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quarta-feira, dezembro 17, 2008

Quando o álcool desce queimando
Sei que o tomei
Por algo que não gostei
De outro modo, desce reto
Decente
E até gostoso.

Quando o álcool desce queimando
É porque meus filhos estão chorando
E as coisas não vão muito bem.

Quando o álcool desce beijando
É porque de alguma forma
Está nascendo um poema.
Descanso na tua beleza
Mulher imaginária
Sonhada
Sei lá o quê.

Basta a mim ver-te sumindo
Junto à música que toca
Meus olhos esfumaçados
Procuram teu corpo entre os demais
E o que se vê, e o que se ouve
São escrituras pendentes
De notas musicais
Infantis
Mudas
Sinoidais.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

"Fui mexendo o caldo
e minha garganta estava travada"
[Lygia Fagundes Telles]

Lembranças

Gosto das lembranças que seu cheiro e sua pele me trazem
Gosto de todas as lembranças...
Sobretudo dos dias em que olhávamos longas horas
É para elas que passo dias olhando longas horas,
quadro a quadro, detalhe por detalhe.
Para os horizontes sonoros do nosso amor
É para eles que direciono meus questionamentos.
Das pulsações incandescentes nos levando a loucuras
Em que espaço estão escondidas as pulsações incandescentes?
Dos olhos, dentes e bocas da morte a observar-nos mais de perto
Quem os olhos, dentes e bocas da morte observam mais de perto?
De quando os sonhos eram quase palpáveis
Quando os sonhos outra vez se tornarão quase palpáveis?
E os dias, quase incertos.
E os dias? Quando voltarão a serem quase incertos?
E a única certeza é esta que permanece.
E a única certeza é esta que permanece.
A despeito de qualquer ruído estranho de vento
Ou barulho feroz de chuva que não cai, mas é jogada contra a Terra.
Por mais que a chuva açoite minhas costas,
Por mais que os ventos me arrastem para longe.

"amortebeijoparasempre", de Wallace Fauth

SINOPSE:
Narrado em primeira pessoa, o romance trata de diversos aspectos da sociedade contemporânea, sobretudo no que diz respeito a esse estranhamento humano que estamos a viver em pleno séculoXXI: falta de amor, banalização da morte, individualismo. Com uma linguagem ágil e bem humorada, a psicologia sombria de Dimas, o narrador-personagem, vai surgindo aos poucos, levando o leitor a repensar as bases do amor, ao tocar em temas como machismo, violência sexual, necrofilia e idealização da mulher. amortebeijoparasempre é intrigante desde o título, em que amor, sensualidade, morte e eternidade são apresentados em uma unidade semântica, demonstrando, logo de início, os caminhos que serão percorridos nessa estranha história. Após a leitura deste livro, muitas questões permanecerão flutuando no espírito do leitor, tais como: osexo; a eternidade do amor; os relacionamentos muitas vezes já mortos, mas sem atestados de óbito; o masculino e o feminino levados às últimas conseqüências; os amores condicionais e incondicionais. Enfim, uma obra em que romance, eternidade e terror esbarram-se em uma linha limítrofe escrita com tanta verdade e sem receios que, por isso mesmo, torna-se de rara beleza.
Disponível em www.editorabarauna.com.br
comunidade: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=71001449
autor: http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=15546417076159219289
e-mail: wallacefauth@ibest.com.br

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Do Diário em Paris - III

Vim até ao fim da linha 9 do metrô, à Mairie de Montreuil, Montreuil, Montrerel ou Monsterol, Monasteriolum. Na igreja, onde foi batizado Carlos V; também se batiza no momento uma criança. O nome é Christian; e todo menino tem um destino real. O padre, paternal sobre hierático, em sobrepeliz e estola roxa, observa que os dentinhos dele estão apontando. O sacristão serve simples, ainda que ostente a simbólica corrente de prata – é f-fe-ta... fidelibus tuis... Ego te exorcizo... – rezam trechos da cerimônia. O garoto chora. Tocam os sinos. Fora, porém sob o relógio-de-sol, no alto de um contraforte da nave, lado sul, guarda-se esta inscrição, de há 326 anos.
VIVECELONLHEVREDELAMORT
E o dia se estende repensadamente.
[Guimarães Rosa]
"Nós todos viemos do inferno; alguns ainda estão quentes de lá"
[Guimarães Rosa]
Eu não preciso fumar
Para ver a fumacinha saindo de mim
Ainda estou quente do inferno!
Vôo sem sonhos
Olho de cima tudo
E não sei contar pra vocês
Tantas coisas que vejo
E finjo que não é nada.
Pubico, às vezes...
Me divulgo nessa vida
Tem outra?
Não me diga!
Choro
Porque é ruim
Tudo o que escrevo
Fingindo poesia.

Mas é assim que vai
sonhos, alegrias e tristezas
somatizados
na ponta do lápis.
As árvores dançam
Ao sabor do vento
Desde quando vento tem sabor?
Vento bate na cara
Vento leva a gente
Não dá pra saborear.

A gente dança, dança, dança
E fica no mesmo lugar
Às vezes quebra, requebra
Galhos à tona
Para o náufrago
Nos rios de lágrima ou sangue

Assim.

Freio

Freio minha luz
Temporariamente
Enxergo o nada
No entanto sou tudo.

Sonho e faço minhas coisas
Não tenho culpas
O que me sobra?
Silêncio e solidão.
E um galo que canta
Até o meio do dia
E a tarde toda torna-se poesia
Sempre silenciosa.

Ondas de surf me levam embora
O Sol, seco, diz muita coisa
Junto desse céu azul!
E os pássaros, inconstantes
Voam à esmo, sem sonhos
Sem nada
E cantam nas horas vagas
Que são todas as horas.

Complications

Make love
Sweet Baby
Reality
Soul

Choro e sinto muito
A falta
Que eu não sabia
O sonho
Que eu não vivia
A sombra
Que eu sou.

Sou sombra
De tudo aquilo
Que eu não sabia.

Desculpe, sou eterno.
Com ou sem você.

Complications.
O Crescimento dela é que me dói
Porque vê quem eu sou
E sente-se nada a ver

Nosso cruzamento na vida
Foi puro desespero:
Saíamos de nossas casas
paríamos um filho
E encontramos uma calma deitados
Mas não era isso que queríamos...
Era muito mais
E eu não sou muito mais.
A mãe dos meus filhos não gosta de mim

Além de todas as coisas
Não há livramento no horizonte

Isso a entristece

E eu, fedido, pobre e feio
Não penso em sair daqui
Por não ter onde parar

Quero o abraço dos meus filhos
Eles ainda me amam
Depois
Só solidão e cansaço.
Já ia esquecendo:
meu livro saiu.
Meu livro saiu.
Sabe o que isso significa?
Nada.
Uma tristeza muito grande
Apodera-se de mim.

Logo agora.

Morrer, nunca mais
Mas deixe-me chorar
E eu choro de verdade agora
como quem morre de manhã.

Meu filho prefere o nascer do sol
Acorda cedo e abre a janela
Pra ver o céu.

Já eu gosto quando o sol se põe
E penso em quanto meu filho evoluiu.

sábado, novembro 29, 2008

Às vezes, em sonhos distraídos, que me surgem das esquinas do pensamento e da emoção, visiono amores. Uma vez me encontro desenrolando um enredo de uma paixão correspondida por uma tuberculosa de génio, que havia escrito o seu livro imortal na esperança de não sei quê, sempre, assentada, à janela da casa caiada. Outras vezes é a marqueza, que mora na quinta alta, que,quando me conheceu residente perto dali onde eu nunca estaria, me atrai a si sem querer; o nosso amor desenvolve-se sem história, e há uma grande conclusão. Outras vezes ainda o romantismo deixa as tuberculosas e a arisocracia, e há uma grande simplicidade nos desejos sonhados: ela foi enconrada enre a vida como uma flor entre ervas altas, colhi-a para o meu lar limpo e lindo, e a nossa vida, pelo menos até onde vai o sonho, dorme quietudes entre sinceridades, e tudo é afago.

Ah, que enredos complexos, em conveses de navios, em ilhas distantes, em hotéis universais, em viagens passageiras, me não encantam a distracção como vestidos expostos.

Mas, de repente, e com um regresso de pesadelo estatelado, desperto do meu romantismo sexual, e coro a sós comigo de fazer com a mente de dentro a mesma coisa que fazem todos os homens. E tenho, como timbre de fidalguia fraseada, a antagem ridícula de contra. Sim, às vezes sonho deste modo. Às vezes sou costureira masculina, e tenho príncipes, que são princesas, e muitas vezes são outra coisa, na imaginação inevitáel.

E então acordado de todo, rio, quase alto, de me ver assim, como se me visse nu por baixo da nudez, como se me conhecesse esqueleto da alma, e uma alegria pontiaguda valsa nos meus devaneios. Que tristeza!


[FERNANDO PESSOA]

Fellini

Há um filme, quero dizer, a idéia, o sentimento, a desconfiança, de um filme que trago comigo há quinze anos e que ainda não se abriu, não me concedeu confiança, não me revelou as intenções. Aparece com pontualidade ao final de cada filme que faço, como se quisesse se propor, me fazer entender que agora é sua vez, fica algum tempo comigo, me estuda um pouco e, uma bela manhã, desaparece.Também fico feliz a cada vez que se vai, é muito sério, empenhado, ainda não nos parecemos, quem sabe qual dos dois terá mudado. Pensando bem, nunca tive vontade de fazer nem mesmo um desenho seu, um rabisco qualquer; é evidente que quando decidir colaborar, me fará compreendê-lo por meio de outros sinais.

Às vezes até desconfio de que não é um filme, e sim alguma outra coisa que ainda não sou capaz de compreender, e me assusto um pouco, mas logo me conforta o pensamento de que deve ser um filme-piloto, uma espécie de espírito guia bizarro que tem a função de introduzir outras histórias, outras imaginações; de fato, quando desaparace, no seu lugar fica, sem falta, um filme de verdade, o que farei em seguida.

Talvez um sonho que tive há muito tempo se relacione com esse filme quimérico, ou melhor, com meu comportamento quanto a ele, feito de fascinação e desconfiança, e que sempre me deixa cheio de fervor e cético, me atrai e me repele. Exatamente os mesmos sentimentos contrastantes que tive com relação ao misterioso chinês que chegou de madrugada com um enorme avião cheio de passageiros.Eu era o diretor do aeroporto. Estava sentado atrás de minha mesa numa imensa sala deserta e via, pelas paredes de vidro, a pista iluminada, o céu estrelado e o grande avião havia pouco aterrissado. Como chefe do aeroporto, também dirigia o setor de imigração e concedia visto de entrada aos viajantes. Começo a fazê-lo quando um dos passageiros me deixa curioso e me atrai, sem que consiga fugir disso. Está sozino, destacado, envolto num quimono usado e pomposo que lhe confere um aspecto majestoso e maltrapilho. Não tem bagagens. Aproxima-se ligeiro e solene de minha mesa e pára na minha frente, as mãos escondidas nas amplas mangas, os olhos fechados. Olho seu rosto: pertence a um oriental aristocrático e miserável, os cabelos são oleosos, sujos, têm um cheiro ruim, de roupa mofada, de folhas encharcadas, de sujeira, mas a nobreza que emana de sua figura me fascina e perturba. Podia ser um rei, um santo, mas também podia ser um cigano, um vagabundo, indiferente ao desprezo dos outros por estar acostumado com a mortificação e a miséria. Um sentimento indefinível de ansiedade e inquietação me sobe a garganta, me deixa mudo, inseguro, faz meu coração bater mais forte. Sei que o estrangeiro espera uma decisão minha e não faz perguntas, não solicita nenhuma intervenção, não fala. A meu desconforto, à minha emoção crescente, opõe a silenciosa e inequìvoca realidade de sua chegada, de sua presença. A circunstância não diz respeito a ele, mas a mim; ele só devia chegar, e agora está aqui. Sou eu que devo decidir entre deixá-lo entrar ou não, em conceder-lhe ou negar-lhe o visto. O pressentimento de que a situação está nestes termos inevitáves, aumenta minha perturbação, meu mal-estar. Encontro-me a gaguejar desculpas hipócrita, mentiras infantis: digo que não sou o verdadeiro chefe do aeroporto, que não cabe a mim decidir, que dependo de outras pessoas mais importantes, mais competentes, elas sabem o que fazer, eu não, pois sou apenas um funcionário. Um sentimento de vergonha e de autocomiseração me obriga a abaixar a cabeça, não sei mais o que dizer, olho distraído a inscrição sobre a mesa que indica "diretor". Desce um grande silêncio, os passageiros, lá no fundo, são uma massa muda e indistinta. Não ouso levantar a cabeça. Parece-me que já se passara muito tempo, tempo demais, toda uma vida. Com trabalhosa lentidão construo no sonho o pensamento: do que terei mais medo ao levantar os olhos? De encontrá-lo ali, poeirento e cintilante, próximo e inatingível, ainda ali a me esperar, o misterioso estrangeiro vindo do Oriente, ou de não encontrá-lo mais?

[Federico Fellini]

sexta-feira, novembro 28, 2008

Leve, breve, suave

Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Nunca, nunca, em nada
Raie a madrugada,
Ou 'splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar.
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.

Postado por Fernando Pessoa em mil novecentos e lá vai bolinha.

Pedofilia

A menina no banco da praça

suores divinos saindo de mim
sons que não quero entrando assim
invadindo, fingindo, cheirando jasmim

Não sei
Não quero saber
– E tenho raiva de quem sabe!

sexta-feira, novembro 21, 2008

Puta

A vida é muito fácil quando a gente aprende

A ser puta

– De verdade!

sábado, novembro 15, 2008

Caos Calmo

Depois de um dia cheio de gente
Aguardo a chegada do último trem.
Estou sozinho na estação.

Tudo parece do mesmo jeito
O mundo como sempre foi
Cheiro de morte por todo lado.

Todo o meu hoje é passado
Quase meia-noite
As pessoas do futuro vêm no último trem
Taciturnas e cansadas
Esperando a hora de fechar os olhos.

A agitação do dia, parece, foi mentira!
Não houve palpitações no coração
As gargalhadas cessaram, juntamente com as alegrias
Até os mais exaltados, dedos em riste...
Parece, tudo história.

Agora, sozinho na estação, não consigo acreditar
Começo a recontar a própria vida
Enriqueço a solidão com personagens do antes
E já não estou sozinho:
Outros emergem do dia que vai...
E ficam, como eu, à espera do último trem
Companhias silenciosas do além de mim.

O trem passou.
Tudo história.
Parece mentira:
Era eu sozinho naquela estação?

domingo, outubro 26, 2008

Satyrianas 2008

Delícia de clima nas Satyrianas 2008. Estive por lá das 16h de sábado às 6h da manhã de domingo.

Não dava para ver tudo, pois várias coisas aconteciam ao mesmo tempo. Então tomei as seguintes decisões:

18h30, a peça CATASTROFE DA BORBOLETA: "composto por pequenas histórias que envolvem o espectador e tentam provocar a sua sensibilidade diante da realidade de uma sociedade reprimida." Da companhia carioca "Teatro da Demolição". Vários momentos de intensa sensibilidade. Excelente.

20h30, no espaço CINEMIX, exibição dos curtas:

Fast Food (animação - 1'), de Diego de Godoy e Rodrigo Pensavento
A Cauda do Dinossauro, ficção - 17'), de Francisco Garcia com texto de Angeli. Muito bom, incomodativo e escroto como bem gosta o Angeli. 
Passeio (ficção, 5'), de Estela Lapponi. O passeio de uma cadeirante em São Paulo. As dificuldades.
Alguma Coisa Assim (ficção, 15'), de Esmir Filho. Caio e Mari, dois adolescentes, saem à noite pelas ruas de São Paulo em busca de diversão. Entre sons e silêncios, descobrem mais sobre si mesmos. EXCELENTE!! Assistam aqui. Vale muito a pena.
Manual para atropelar cachorros (ficção, 18'), de Rafael Primo. Não entendi uma coisa: há um conto de Daniel Galera com praticamente o mesmo conteúdo. Nenhuma referência? Inspiração igual? Alguém me explica essa? No blog do Daniel Galera há referência a essa adaptação, mas não vi nada no filme... Estranho, no mínimo.

22h30min - Um segundo e meio. Peça excelente! Saiba mais detalhes aqui.

00h30min - no CINEMIX, fui o que achei a roubada da noite. Sob o título "rock'n'roll", inicia-se um documentário pesado sobre um músico que se apresentaria em seguida. Quase uma hora depois do maçante vídeo, começa algo um pouco distante do que eu chamaria de Rock'n'roll. Por causa disso, perdi a oportunidade de assistir Hotel Lancaster e, por causa da imensa fila, não consegui entrar para assistir a "120 dias de sodoma". Cheguei tarde demais para conseguir lugar. Nesse momento (entre 2h e 4h da manhã) a praça estava apinhada de gente e quase não se coneguia caminhar.

04h - Ritual Íntimo - Adaptação de contos de João Silvério Trevisan. Acho que pelo meu cansaço, não me sinto capaz de produzir nenhuma crítica a respeito. Melhor não dizer nada, pois o sono era grande e, por isso, não estava em condições de pensar direito. Os atores trabalharam muito bem, mas não aompanhei muito os textos. 

05h30min - Quis ir, ainda, ver algumas apresentações no espaço DRAMAMIX, mas eu morria de fome e sono. Preferi comer um imenso lanche em um trailer a caminho do metrô e fui dormir um pouco no hotel antes de voltar para Campinas.

O que fui fazer naquele tal de "rock'n'roll"?! Mas, não dá para acertar em todas, não é mesmo?

Saldo geral? Excelente. Gostinho de quero mais... Agora só no ano que vem. Quem quiser saber mais sobre o clima da praça, visite o blog do Alberto Guzik

Ah, comprei um livro no Sebo do Bac. O cara tem umas raridades interessantíssimas. Preços justos. Vale a pena.

Ah, o livro que comprei? O primeiro do Caio Fernando Abreu: "Limite Branco", um romance que escreveu aos 18 anos. 

Agora é descansar, pois amanhã começa trabalho árduo para ganhar aquilo que a arte não dá.




 

sábado, outubro 25, 2008

Anselm Kiefer


Anselm Kiefer (nascido em 8 de março de 1945, em Donaueschingen) é um pintor e escultor alemão.

Em 1990 foi premiado com o Wolf Prize. Em 1999 a Japan Art Association o premiou com o Praemium Imperiale, por suas realizações em vida. Eis a declaração:


"Um complexo engajamento crítico com a história percorre o trabalho de Anselm Kiefer. Suas pinturas, como também as esculturas de Georg Baselitz criaram um alvoroço na Bienal de Veneza de 1980: os visitantes tiveram que decidir se os aparentes temas nazistas pretendiam ser irônicos ou se tinham como intenção transmitir as atuais idéias fascistas. Kiefer trabalhava com a convicção de que a arte podia curar uma nação traumatizada e um mundo dividido. Criou pinturas épicas em grandes telas que mobilizaram a história da cultura alemã com a ajuda de descrições de figuras como Richard Wagner ou Goethe, continuando assim a tradição história da pintura como um meio para guiar o mundo. Somente poucos artistas contemporâneos tiveram tal senso de dever da arte declarado, para reunir o passado e as questões éticas do presente, e estão em posição de expressar a possibilidade de absolvição da culpa através do esforço humano."

Desde 1992 está estabelecido em Barjac, França, e transformou uma planta industrial em um ateliê de 35 hectares, apelidado de La Ribaute. Criou nele um extensivo sistema de prédios de vidro, arquivos, instalações, depósitos para materiais e pinturas, câmaras e corredores subterrâneos.

De 1995 a 2001, Kiefer iniciou um ciclo de grande pinturas sobre o cosmo. Iniciou também um retorno ao objectual.

Anselm Kiefer, da geração pós-guerra, debruçou-se sobre as questões das origens.

O quadro é de 1995. Chama-se ESTRELAS CADENTES.
Um universo em movimento e um corpo estendido sobre a terra.
Só existe uma permanência:
a permanência da mudança.
Em Moçambique a pessoa não morre. Vira árvore.
"A dimensão humana transcende o individual. Por isso acho uma sacanagem virar a mesa."
Palestra | A morte como encantamento | Com Antonio Mourão Cavalcante
CPFL, Campinas, ontem.
Hoje vi coisas assim
A borboleta que bebia leite
A manhã que nunca começava
O dia que não ia
A vontade que não dava
O sono que não vinha.

A cordas estavam soltas
Correram os cachorros
Soltaram-se os gados
Eu fiquei parado
Porque parado sempre estive.
Dizem-me solto
Mas ao soltar-me, fico aqui.

O sonho me estupra
Mas no fim eu gozo
Tudo me fode, tudo me foge
Porque eu mesmo me desintegro
Nessas horas de não sei quando.

sábado, outubro 18, 2008

supra-sumo

As folhas das árvores
reverberam os sons da manhã
Manhã gorda
São pingos de óleo essa chuva pesada
É escuro lá fora e dentro de mim

Passarinhos incomodados
Mosquitinhos escondendo-se na minha cara
Zumbizando nos meus ouvidos.

Nesse quarto do futuro
Balanço os pés
Coço a cabeça e tomo um trago

Perdoem-me,
Não estou fazendo nada.

E é isso o supra-sumo da vida:
Deixar-se estar
Calado
Esperando os gritos do entardecer.

domingo, setembro 28, 2008

É muito mais o que sai das paredes
Reverberações de verbos em ecos
Sou sempre o sonho dos outros
E deleito-me nessas viagens...
Descanso dos meus pensamentos
Debulhando sementes de suas vagens
Vejo pratos deliciosos de verdes cores
Como tudo! Não sei do amanhã
Engordo e engrosso esse meu sangue
Caminho difícil por sobre a manhã
Esqueço das tardes em tempo presente
Navego com sono nas noites de então
Abro meus olhos com muita vontade
E vejo paisagens de mundos desertos
Encaro essas coisas e elas são belas
Sabendo no fundo que são como são
Sou eu a bobagem do meu dia-a-dia
São eles os certos, os sãos, os que vão
E eu travo aqui mesmo, no meio do dia
Que é quando começa essa escuridão.
Sou louco, poeta, o que quer que se diga
Sou bobo, poeta, de cheia barriga
Giroflex do inferno, não consigo parar
Minha vida-ambulância
Entre o trem e o que há
Os remédios vencidos da vida que vai.

Durmo a sono solto.

Sonho a sonho alto
Caio em rede solta
Mordo as minhas rédeas
Desembesto em boca amarga
Vomito o que não como
Acompanho o que não tem fim
Agradeço ao que não tem como

E amanheço tão bem assim.

quinta-feira, setembro 11, 2008

deram-me um corpo ferrado e por isso me sinto injustiçado.
tudo o que faço parece ser destrutivo de mim.
se como macarrão, engorda.
se nada como, vou morrer
se ingiro frutas, muito bem...
Parabéns! Você chegou lá!
Onde queríamos!
Quem "queríamos"?
Vou passar dos 200 anos se só ingerir frutas?
Tenho a genética de Adão
E por isso bebo gin
Queimo fumo no meu cachimbo
e sonho o nada de todo mundo:
Os gritos do futebol
As letras impressas nos livros.
Nada disso me comove
Nada disso sou eu.
Sou maior que todo o mundo
Sou menor do que eu mesmo.
Quero, faço e vejo.
Sonho, narro e faço.
Quem me segue nessa estrada
Não sabe que nela não caminho
Espero o tempo passar
Para de outra vez
Começar
O longo caminho que não termina.
ENGANA-ME!
falo sombra
de tudo aquilo.
Moro num lugar
de onde se pode ouvir melhor
o não da existência
Julgo que sei
do complemento dos meus ais
Mas não sei de nada
Vivo perdendo as apostas
que faço comigo mesmo.
Elevo-me às mais altas altitudes
de minhas próprias réguas
Ares científicos de nada
Minhas altas viagens
Não chegam aos altos paralelepípedos
Meus rios são pluviais
E minha graça é adotada:
Enfeitada de gargalhadas fúteis
De um dia sem amanhã.
o que faz um bêbado tremular feito bandeira
é o batimento cardíaco.
Aliados à respiração,
os batimentos
desse coração
imprimem um ritmo
que não condiz com a razão.
A cabeça obedece cegamente a esses impulsos
Mas o que se vê, de fora,
é só desequilíbrio, ventania,
desolação.

Barro

aos alunos

As mais velhas trazem coisas demais
As mais novas, coisa nenhuma
Daí a atração:
Uma espécie de sadismo divino
Transformar barro
Em homem de verdade!
E rir-se eternamente
Feito criança
Dos próprios bonequinhos
Feios como a gente
Que habita o mundo todo.
escrever é desvalorizar as paredes
Quero estar mesmo bem abaixo da média
Só para diminuir a média do universo

Encruzilhada

Quando paro minha vida
Tenho o direito
(que dizem ser feio)
De dar marcha à ré.

Engravatados da auto-ajuda
Aconselham a olhar para diante
(como os cavalos de tapumes aos olhos)

Olho para os lados
Aquelas ruas transversais não me pertencem
Parecem desvios da Real Estrada
(há sede de conhecer
e prazer de experimentar)

Decido pela rua direita
Por achar melhor os caminhos direitos
E eis que é contramão!

A encruzilhada não é lugar de decisão.
Ali apenas meditamos e percebemos:
Um prato de barro
Uma garrafa escura de cachaça
O defunto de uma galinha preta

(e o sinal ainda fechado)

O bilhete da loteria do azar
Um palhaço expulso do circo
E o panfleto de uma igreja
Universal
De um reino marginal.

10/9/08

quarta-feira, setembro 03, 2008

Sete de Setembro

Na feira de amanhã
Quero comprar brócolis
E saborear meu feito
Tão digno, meu Deus!
Tão bonito, assim, esverdeado!

Alegrem-se, pois é Semana da Pátria!
Hora de plantar sementes
Escrever poemas
Quem sabe, fazer filhos!

E nesse dia branco:
Pintar de verde a fachada
De amarelo a ausência
E com o sangue do mais azul
A ordem, o progresso e a fidelidade.

terça-feira, agosto 26, 2008

Stand by

Amor,

Não sei do que anda acontecendo comigo, muito menos ainda do que se passa em todos os doentes que me rodeiam. Uma vontade de ter férias de tudo. De mim mesmo, inclusive. Quero parar de pensar, mas isso é impossível, é como se quisesse que o coração parasse de bater ou que os sonhos e os pesadelos fossem impedidos de nos visitar.

Não quero escrever nem uma linha. Nem uma mísera palavra. Nem ouvir nenhuma conversa, muito menos falar, comunicar-me com as pessoas em geral. Quero ficar quieto em um canto. De preferência dormindo. Esta noite sonhei que estava nos Estados Unidos e sabia que não poderia conversar com ninguém porque não seria entendido. Isso me deu um certo alívio. Vontade de viajar para bem longe sem ninguém conhecido perto de mim. Só pessoas estranhas que chegarão até mim se eu assim quiser.

O amor, meu amor, não existe. Está dentro das cabeças doentias daqueles que amam. Por isso, talvez, eu esteja assim, por estar, neste exato momento, não amando nada. Ou não fazendo diferenças entre amores. Amo a vida. Amo viver. E por algum motivo que me foge, sinto-me como que de pés e mãos amarrados. Preso dentro de uma cela que, por incrível que pareça, tem a minha cara. Queria entender dos crimes que me puseram aqui. O que exatamente estarei pagando? Na verdade eu bem sei que não se trata de pagamento algum, mas de que a condição da vida é esta mesma: cheia de abismos e labirintos sem fim, onde podemos nos assustar com a visão de um minotauro que não ameça ninguém efetivamente, é apenas um ser que está o tempo todo limpando o chão de seu labirinto para ver se assim descobre, de repente, no meio da sujeira, a sua saída.

Não há libertações, meu amor. Não há igrejas ou santuários capazes de nos levar à libertação que se sonha. Há, sim, mudanças de labirintos. Como se a saída de um fosse, por assim dizer, um portal que leva a outro numa espécie de videogame em que se vai mudando de fases sem fim algum a ser vislumbrado. Somam-se, sim, os pontos. Mas pontos para quê?! Para escrever um nome no ranking e depois, já cansado, desligar os plugues para poupar energia? Para comer e... dormir.

Por isso, meu amor, não tenho tido mais apego a nada do que gosto, nem tenho visto em mim forças para lutar por qualquer coisa da qual eu gostaria. Prefiro, por enquanto, partir logo para os finalmentes: desligar os plugues e dormir. Descansar para, quem sabe, chegar revigorado ao paraíso.

Por enquanto, tudo está em stand by (me?)

quarta-feira, agosto 13, 2008

word

Eu, escritor, quero uma máquina menos ridícula. Ando muito incomodado com essa merda. Sei que posso colocar no colo, sei que posso levar para onde quero, sei de tudo isso, mas nada é igual ao mecânico. Caso falte energia, estarei com tudo perdido. Não gosto dessa sensação. Nãoclique emsalvarque me salve. Então devo escrever com rédeas? São rédeas, para mim, pensar que de tempos em tempos devo salvar essas merdas que escrevo. Mas, dizem os que têm sempre os seus poréns, às vezes é melhor que palavras sumam…

salvamento automático! Oh, que grande coisa! Mas tem hora certa pra passar, sabiam? A última palavra pode ter ficado de fora quando do último salvamento do word.

Na máquina de escrever, não tinha jeito de consertar. Então rasgávamos papéis… Mas nunca, nunca, de maneira nenhuma, algo escrito seria perdido sem minha vontade. A tecla pressionada era um carimbo indelével. Mesmo apagado com borracha, era possível, contra a luz, ver o que fora escrito. Até mesmo um cego, passando a mão pelo papel, era capaz de identificar o que ali ia escrito, mesmo depois de apagado. Agora, não.

Agora as letras são virtuais. Movimentos de luz. Einstein previa tudo isso e sabia que prefeririam a virtualidade da velocidade da luz contra os carimbos que deixávamos no mundo, no tempo em que as tatuagens eram bem-vistas.

Não me acostumo com papel tendo luz própria, apesar de estar tremendamente apaixonado pela delicadeza das teclas. Minha máquina de escrever, hoje, anda cheia de plugues e dizem que é para seu próprio bem. Mas quando olho para ela, dentro desse quarto, com esse monte de fio (atualmente quatro, saindo de suas laterais), imagino que deve estar mesmo muito doente. Recebendo nas veias várias vitaminas para que não morra.

Sem essa periferia que nela se introduz, minha máquina não vive. E eu tenho que escrever olhando para isso tudo como se fosse progresso! Progresso é poder escrever sem pensar em nada do que vão pensar. Progresso é poder ir literalmente para a frente. E não é isso que vejo fazerem. Há sempre que copiar, que imitar

Acendam as luzes! Vejam sua própria criação: um monte de buraco vazio iluminado por postes vacilantes que insistem em dizer que sua quantidade de velas supera qualquer chama.

A merda maior está em querermos escrever logo, como se fazia com caneta e papel e ter que esperar a inicialização de milhares de programas que nunca vou usar.

Esse computador é coisa daquele tipo de velho. “Se precisar… tenho guardado”. Porra! Pra quê tanta memória?!

Com tela de fósforo verde o homem chegou à Lua. Nem se pensava em termos de Gigabytes Agora eu quero apenas escrever uma carta e tenho que esperar para que a folha de papel surja na minha frente. Enquanto espero essa inicialização, faço o quê?! Esqueço o que ia começar a escrever. Então escrevo bobagens para não perder a viagem.

02 ago 08

sábado, julho 26, 2008

Vertical

De vez em quando deparo-me com rostos de atores e atrizes na TV que mantêm uma certa regularidade. Uma está sempre chorando. A outra está sempre irritada com os acontecimentos. Aquele outro tem sempre uns gritos para a família. Percebo a continuidade das novelas no dia-a-dia. As coisas mal resolvidas de hoje que ficaram para amanhã porque o expediente acabou. A cara que aquele sujeito fez para mim hoje, sexta-feira, continuará na segunda-feira, devidamente processada pelo fim-de-semana. E a mágica poderá acontecer: a minha expressão estará totalmente diferente, quebrando, assim, os juízos que foram sendo processados novelescamente durante quarenta e oito horas.

No dia-a-dia do trabalho, da convivência, teimamos em continuar o capítulo do encontro anterior. O problema, para mim, é que não quero dar continuidade aos estereótipos que crio a cada dia. Dessa forma, nunca fico plastificado como atores de novela: “esse é o que gosta de música alta”, “essa é a que está o tempo todo traindo”. Eu quero viver e ponto. Estou sempre a descontinuar os capítulos anteriores. Tentam encaixar-me nas noções, mas não encontram nunca a caixa perfeita. Talvez por eu ser assim mesmo, “sem-noção”.

Eu até tento estar de acordo com as estatísticas e com as expectativas, até acima destas últimas, no sentido mais embusteiro que se possa conceber, mas a minha vida de interrupções não me deixa ser linear.

Se, há algumas horas, constatei que entregar uma folha de papel no formato paisagem ao invés de entregá-la no formato vertical faria uma instituição inteira parar por algumas horas… Travei totalmente ao não conceber o que ocorreria com a mesma instituição se a paisagem, num belo dia, se tornasse verticalizada.

sexta-feira, junho 20, 2008

Cidades sombrias

Não agüento mais
Esses projetos culturais

A cada dia que passa
Fecho-me sobre mim mesmo

É tanta coisa ruim
É tanta tinta gasta

Tantas horas perdidas na tentativa!

Sonhos e atitudes sonhadoras
Entre "louváveis" e "palatáveis"
Mandar "um beijo"
(ou "bjo", para ser mais breve e frio)
um "muito bonito"
Talvez "adorei"
Bacana
Legal
Maneiro
Sinto-me num chiqueiro

Tantas horas consumidas em tentativas!

Não agüento mais
Essas peças teatrais

Onde a fogueira arde no palco das mentiras
Consumindo a única coisa de que não dispomos

Aplaudimos mecanicamente aquilo que se tentou
Afinal tanto trabalho
Sol a sol
Temporais de sofrimentos
Para um minuto de fantasia mal costurada
Um pedaço de carne mal embrulhada
"O sabor amargo de uma tristeza sem fim"
Clichês intermináveis em vias de nunca se acabar

Já sei o que é doce
O que é bom e vicia
Saudade, amor
Trabalho, paixão
E vou morrer feliz por saber disso?

Quero mais, quero mais, quero mais, quero tudo!

Fui selecionado sem querer
E agora obrigam-me a selecionar?
Não sei fazer isso
Desculpem-me

Qual o melhor vinho...
A melhor posição...
O melhor blog...
A mais gostosa mulher...

Difícil?

Entre para o clube dos "dez mais"
Os dez melhores nisso
Os cem melhores contos
Do século?
Da década?
Desse minuto?
Tenho dez, cem ou mil para agora, vai?

E por que os melhores, se há os piores?
Dez piores, cem piores, mil!
Do dia? Da hora?
Quem é o mais da hora?

Não há mais "mais", agora!

Você não sabe o que quer ver

Tanto tempo jogado no lixo das obrigações

E a gente achando legal a idéia de ser reciclável
Por isso queremos ser plásticos o tempo todo
Para retornarmos cardeques em vidas diversas:
Garrafas pet
Sacolas de mercado
Guimbas de cigarro
Isopores e engradados
E morrermos entalados
Nessa mesma correnteza
Nas mesmas bocas-de-lobo
Dessas cidades sombrias.

domingo, junho 15, 2008

Perdi (ou ganhei?) duas horas
Escrevendo um poema!
Duas horas!
Do resultado não gostei.
Poderia ter feito algo bem melhor:
um parafuso
uma roda
algo estapafúrdio
e chamá-lo de qualquer coisa
'Vinda dos Estados Unidos'!
Seria mais útil.
Qualquer coisa seria mais útil
Do que esse poema de duas horas que não prestou!

Duas horas para nada!

Toda a vida abandonada
O mato crescendo e invadindo
Os relacionamentos que construí
De sol-a-sol
Com ternuras e cansaços
Com feiúras e estardalhaços
Escândalos e estilhaços.
Tudo tão cultivado
Agora abandonado
Por causa da poesia...

Duas horas
Mais os dias em que nada faço

Vagabundo
Ridículo
Bebum
Um
simples
nenhum.

Perdi a vida escrevendo
Um poema que foi para o lixo.

14/06/08

sábado, junho 14, 2008

Da série: "Disney nunca mais" - I


Eu Mickey
Rato nojento
Sacudo
A porca que amamenta.
Tiro-lhe os filhotes
Aperto-lhe as tetas:
Com cada grito lancinante dessa porca
Faço sádicas músicas
Sorrindo e cantando
Como rato bonzinho
Norte-Americano.

Mickey Mouse!
E o Pateta sou eu!
Amigo leal
Com o sempre sorriso idiota
Dos que admiram Castelos de Areia
Enquanto são maltratados
Roubados
Otários sob o olhar do Cristo
Redentor cego
Incapaz de ver o mar.

Copacabanas em outros países
Crianças algemadas por pirulitos! -
E não se trata de um filme de Carlitos.

O que é confiar?
O que é viver?

Disneilândias são sonhos patetas
E patetas são tristes nos olhos:
Quantos desertos, quantas cegueiras!
Sem dentes na frente
A debochar da gente
Cachorros submissos ao que vier
Empurram a vida com suas barrigas
Põem na cabeça uma cartola que não cabe
Muito menos sabem o que estão fazendo ali
Dentro de um desenho
Bobo, Ridículo e milionário
De tão mentiroso
Sorrindo sem dentes e sem vontade
Da vida da gente.
Sorrindo para um Castelo de Areia -
A mesma areia com que se constroem
Os World Trade Centers.

(poema escrito na sala de espera da clínica "World Center Dentes")
no Brasil , é claro.

13/06/08 - 21h15 (Espaço Cultural Dalí - Campinas)

sábado, junho 07, 2008

Monteiro Lobato revisitado (1919) - V

PORÃO

Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos.

(LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1959 ­‑ p.278)

Monteiro Lobato revisitado (1919) - IV

BOCATORTA

Morria Cristina e não se desdobravam crepes pelo céu, nem murchavam as folhas das árvores, nem se recobria de cinzas a terra...

Espezinhado pela fria indiferença das coisas, fechou-se na clausura de si próprio, torvo e dolorido, sentindo-se amarfanhar pela pata cega do destino.

(LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1959 ­‑ p.227)

Monteiro Lobato revisitado (1919) - III

ANGÚSTIA DA CRIAÇÃO

Estudando a ficção brasileira, após o simbolismo, Lúcia Miguel Pereira observou, com muito acerto, que, com exceção de um Lima Barreto, o mais não passou de puro diletantismo de alguns espíritos bem dotados, mas aos quais a angústia da criação jamais atormentou.

(CAVALHEIRO, Edgard. Vida e Obra de Monteiro Lobato. In: LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1959 ­‑ p.18)

sexta-feira, junho 06, 2008

Limpo

Quando se passa a limpo
Tudo revive sujo
Revoltosos mares turbilham
Cadáveres remexem-se nos túmulos
No cheiro acre subsiste o ar
Não adiantam ventiladores
Sequer aspiradores…
Somente o filtro
E seu barulho aquário
Assustadoramente monocórdico
De geladeiras e de ventos
E de ondas do mar…
Depois de tudo processado
Como as carnes dos hambúrgueres dos Mc Donalds
A gente sorri!
(alface entre os dentes):
Que letra bonita!
Caderno bonito!

Tudo passado…

Tudo passado a limpo
E esse gosto inconfundível
Dos plásticos e modernos alimentos do agora.

15/maio/08 – 21h15min

Palhaço

Espelhos espalhados
Palhaços espelhados
Pentelhos do caralho
Cuidados com espantalhos
Com ventos, com telhados –
É tudo de vidro
E a vida: vidrada em baralho
Baralho de estilhaços
De contas, de sanhaços
De sonhos em regaços
Emaranhados à sorte
De cada segundo que vai
E os flashes nos olhos
Não me permitem ver o futuro
Maldito Sol
Que vem assim, tangente,
Esquentar a vida da gente.
– Palhaço!

17/maio/2008 – 10h20min

Desleixado V

Eu não guardo mais nada
Não tenho guardado nada
Dizem-me esquecido das coisas
Que coisas?
Há, porventura, ‘coisas’?
O que há é o que eu sinto agora
E é tanto…


Os grãos de areia que pisei massagearam os meus pés
(disso eu lembro bem e sinto até saudades)
Mas não me peça para descrever a praia:
Se chovia ou fazia sol
Se era verão ou inverno
Se estava claro ou escuro
Que dia, que ano, que hora… Que coisa!
Para mim nada existia
Além da massagem nos pés.

Não sei o nome daquele mar
(se é que havia nomes)
Nem a sua localização
Só sei que por ali navegava
Tranqüila, leve e em sonhos
A minha alma liberta
vivente
E sem coração.

06/06/08 – 13h40min

domingo, junho 01, 2008

Monteiro Lobato revisitado (1919) - II

PRETO RETINTO NA ALMA
"Muita gente, e gente boa, comenta a idéia do estilo próprio no Brasil como absurda.
- Pois havemos então de restaurar o mau gosto colonial, um barroco de importação atravessado de barbarismos oriundos da cabeça de pedreiros pretos?
Levada a intransigência a ponto agudo, era caso de responder que o pedreiro preto que com seu sentimento pessoal colaborou na arte vinda da metrópole, era branco por dentro; como o snob de hoje que copia a França é preto retinto na alma; porque o preto fazia obra de branco e estes brancos falsários fazem obra de pretos do Senegal, useiros em meter na cabeça uma cartola velha, enfiar a casaca, atochar os pés num botinão e virem para a rua crentes de que o público os confundirá com puros parisienses."

(LOBATO, Monteiro. Idéias de Jeca Tatu. 9ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1959. p.31)

Demências - I

Grito nos fins de tarde da janela da minha casa
Voz ecoando em verdes montes, o sol morrendo
E minha dor pela lentidão do dia avermelhado
Grito para todo o vilarejo
Não palavras nem qualquer outra coisa significativa
Apenas berro como criança que faz birra
Urros vespertinos já conhecidos dos moradores
Céu da boca aberta ao infinito
Minha alma se liqüefaz em som e fúria.

Logo me trarão remédios, toda tarde é assim
Tenho que engolir meus gritos
Segurar minha alma que salta pela boca
Parar de andar intermitente de um lado para outro
Olhando para o chão e, às vezes, quando me dirigem suas palavras nojentas de cuspe
Levanto apenas os olhos.
A cabeça sempre voltada para baixo
Criou em mim essa corcunda
Dormir a maior parte do tempo sob efeito de remédios,
Proibida de sair de casa
Fez de mim um monstro de cento e trinta quilos.

Tentam ao menos me pentear, mas não quero
E uma braçada minha derruba pessoas!

Eu me divirto com as raras visitas que me olham com medo
Estou sempre com um meio sorriso na boca fechada
Levanto a mão displicentemente para cumprimentar
E não olho pra cara de ninguém.

Escuto as superficialidades e aquilo vai me enjoando
Quando começam as intrigas
Os diálogos cheios de intenção macabra
Empurro o visitante com toda força
Começo a gritar e a tornar a vida impossível.

Emendo meus gritos ao pôr do sol
O céu da boca escuro e sem estrelas de um dia chuvoso
Os comprimidos, as injeções, as tentativas de me tornar igual
Que pelo menos eu pare de quebrar as coisas
Não posso continuar varejando objetos contra as paredes.

Eu sou insuportável.
E a vida só é vida se for desse jeito
Gutural!

sábado, maio 31, 2008

LIVRO

“[...] o objeto literário é um estranho pião, que só existe em movimento. Para fazê-lo surgir, é necessário um ato concreto, que se chama leitura, e ele só dura enquanto esta leitura possa durar. Afora isso, só há traços pretos no papel.”
[Sartre]

Monteiro Lobato revisitado (1919) - I

PRETALHADA INEXTINGUÍVEL

"Numa história geral da caricatura a história da
nossa terá meia página, se tanto. E explica-se a
míngua. Enquanto colônia, era o Brasil uma espécie de
ilha da Sapucaia de Portugal. Despejavam cá quanto
elemento antissocial punha-se lá a infringir as
Ordenações do Reino. E como o escravo indígena
emperrasse no eito, para aqui foi canalizada de
África uma pretalhada inextinguível. Até a vinda de
D. João o Brasil não passava de índio e mataréu no
interior e senhores, feitores e escravos nos núcleos
de povoamento da costa, muito afastados entre si e
rarefeitos. Em toda essa fase o Brasil não dá de si
nenhum bruxoleio de arte."

(LOBATO, Monteiro. Idéias de Jeca Tatu. 9ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1959. p.11)

sábado, maio 24, 2008

não há fogo em meus olhos

"Não te preocupes comigo. Assim como as névoas do rio se arrastam ao longo dos flancos da colina, e, uma vez chegadas ao cume, ascendem à atmosfera formando nuvens; assim também, tuas inquietudes a meu respeito cresceram insensivelmente, sem motivo razoável, e formam, sobre a tua imaginação, o corpo enganador de uma miragem desolada. Asseguro-te que não há fogo em meus olhos, embora sinta a mesma impressão, de meu crânio estar mergulhado em uma tina de carvões ardentes."

(Lautréamont. Os cantos de Maldoror. Iluminuras, 1997. p.163)

quarta-feira, maio 21, 2008

Regulamentação da profissão de escritor é rejeitada em comissão na Câmara

Plantão | Publicada em 19/05/2008 às 15h54m
Alessandra Duarte - O Globo

RIO - Em tramitação na Câmara, em Brasília, um projeto de lei que regulamenta a profissão de escritor foi rejeitado pela Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da casa. O projeto (de número 4641/98), que estabelece normas para o exercício da profissão de escritor, já havia sido aprovado pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara, e há 15 dias foi votado na Comissão de Trabalho, que a rejeitou argumentando que não existe uma profissão específica de escritor e que a legislação brasileira já asseguraria os direitos dos escritores sobre suas obras. O texto vai agora para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania.

quinta-feira, maio 15, 2008

Literatura e Arte

Assunto relacionado e complementar em relação ao artigo abaixo: http://blogescritor.blogspot.com/

sexta-feira, maio 09, 2008

Livro de Graça

Todo escritor tem, dentro das profundezas de sua alma, o desejo de ser lido. Por outro lado, há um medo enorme de mostrar-se tão nu e alguém perceber que, por detrás das palavras que ele sabe engendrar tão bem, há um ser humano tão cru e tão tosco.

Mas o escritor é artista! Vê quadros serem vendidos por milhares de moedas fortes, americanas e européias, freqüentando as paredes íntimas das mais poderosas famílias do mundo, assim como Shakespeare e Camões repousam ainda vivos nas mais sóbrias bibliotecas. Olhando em volta, o escritor percebe Saramago e García Márquez, vivendo o agora, vizinho, e sabe que sente a mesma coisa que sentem esses artistas que triunfaram e obtiveram sucesso universal; só o que falta é ter o seu reconhecimento, pois sabe esse escritor, bem no fundo de si mesmo, que é muito bom.

Entristecido, lembra-se de Van Gogh ou Lautréamont, e de centenas de outros artistas que nada ganharam em vida, alguns viveram em completa miséria, mas anos, às vezes séculos, mais tarde, foram (re)descobertos e transformaram-se em seres eternos. “Há, então e ainda, uma esperança”, pensa o artista. E segue sua jornada, imaginando que, se não está sendo lido hoje, mais tarde a humanidade perceberá o quanto ele foi importante. Esse escritor só esquece que há milhões de outros artistas que viveram na miséria, que nunca foram “descobertos” e que serão eternamente esquecidos pelo tempo e pelo andar da carruagem da vida.

O eterno descontentamento financeiro do escritor pode ser visto, por exemplo, em José de Alencar que, há 135 anos, escreveu:

“Em 1862 escrevi Lucíola, que editei por minha conta (…)

Para publicar Iracema em 1869, fui obrigado a editá-lo por minha conta; e não andei mal inspirado, pois antes de dois anos a edição [de mil exemplares] extinguiu-se. (…)

Deixe arrotarem os poetas mendicantes. O Magnus Apollo da poesia moderna, o deus da inspiração e pai das musas deste século, é essa entidade que se chama editor e o seu Parnaso uma livraria. Se outrora houve Homeros, Sófocles, Virgílios, Horácios e Dantes, sem tipografia nem impressor, é porque então escrevia-se nessa página imortal que se chama a tradição. O poeta cantava; e seus carmes se iam gravando no coração do povo.

Todavia ainda para o que teve a fortuna de obter um editor, o bom livro é no Brasil e por muito tempo será para seu autor, um desastre financeiro. O cabedal de inteligência e trabalho que nele se emprega, daria, em qualquer outra aplicação, lucro cêntuplo.

Mas muita gente acredita que eu me estou cevando em ouro, produto de minhas obras. E, ninguém ousaria acreditá-lo, imputaram-me isso a crime, alguma cousa como sórdida cobiça.

Que país é este onde forja-se uma falsidade, e para quê? Para tornar odiosa e desprezível a riqueza honestamente ganha pelo mais nobre trabalho, o da inteligência!”

(ALENCAR, José de. Como e por que sou romancista)

O homem sempre escreveu, pintou, cantou, compôs, porque todos sabemos serem manifestações do espírito, acontecimentos inerentes à natureza humana. Essas manifestações acabam por tocar outras pessoas de tal forma que surge o desejo de repetir essas experiências para que se sinta novamente uma espécie de “prazer”. A partir do momento em que a possibilidade de reprodução da arte tornou-se realidade – transformando a tradição oral em objetos-livro, por exemplo –, esses objetos transformaram-se em um produto como batatas ou utensílios em geral. Dessa forma, passou-se a comercializar a manifestação da alma.

Os artistas vislumbraram, então, a possibilidade de que sua produção pudesse servir como meio de sobrevivência. Os produtores de arte multiplicaram-se e, hoje, há muita dificuldade em definir o que é realmente arte, em seu sentido ancestral de manifestação da alma humana. Isso porque quem vendia mais era o melhor artista, pela lógica (do mercado). A produção cultural perseguiu o público comprador, e as arestas da criação foram aparadas para agradar a quem poderia dar o sustento.

E hoje, o que se quer?

Os escritores reclamam reconhecimento e acham injusto que um Paulo Coelho, por exemplo, receba milhões de moedas de todos os lados, graças a suas “historinhas ridículas”, enquanto o Escritor que se derrama sobre o papel manchando-o, com lágrimas ou com a merda de sua alma mesquinha, fique a mendigar a editoras pouco conhecidas um pingo de reconhecimento pelo sangue derramado.

O mercado é quem dá as cartas. E me parece que não queremos enxergar. Ou acreditamos que um dia o Estado vai nos financiar porque temos um projeto interessantíssimo e que valerá a pena o investimento. Para que se investe em arte senão para ganhar algo? E quem ganha com um livro pelo qual ninguém se interessa ou por um filme que ninguém quer ver?

“É preciso dar chance aos novos”, dizem os entendidos do assunto. Para quê? Eu pergunto. “O escritor vai ser lido e pode ter a chance de ganhar uma publicação de uma Grande Editora!” Claro: as editoras estão aí ávidas pelo aparecimento de novos Paulos Coelhos que rendem muito. Lêem o seu livro e pensam: “isso pode entrar no mercado? Se a gente fizer uma capa bonita e uma boa propaganda dá até pra enganar o leitor” – que, por sua vez, ficará revoltadíssimo por acreditar ter adquirido auto-ajuda e ter levado, na realidade, um livro repleto de profundas reflexões das quais ele foge porque não tem o mínimo interesse em pensar.

“Mas e o público que pensa? Não existe?” Existe, é claro. Mas é diferente. Quem vai ao cinema assistir a “Missão impossível”, por exemplo, é o mesmo que vai querer o celular de última geração, que vai se apaixonar pelo carro que faz de zero a cem em um segundo, que vai querer o Ipod e o que não pode. Mas quem vai assistir ao “Cheiro do ralo”, por exemplo, é o mesmo para quem se pode vender o quê? Bom-Ar?!

O que quero dizer é que não adianta chorar o sangue derramado. Nós, escritores, continuaremos a derramá-lo e sabemos bem disso. Bom seria se isso rendesse alguma coisa, mas já entendemos que o Mercado não quer saber de nosso sangue. Só fingimos não enxergar e, como autômatos, continuamos a nos inscrever em concursos literários e a nos dirigir aos Correios a fim de enviar nossos originais ao Grande Editor que nos transformará em ricos e bem pagos… Paulos Coelhos.

Todo escritor quer ser lido. Reproduzamos, então, nossa literatura! Depois de devidamente registrada nossa obra, distribuamos! O registro não se deve ao fato de que alguém pode nos roubar e “ganhar em cima”! É só pelo respeito moral e pela responsabilidade: “essa história e esse estilo é meu! E responsabilizo-me pelo que aí vai!” Isso, sim, é reivindicável. Reivindicação do sangue. Sobreviver disso? Fazer disso o famoso “cavalo de batalha”? Ora, se a maioria de nós tem que ter algum emprego, por que ficar segurando nossa arte? Para quê? A valorização nós teremos em cada leitura! Distribuamos, então!

A campanha será assim: se você é Escritor, entregue seu texto a alguém! Junte um dinheiro com seu salário e publique seu livro na gráfica da esquina, do jeito que você quiser, com a capa que você quiser! Separe os que dará aos amigos e colegas, pegue o que sobrou e divida o total de gastos. Estenda uma toalha na feira e venda pelos cinco ou dez reais que custou na gráfica, só para recuperar os custos e poder publicar o próximo!

Aí, sim, teremos o nosso valor e, quem sabe até, nosso público cativo: aqueles 17 leitores que nunca nos viram, mas que se apaixonaram pela nossa literatura. Quem não gostar, simplesmente não vai querer mais e você não precisará ficar se perguntando sobre se o que está fazendo está agradando ao Mercado. Agrada a você e você oferece!

Para aqueles que querem ler gratuitamente, dê o endereço do site onde poderão ler na tela, baixar em Word, em PDF, imprimir em casa, seja lá como for. Com isso, estaremos extinguindo a pirataria, já que não haverá o que burlar. Quem quiser a capa bonitinha terá que encontrar você na feira ou no bar e gastar o que a gráfica cobra para fazer. E só!

O seu dinheiro? Você já não tem seu emprego? Então?! Qual é a dúvida, meu caro Escritor? Você quer ser lido, ou quer ser famoso e ganhar dinheiro? Então é melhor tentar outra coisa: Big Brother, que tal?

Nós escritores não escrevemos porque queremos… E, desde o início da reprodução tipográfica, quando foi possível ganhar alguns níqueis com essa arte, começamos a pensar em como agradar o maior número de pessoas e não mais a tentar mostrar à humanidade o que enxergamos nas profundezas desse oceano que é a vida humana sobre a Terra.

Precisamos entender que nós temos o Dom.

Distribuamos, então nosso "Livro de Graça"!

sexta-feira, maio 02, 2008

Lautréamont

Vai à fonte, traze dois baldes d’água. Lavado o chão, guardarás esses panos no quarto ao lado. Se a lavadeira voltar esta tarde, como deverá fazê-lo, tu os entregarás; mas como chove muito, já faz uma hora, e continuará chovendo, não creio que ela vá sair de casa; neste caso, só voltará amanhã pela manhã. Caso pergunte de onde vem tanto sangue, não tens a obrigação de responder-lhe. Ah! Como estou fraco! Não me importa; ainda terei forças para levantar a caneta e a coragem de cavoucar em meu pensamento. O que deu na cabeça do Criador para atormentar-me como se eu fosse uma criança, por meio da tempestade que carrega o relâmpago? Nem por isso eu desisto de escrever. Estas ataduras me incomodam e a atmosfera do meu quarto cheira a sangue…

(Cantos de Maldoror)

Na jaula

Ponho comida
Água

Tudo

Mas de fome, nunca!

Sou tratador.
Frio.
Preocupado com a sobrevivência sem limites.

Gostoso

Eu estou muito sensual
Poeta
Leve
Sensível
Descrevendo paisagens claras
Luas cheias
Dias de sol (e surf)
Tudo lindo, caralho!

Sinto-me uma ameba
Dentro de um powerpoint lotado
De musiquinhas e frases bestas
Sob assinaturas de imbecis
De gente cheia
Repleta
Das sensibilidades!

Mas eu sou um homem sensível!
Choro com essas coisas também
Morro de amores por ela
Por ele
Por quem estiver na tela
Na paisagem bela…

Preciso tirar uma foto dessa merda
Antes de pôr
no liquidificador da minha vida
E beber sorrindo
(um sorriso lindo como o da moça do iogurte
– com bigode de porra
naquele comercial de merda).

Em 24/04/2008

sexta-feira, abril 18, 2008

Desleixado I



Gosto de ser desleixado com as coisas de segurança máxima.
Nunca me roubaram a carteira
Nem nada.
Nessa minha carteira há poemas diversos
Divulgados, inéditos
Cadernetas com pedaços de minha alma,
Com homens, mulheres e crianças…
Vidas inteiras ali.
Dinheiro?
Minha mãe foi assaltada:
“Só tenho um bolinho aqui, seu moço”
(Isso no tempo em que se assaltava com calças cor-de-abóbora!)
O cara-de-cavalo sentiu pena da criança:
Eu.

Daí em diante passei a preservar a vida.

Não sei, agora, onde está minha carteira…
Mas anda comigo, sempre,
Essa minha cadernetinha.

Sou um escritor que não escreve
Um verdadeiro poeta
Sem poemas
Dou cabeçadas:
Triscando em pedras hieroglifos
Ferindo em árvores garatujas
Riscando em quadros deveres e mais deveres…
Com milhares de gizes efêmeros
Que se apagam em noventa minutos

Vieram tintas, papéis, teclas
Tudo lindo! Tudo perfeito!
Mais fácil de apagar para sempre
O que antes para sempre ficava.

Hoje recebo elogios
Daquilo que nunca escrevi
Por coisas que nunca pensei
De Pessoa que nunca vivi.

A tela de um computador
Só agora entra em poema
Mesmo que esse poema
Nem entre com puta dor.

sábado, abril 12, 2008

A poesia se desfaz

Quando o sentimento é ruim
A poesia se desfaz.

Não adianta tentar restabelecer o contato.

É preciso esperar passar a tempestade
Deixar o sol secar as tábuas da proa
E só então, diante do sorriso do dia,
Mergulhar de cabeça numa poesia
Lavar o corpo da sujeira do ontem
Nessa salmoura cheia de vida
Aquário brilhante onde nadamos
Lindos e ornamentais!
Para lá e para cá
Sem, no entanto,
Sair do lugar.

sexta-feira, abril 11, 2008

conversa entre marido e mulher

- sabe o caio fernando abreu?
- quê qui tem?!
- Adoro. Amo. Tenho orgasmos. Vários. Você não imagina!
- Putz... Sinto-me um corno...
- Pesquise sobre a vida desse poeta maravilhoso! Que me encantou! Que me levou...

O marido foi pesquisar e disse:
- ainda bem que é bicha!

Ao que a mulher respondeu:
- O Abreu?! Fique tranqüilo, meu amor, porque já morreu... Você nem percebeu. Podia até ser bicha, mas hoje, como nunca você fez, ele me comeu!

sexta-feira, abril 04, 2008

REVÓLVER III















Estive com a chave
Diante da violação
Estive com a senha
Diante do pecado
Eu tenho um barco
Para atravessar os dilúvios
Subo na Giraffa amarela
Para apertar seu pescoço
Puxo as barbas do leão
Que passeia em meio a [coisas de] cidade
Brinco com todos os perigos
Destemido senhor de mim
Dono das ruas e filho dos ventos
Percorro invisível a vastidão do mundo
Acariciando cabelos
Derrubando louças
Assoviando canções de medo
Ao penetrar nessas frestas da existência.

Estive com a faca inquieta nas mãos
O queijo, a manteiga, o pão
Intactos como sempre estiveram
Cactos de um deserto humano
Onde corre o vento
E queima o sol
As areias impossíveis –
Nem para castelos servem de tão secas!

Estive em insondáveis recantos do mundo
Com seres que já não estão vivos:
Têm sede e fome
E não entendem da minha prisão.

Não convenço.

Subo pelas paredes atrás da lagartixa
Solto o rabo fictício
Cortinas e cortinas de fumaça
Fazem apenas tossir
A esses mais respeitosos senhores.

Não atinjo.

Estive com o revólver cheio de balas
O dedo no gatilho
E um silêncio tremia na noite…
Até a manhã seguinte
Nada entrou pelo cano
Só esse vento – que sou eu –
A circular assoviando
Por esse frio túnel da morte
Prestes a incendiar-se
Depois de detonada a última pólvora
Que restou em mim.

domingo, março 30, 2008

Citação de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago

"Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projecto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos..."

sexta-feira, março 28, 2008

Nada disso é meu
Nada disso é seu
Por que ficar assim?
Sonhemos
Livremo-nos!
Porque subir aos céus desse jeito
Fumo
É o que de mais sublime
Resta

quinta-feira, março 27, 2008

Sujeito a guincho

Não são os gestos
Sinais de tudo – e mais eu!
O que vi ontem – ou terá sido hoje cedo? –
Faz de mim um ser sem palavras
Gestual, finjo não ser eu
Fingindo, acabo sendo.
E o que vai em mim
Tão ruim
Sai assim:
Trejeitos, desajeitos
Tudo isso faz de mim

Um sujeito a guincho.

Café Godiva, final de março, fechando o verão.

segunda-feira, março 17, 2008

A ferrugem come meus portões

Cédula inútil!
Sonhos jogados a esmo
Como se fosse fácil
Comprar um terreno baldio

Aquilo tem dono!

O mato cresce
A ferrugem come meus portões
A chuva alaga o que quer
As urinas se estendem pelas paredes

É o que dá a falta de atenção!

Mas o terreno é meu.
Está lá e sei disso.
Não comprei?
Quero-o e pronto.
Mais nada.
Só a consciência de ser meu.

Cuido da minha vida.
Cuido do meu bem:
Pago o IPTU!

Respiro fundo
Bem fundo dentro de mim

Olho o mato
O terreno
A chuva...

Naquele terreno baldio está a minha vida.

domingo, março 16, 2008

Oração

Faço poesia quando estou com preguiça
Quando não quero explicar nada.

Faço poesia como exercício
Exercício da má palavra
Do engasgo
Do arroto.
Exercício do escroto.

Faço poesia por pura vagabundagem.
Não há o que fazer além de estar acordado.
Há a louça, as compras, os filhos, a casa, as coisas…
Isso tudo é o de menos para quem nasceu vagabundo:
Quase um deus.

Deus que descansa no sétimo dia
E tudo destrói no dia seguinte
Borrifando água...
E se arrepende de tudo:
Manda o Filho, porque não tem cara,
Manda a Mãe, porque não tem jeito,
Mas Ele mesmo não vai:
Vagabundo fazedor de poesia
Professor – tentando ensinar a viver sem sucesso…
Desde quando ser pobre dá galardão?

Deus incompetente, vagabundo e homossexual
Porque ama todo o mundo igual.
É doente!
Como Eu.

Amém!

Tartaruga

A frente da minha casa dá para os fundos
Ali eu tenho quintal
Árvores, vento, muita chuva e sol

Enquanto as pessoas dormem, eu vivo
Enquanto as pessoas vivem, eu durmo
É duro estar acordado sem minha alma dentro de mim
É difícil dormir sabendo a vida toda por aí
E eu ainda deixo bilhetes:
Explico o que vou fazer
Como se fosse compreensível esse meu viver.

Para mim é tudo muito simples
É só um ir e vir a cada dia e ponto.
É só esperar passar as coisas e pronto! –
Mas eu não sei esperar passar as coisas…
Preciso vivê-las todas
Fazer acontecer tudo o que está engasgado
Transparecer
E, através de minhas palavras,
Desaparecer de tão transparente.

Minha transparência é que é inacreditável!

Mas a vida é isso: vejam!
Ninguém quer acreditar nem saber.
Parece mais fácil brincar de viver do que viver pra brincar.
Ou, se preferirem os mais sérios,
Viver primeiro
Brincar depois.
Separadas as coisas como se simples.

Brincar eu brinco sempre
Desde quando rasguei as carnes de minha mãe.
Desde quando sofreu de amor a primeira namorada.
E a primeira corda que pus ao redor do próprio pescoço?
E o Tropeço?
Marcelo Tropeço!
Apelido que virou poesia num fim de tarde de solidão em massa.
Não é tudo isso para rir?
Não é assim mesmo o porvir?
Por que, então, chorar?


Hoje não está para perguntas
Só as minhas respostinhas
Repostas requentadas nessa mesa bamba:
Os mesmos temperos
As mesmas comidas
Ninguém quer mais engolir-me.

Agora estou longe.
Muito longe.
Não foi um acidente
Nem caí aqui por acaso…
As luzes vermelhas e intermitentes do resgate me atrapalham.
Há tanta paz no silêncio dos escombros!
Depois, entrevistado, devo agradecer? Sorrir?
Graças a Deus e Tudo o mais?!
E as saudades da paz? Declaro?
Escondo.

Aprendi a ser muro.
Não há mais transparências neste ser.

Cresci.
E dizem que isso é um bom sinal.
Virei adulto! Oh!
Inocência é só o nome de um romance.
Tartaruga, viverei muito.
Meio curvado, muito sulcado
Cada vez mais casca grossa para minha auto-preservação
Caminhando cágado
Distante dos olhares impacientes
Dinossauramente
Escreverei minhas histórias
Encantarei outras crianças
E poderei recolher em paz
Minha cabeça
E meu rabo.

sábado, março 15, 2008

Família Real

Preciso entrar no barco
Navegar por entre vagas indiscutíveis
Sobreviver a tempestades perversas
Meses e meses no sal e no sol
O sentimento de abandono...
Pregado em cruz
A sete léguas do destino certo
O sonho bem ali – se liqüefazendo –
Enquanto ergo os braços
Junto com os pensamentos
Concluindo minha vida:
Finalmente, Brasil!
Todo mundo pára!
Curiosidade pelo grito da TV:
Gooooooooooooooooooooool!!!

E eu com pensamentos tão grandes
Como quem tenta
Com um balde
Esvaziar o mar!

quarta-feira, março 12, 2008

Retratos

Retratos que voaram
As vidas que se foram
Os sonhos sustentados por cédulas...

O mês de abril
A normalidade enfurecida
Os sonhos demais.

É preciso resolver o mundo:
Trabalho todos os dias
Suo minhas camisas
Lavo as roupas sujas
Sonho os sonhos soltos
E, por fim,
Vendo a minha obra
Exponho em feira livre
A fealdade da minha alma.
(08/03/2008)

sexta-feira, março 07, 2008

Rede

As idéias estão passando sobre mim
Como um mar
Eternamente
Lentamente
Como que pairando, assim, no ar…

Respiro e estrago tudo
Ser vivo nessa hora não é bom

Prefiro ser máquina
Fazer barulho
Trabalhar incessante
Mente.

Minto.
Introduzo meus dedos
Em orifícios inapropriados
Para sentir os vazios da carne.

Meus dedos balançam no nada
Dali não sai música
Dali não sai nada!
Só pensamentos esparramados de torneira
Que são nada diante do mar
Do ar
Da vida
Alheia a mim.

As coisas correm
Escorrem feito saliva
Na boca do bobo que sente muito
Na boca de lobo que derrama água
Na avó, morta, que se liqüefaz.

Chafariz!
Jorro de vida
De gozos
Explosões que não acompanho
De tão pedra que fico
Diante de tudo tão vivo.

A rapidez me incomoda
Tanto quanto o acordar.
As palavras dos outros me fazem dormir…

E o balanço da rede não tem igual!

quinta-feira, março 06, 2008

Viagem das horas

Hora.
Um marca zero
Outro marca duas
e cinqüenta.
O terceiro:
Zero, cinqüenta e dois.
No meu pulso cento e vinte
E ninguém marca nada certo
Porque faltou luz
E as contagens mais malucas recomeçaram do nada.

Agora eu marco bobeira:
Esqueci aberta a porteira
E os sonhos gados correm loucos e libertos
Para o nada infinito buraco negro
De onde será difícil o resgate do tempo
Perdido entre:
O que eu acho certo
O que diz o relógio
E o que é a verdade.

Nenhum deles vale
Nenhum deles salva de nada:
o meio de um triângulo –
Isósceles!
Com ares de furacão.

O meio exato e eterno de tudo.

Concentre-se.
Siga.
Feche os olhos…
E viaje para sempre!

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Resto

O resto
Depois das horas de 'realidade'
tudo o mais
É a vida!
E você vai ficar aí?
Fazendo tabelas?

Realidade

A realidade tem hora para acontecer.
Que horas são?

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Os sonhos não acabaram

A foto queria dizer: estive aqui.
Agora não quer dizer nada.
Realidade forjada
Não sei de mais nada
Nenhum daqueles sonhos acabou
Continuam todos aí, a atormentar-nos
Enfrentar a realidade? De novo?
Não adianta enfrentar
Não adianta sonhar
Não adianta nada…
É muita gente
É tudo um caldo
É sempre um sonho…

Basta saber sair

Sobressair

E ir…

12/02/2008 1:00

Bem-estar

Há horas tento encontrar
O que me trouxe tanta alegria.
Guardei no mais bem guardado
Onde só eu pudesse saber.
Ninguém mais podia!
Um sonho só meu, só meu, só meu…
Não comento, não demonstro
Como um monstro, mas não digo!
Só eu sei – e ninguém mais!
Só eu sabia: zás-tráz!

Agora eu quero rir,
Mas o monstro não me diz
Passo perto e por um triz
Não encontro o lugar

É tanta coisa a se guardar…

Talvez aqui, talvez ali,
Ninguém sabe onde estará.

Eu sei bem onde’u estou.
Eu sei bem ond’ei’d’star.

Por que guardar?
Por que guardar?

Estivesse ali
Sem egoísmos
Eu saberia:
Bem-estar!

12/02/2008

domingo, fevereiro 10, 2008

INICIAÇÃO

As coisas inacabadas têm, para mim, valor inestimável. São as coisas que só começaram e, por isso, eivadas de esperança. A peça de teatro que comecei há mais de dez anos poderá ser a melhor peça de teatro de todos os tempos. Quem duvida? Ainda não foi terminada! O sonho de ter uma moto, comprar um carro, ter uma televisão, morar sem os pais… Todos esses sonhos morreram, porque tudo foi terminado. Prefiro os sonhos que não têm fim.

Não terminar as coisas é uma forma de eternizar-se. Como posso morrer se ainda não terminei minha obra? Talvez esteja aí a origem de toda arte. Escrever uma história não é como comprar um carro. Pintar um quadro não é como adquirir um televisor. Escrever, pintar, dançar, cantar, compor são atividades sem fim. Por mais que se escreva, se pinte, se cante ou se dance, a impressão sempre é de que se está apenas no começo de tudo.

“Vamos acabar logo com isso”, dizem alguns. “Não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje”. Criaram o sábio ditado, mas enviesaram a interpretação. O que eu posso “fazer” hoje – e não devo deixar para amanhã – é começar algo. Recomeçar. Iniciar sempre. Cada dia, um novo início! Sempre vai ficar alguma coisa para o outro dia, porque não cabe nesse tempo, o dia, tudo o que tenho para fazer. Preciso ser eterno. E dou partida à minha eternidade de maneira “iniciática”: sempre iniciando algo. O ritual dessa iniciação começa quando você recebe a primeira crítica: “quer abraçar o mundo com as pernas?”. Sim! Deve ser a resposta! E não só com as pernas, mas com os braços, com os olhos, com o coração, com o corpo inteiro. Quero abraçar o mundo com a própria alma e, assim, conscientizar-me de que eu e o mundo somos um todo indivisível. Mas esse outro estágio vem bem depois da iniciação.

Inicie. Hoje mesmo comece algo. Levante-se e vá trabalhar para isso. O mundo é grande demais para se deixar ficar deitado: é preciso abraçá-lo com as pernas. Depois, quando olhar para os lados e perceber verdadeiramente o mundo de coisas que está tentando abraçar, dê um largo sorriso. Gargalhe! Pule, dance, cante, escreva, solte a sua imaginação, liberte a sua alma das angústias do que lhe parece impossível, porque você é eterno e o seu tempo não existe. Enquanto houver coisas inacabadas, haverá trabalho por fazer e, portanto, muita vida a se viver!

terça-feira, fevereiro 05, 2008

SPA

Sou o homem mais fibroso do mundo
Porque como coisas saudáveis
Que lindo que eu sou!
Fruta? Estou dentro.
Como todas
Bebo todas
E gozo
E tenho muito prazer na vida!

Os sonhos não são comigo
Desculpe, pois
Sou do departamento dos atores
Aqueles que representam os seres mais escrotos
Que habitam os seus sonhos!

Posso, pelo menos, fumar um cigarro?

Que bom exemplo serei eu depois de um filme daqueles?

Mas, quando sozinho,
Como uma fruta.


E é isso que eu tenho para apresentar!

Representar.

Presentear!

quarta-feira, janeiro 09, 2008

A nêspera e a véspera

A minha véspera
É como a nêspera
Fruta que odeio
Só porque você gosta
No dia que chega
Acaba
Que tudo bem
Eu chupo, você chupa
E ficamos satisfeitos
Com esse olhar de dor
A alma naquela paz:
“A vida é assim mesmo”
Como se “assim mesmo”
Fosse capaz de completar nosso espírito
Tão incompletos ficamos
Enquanto tudo na paz
Acontece.

18/12/2007

Enquanto você está aqui embaixo
Lá em cima tem gente passando
E deixando marca no céu.

Lendo Grande Sertão assim
Veredas
É uma espécie de Bíblia aberta
Na madrugada dos Salmos
Reverberada
Em latidos de cães
Em paradas de táxis
Em gente que vai-e-vem
No Sol que custa a chegar!

26/12/2007

Tudo vai num desespero
Eu não sei mais o que fazer
Porque eu não sei mais quem eu sou
Meu encontro comigo mesmo
Me dá medo e alegria
Porque é um encontro de amor…
Apesar de escrever versos
Não sou poeta – sou sozinho.
Minhas frases são curtas
E a vida…
Longa, muito longa…

26/12/07­