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domingo, março 30, 2008

Citação de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago

"Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projecto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos..."

sexta-feira, março 28, 2008

Nada disso é meu
Nada disso é seu
Por que ficar assim?
Sonhemos
Livremo-nos!
Porque subir aos céus desse jeito
Fumo
É o que de mais sublime
Resta

quinta-feira, março 27, 2008

Sujeito a guincho

Não são os gestos
Sinais de tudo – e mais eu!
O que vi ontem – ou terá sido hoje cedo? –
Faz de mim um ser sem palavras
Gestual, finjo não ser eu
Fingindo, acabo sendo.
E o que vai em mim
Tão ruim
Sai assim:
Trejeitos, desajeitos
Tudo isso faz de mim

Um sujeito a guincho.

Café Godiva, final de março, fechando o verão.

segunda-feira, março 17, 2008

A ferrugem come meus portões

Cédula inútil!
Sonhos jogados a esmo
Como se fosse fácil
Comprar um terreno baldio

Aquilo tem dono!

O mato cresce
A ferrugem come meus portões
A chuva alaga o que quer
As urinas se estendem pelas paredes

É o que dá a falta de atenção!

Mas o terreno é meu.
Está lá e sei disso.
Não comprei?
Quero-o e pronto.
Mais nada.
Só a consciência de ser meu.

Cuido da minha vida.
Cuido do meu bem:
Pago o IPTU!

Respiro fundo
Bem fundo dentro de mim

Olho o mato
O terreno
A chuva...

Naquele terreno baldio está a minha vida.

domingo, março 16, 2008

Oração

Faço poesia quando estou com preguiça
Quando não quero explicar nada.

Faço poesia como exercício
Exercício da má palavra
Do engasgo
Do arroto.
Exercício do escroto.

Faço poesia por pura vagabundagem.
Não há o que fazer além de estar acordado.
Há a louça, as compras, os filhos, a casa, as coisas…
Isso tudo é o de menos para quem nasceu vagabundo:
Quase um deus.

Deus que descansa no sétimo dia
E tudo destrói no dia seguinte
Borrifando água...
E se arrepende de tudo:
Manda o Filho, porque não tem cara,
Manda a Mãe, porque não tem jeito,
Mas Ele mesmo não vai:
Vagabundo fazedor de poesia
Professor – tentando ensinar a viver sem sucesso…
Desde quando ser pobre dá galardão?

Deus incompetente, vagabundo e homossexual
Porque ama todo o mundo igual.
É doente!
Como Eu.

Amém!

Tartaruga

A frente da minha casa dá para os fundos
Ali eu tenho quintal
Árvores, vento, muita chuva e sol

Enquanto as pessoas dormem, eu vivo
Enquanto as pessoas vivem, eu durmo
É duro estar acordado sem minha alma dentro de mim
É difícil dormir sabendo a vida toda por aí
E eu ainda deixo bilhetes:
Explico o que vou fazer
Como se fosse compreensível esse meu viver.

Para mim é tudo muito simples
É só um ir e vir a cada dia e ponto.
É só esperar passar as coisas e pronto! –
Mas eu não sei esperar passar as coisas…
Preciso vivê-las todas
Fazer acontecer tudo o que está engasgado
Transparecer
E, através de minhas palavras,
Desaparecer de tão transparente.

Minha transparência é que é inacreditável!

Mas a vida é isso: vejam!
Ninguém quer acreditar nem saber.
Parece mais fácil brincar de viver do que viver pra brincar.
Ou, se preferirem os mais sérios,
Viver primeiro
Brincar depois.
Separadas as coisas como se simples.

Brincar eu brinco sempre
Desde quando rasguei as carnes de minha mãe.
Desde quando sofreu de amor a primeira namorada.
E a primeira corda que pus ao redor do próprio pescoço?
E o Tropeço?
Marcelo Tropeço!
Apelido que virou poesia num fim de tarde de solidão em massa.
Não é tudo isso para rir?
Não é assim mesmo o porvir?
Por que, então, chorar?


Hoje não está para perguntas
Só as minhas respostinhas
Repostas requentadas nessa mesa bamba:
Os mesmos temperos
As mesmas comidas
Ninguém quer mais engolir-me.

Agora estou longe.
Muito longe.
Não foi um acidente
Nem caí aqui por acaso…
As luzes vermelhas e intermitentes do resgate me atrapalham.
Há tanta paz no silêncio dos escombros!
Depois, entrevistado, devo agradecer? Sorrir?
Graças a Deus e Tudo o mais?!
E as saudades da paz? Declaro?
Escondo.

Aprendi a ser muro.
Não há mais transparências neste ser.

Cresci.
E dizem que isso é um bom sinal.
Virei adulto! Oh!
Inocência é só o nome de um romance.
Tartaruga, viverei muito.
Meio curvado, muito sulcado
Cada vez mais casca grossa para minha auto-preservação
Caminhando cágado
Distante dos olhares impacientes
Dinossauramente
Escreverei minhas histórias
Encantarei outras crianças
E poderei recolher em paz
Minha cabeça
E meu rabo.

sábado, março 15, 2008

Família Real

Preciso entrar no barco
Navegar por entre vagas indiscutíveis
Sobreviver a tempestades perversas
Meses e meses no sal e no sol
O sentimento de abandono...
Pregado em cruz
A sete léguas do destino certo
O sonho bem ali – se liqüefazendo –
Enquanto ergo os braços
Junto com os pensamentos
Concluindo minha vida:
Finalmente, Brasil!
Todo mundo pára!
Curiosidade pelo grito da TV:
Gooooooooooooooooooooool!!!

E eu com pensamentos tão grandes
Como quem tenta
Com um balde
Esvaziar o mar!

quarta-feira, março 12, 2008

Retratos

Retratos que voaram
As vidas que se foram
Os sonhos sustentados por cédulas...

O mês de abril
A normalidade enfurecida
Os sonhos demais.

É preciso resolver o mundo:
Trabalho todos os dias
Suo minhas camisas
Lavo as roupas sujas
Sonho os sonhos soltos
E, por fim,
Vendo a minha obra
Exponho em feira livre
A fealdade da minha alma.
(08/03/2008)

sexta-feira, março 07, 2008

Rede

As idéias estão passando sobre mim
Como um mar
Eternamente
Lentamente
Como que pairando, assim, no ar…

Respiro e estrago tudo
Ser vivo nessa hora não é bom

Prefiro ser máquina
Fazer barulho
Trabalhar incessante
Mente.

Minto.
Introduzo meus dedos
Em orifícios inapropriados
Para sentir os vazios da carne.

Meus dedos balançam no nada
Dali não sai música
Dali não sai nada!
Só pensamentos esparramados de torneira
Que são nada diante do mar
Do ar
Da vida
Alheia a mim.

As coisas correm
Escorrem feito saliva
Na boca do bobo que sente muito
Na boca de lobo que derrama água
Na avó, morta, que se liqüefaz.

Chafariz!
Jorro de vida
De gozos
Explosões que não acompanho
De tão pedra que fico
Diante de tudo tão vivo.

A rapidez me incomoda
Tanto quanto o acordar.
As palavras dos outros me fazem dormir…

E o balanço da rede não tem igual!

quinta-feira, março 06, 2008

Viagem das horas

Hora.
Um marca zero
Outro marca duas
e cinqüenta.
O terceiro:
Zero, cinqüenta e dois.
No meu pulso cento e vinte
E ninguém marca nada certo
Porque faltou luz
E as contagens mais malucas recomeçaram do nada.

Agora eu marco bobeira:
Esqueci aberta a porteira
E os sonhos gados correm loucos e libertos
Para o nada infinito buraco negro
De onde será difícil o resgate do tempo
Perdido entre:
O que eu acho certo
O que diz o relógio
E o que é a verdade.

Nenhum deles vale
Nenhum deles salva de nada:
o meio de um triângulo –
Isósceles!
Com ares de furacão.

O meio exato e eterno de tudo.

Concentre-se.
Siga.
Feche os olhos…
E viaje para sempre!