paulo a Paraty. Éramos seis: cinco mulheres e eu. O motorista e o Nelson não entram na conta, pois estavam em seu trabalho. Ninguém acreditou que cheguei aqui sem ter onde ficar. Até que foi fácil e achei que valeu a pena. Todas professoras de vasta experiência, pessoal bastante simpático, mas tudo o que quero, agora, é ficar sozinho para melhor respirar a FLIP. Além disso, estou interessadíssimo na FLIP OFF.

O evento literário é bem interessante, se visto apenas no plano das idéias. O povo que comparece ainda é o mesmo dos shoppings, muitos metidos a intelectuais, comprando livros a mais de cinqüenta reais nos seus superlimitados cartões de crédito. Um absurdo o preço dos livros! Depois aparecem alguns seres alienígenas vomitando o verde: “é importante levar cultura ao povo”.

Os estrangeiros parecem muito mais à vontade do que os nossos conterrâneos metidos em suas perfumarias de boutique. Que chique nós somos!

Nas ruas a sensação é deliciosa, mas nas tendas háum arzinho de superioridade humana que me irrita um pouco. Mas tudo está muito bom. Amo ficar sozinho!

Antes de decidir pelo lugar onde ficaria, sentei um pouco em um bar deliciosamente banhado popr um vento marítimo. Um velho bêbado parou na minha mesa e travamos o diálogo a seguir:

VELHO (para mim) – Cavalo bom! Esse cavalo é muito bom! Eu estou aqui desde muito tempo. Ordenhei vaca. Trabalhava para Dona Terezinha e tinha quatro trabalhador.

EU – Quando?

VELHO – Meu cavalo é bom! Eu ordenhava vaca! Tinha uma vaca só para mim e saía vendendo leite.

EU – Quantos anos o senhor tem?

VELHO – quê?!

EU – Quantos anos?

VELHO – Hein?!

EU – Qual a sua idade?

Ele fica olhando. Repito:

EU – Idade!

VELHO – Eu trabalhava eera pedreiro! Tudo isso aqui fui eu que construí. Eu e um ajudante.

EU – Qual o seu nome?

VELHO – Quê?!

EU – Nome!! – falei agora bem alto!

VELHO – Estou aquidesde que não tinha nada. Fiz isso tudo,mas Deus agora me deu uma doença e não faço mais nada.

EU – Que doença? – falei bem alto.

VELHO – Fui ao médico lá na cidade, mas não tem jeito.

EU – O que o senhor tem? – gritando, agora!

O velho se afasta, procura algo no lixo, encontra uma latinha de cerveja, pega-a e vai para o balcão pedir uma cachaça.

Não houve diálogo. Por que sou sempre escolhido por essas pessoas? Achei muito significativo:

1) falar em “cavalo”.

2) não responder, como se eu não existisse.

3) falar de uma doença que não era visível, como se fosse (alcoolismo?)

4) mexer no lixo, com a cabeça lá dentro.

Chega um carro de polícia. Não estou no que se pode chamar de Centro Histórico. Estou meio na periferia de Paraty, vamos dizer assim. Acho que é melhor sair de fininho.

19h05min

Entro na tenda. Cheiro bom de sabonete. Talvez alguma essência no ar. Música boa enquanto não começa: violão e voz. Parece Nana Caymi. Pergunto a quem está a minha volta, mas as pessoas também não sabem. Sinto-me normal. Integrado. É bom sentir-se integrado, às vezes. Continuam me incomodando as roupas, as conversas e os barulhos de sacolinha, mas daqui a pouco começará a palestra e esquecerei dessas coisas. Toni Morrison começa assim, em um folheto que recebi na entrada:

As pernas da mulher estão bem abertas, então eu cantarolo.

O livro? Chama-se “Amor”. Sempre que estou nesses ambientes, as coincidências são intermitentes, beiram ao dejá-vu. Muito bom poder escrever estas impressões sem ter que dar atenção a mais ninguém. Há uma conversa muito chata ao meu lado. Parecem mãe e filha.

– Tem 79 anos, reclamavam que estava mal, com Alzheimer… Hoje ele anda com a gente, vai ao Teatro Municipal…

– Eu entendo isso… mais tarde… essa família… se casaram antes de se conhecerem… Mas eu sei que foi difícil… Ele foi o único da família… Ele fala que eu estou fofa… Isabela, você…

– Era uma casa de idosos…

Que papo chato! Estou com Sartre: o inferno são os outros.

Ainda bem que não tenho com quem conversar. Ea porra da palestra não começa! Vou ler a história da mulher das pernas abertas.

Então, por que não nadar um pouquinho mais e mais um pouquinho ainda? Até onde dá pé pra você? Vai láno fundo e isso não tem nada a ver com uma coragem que vem dos trompetes e das teclas do piano, não é?

Durante a entrevista, falou-se muito em racismo e preconceitos contra a mulher.

20h30min

Entrei em uma casa com música ao vivo. Só para usar o banheiro. Tudo de pedra. Chique. Deve ser caro à beça. A cidade lotada e só uma mesa ocupada. Local aconchegante, bom para um jantar romântico à meia-luz. Entrei, identifiquei a posição do banheiro, mijei e saí. Ótimo!

Resolvi comer um acarajé, mas não deu certo. Primeiro, fila. Depois, não sentia o cheiro característico do dendê baiano. Por fim, o tamanho:micro-acarajé. Para matar, cinco reais! Acarajé para turistas em dieta. Não era para mim. Vou ver as mulheres brasileiras peladas.

No Sobrado dos Calixtos

A Giancarlo Mecarelli

Corpos lindos no Sobrado dos Calixtos
E ali estão, negros,
Fagulhas e bicos de seios
Corpos-serpentes cativando os homens no feitiço
Ou por gostosa e sabida de cama
E a negra, brilhante, segura a barra
Chocolate branco que quero comer
Me lambuzar e escorregar
Por todos os seus brilhos e contrastes
- Não lhe parece que cada um tem o direito de viver sua vida em paz
Sem ninguém nela se envolver?
E que berros horríveis são esses
Nos confins da cidade
Nos confins de mim mesmo
(onde vivem raras rameiras)?
Ah, Giancarlo!
Vosmicê encontrou a poesia da vida
Vosmicê apreendeu o valor de Tereza!

21h53min

Acabo de entregar a poesia a Giancarlo. Parece ter gostado.

0h01min

Publiquei o poema no Blog. Internet agora tem em todo lugar! E ainda saí com uma latinha na mão. Resolvi sentar no batentede uma porta já fechada e observar as pessoas, agora poucas, que passavam. De repente, o fotógrafo bate nas minhas costas, diz que todo mundo gostou do poema e que vai colocar na exposição, vai mandar fazer grande. Fala isso e continua andando. Eu continuo sentado, pensando nessas coisas que acontecem assim.

Para quem me vê agora pode não perceber, mas estou muito feliz. Essa solidão no meio dessa gente me faz tão bem!

Estou meio suspenso no ar.

Coincidências… Eu parei bem no caminho do fotógrafo. Acho que se eu tivesse esse propósito, jamais conseguiria adivinhar que ele passaria, naquela hora, naquela rua. E foi ele que me reconheceu. Que coisa!

0h17min

Ouço Bohemian Rapsody, do Queen. Vontade de entrar nesse bar, que lembra o Delta Blues. É um Pub.

0h30min

Light My Fire. Vou entrar!

3h45min

Rock’n’roll em Paraty! Por essa eu não esperava. Bom terminar um passeio literário assim! Preciso dormir um pouco.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

As mulheres de Schopenhauer

A mulher tem miopia intelectual, seu horizonte é muito pequeno. Só o aspecto da mulher revela que não está destinada aos grandes trabalhos intelectuais, nem aos grandes trabalhos materiais. Tem que obedecer ao homem, ser uma companheira paciente que o tranqüilize.

O que faz as mulheres particularmente aptas para cuidar de nós e nos educar na primeira infância, é que elas mesmas continuam sendo infantis, fúteis e limitadas de inteligência. Permanecem por toda vida crianças grandes.

Não vêem além do que está diante dos olhos, fixam-se apenas no presente, tomam as aparências por realidade e preferem as frivolidades às coisas mais importantes. O que distingue o homem do animal é a razão. Preso ao presente, é capaz de voltar ao passado e sonhar com o futuro; daí sua prudência, seus cuidados, suas freqüentes apreensões. A débil razão da mulher não participa dessas vantagens nem desses incovenientes.

No fundo de seu coração, as mulheres acreditam que os homens vieram ao mundo para ganhar dinheiro, e as mulheres para gastá-lo.

O leão tem dentes e garras, o elefante e o javali têm presas de defesa, o touro tem chifres, o polvo tem sua tinta para turvar a água ao seu redor; a natureza não deu à mulher mais que a dissimulação para defender-se e proteger-se. Esta faculdade supre a força que o homem toma do vigor de seus músculos e de sua razão. Deste defeito fundamental e de suas conseqüências nascem a falsidade, a infidelidade, a traição, a ingratidão, etc. As mulheres perjuram diante dos tribunais com muito mais freqüência que os homens, e é questionável se se deve admitir que prestem juramentos.



[Trecho do livro: “O amor, as mulheres e a morte” de Arthur Schopenhauer]


Interessante, não?
Schopenhauer, quem diria! Um grande(?) pensador!

sábado, janeiro 13, 2007

Rascunhos

São rascunhos, nada mais
Minha vida inteira
Um tosco rascunho
De alguém que nunca vou ser.
Uma linda paisagem imagino pra mim
Mal desenhada, sem terminar – como tudo
Que vai ficando para amanhã,
Para depois e no fim
Sou eterno rascunho de mim mesmo.