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sexta-feira, abril 18, 2008

Desleixado I



Gosto de ser desleixado com as coisas de segurança máxima.
Nunca me roubaram a carteira
Nem nada.
Nessa minha carteira há poemas diversos
Divulgados, inéditos
Cadernetas com pedaços de minha alma,
Com homens, mulheres e crianças…
Vidas inteiras ali.
Dinheiro?
Minha mãe foi assaltada:
“Só tenho um bolinho aqui, seu moço”
(Isso no tempo em que se assaltava com calças cor-de-abóbora!)
O cara-de-cavalo sentiu pena da criança:
Eu.

Daí em diante passei a preservar a vida.

Não sei, agora, onde está minha carteira…
Mas anda comigo, sempre,
Essa minha cadernetinha.

Sou um escritor que não escreve
Um verdadeiro poeta
Sem poemas
Dou cabeçadas:
Triscando em pedras hieroglifos
Ferindo em árvores garatujas
Riscando em quadros deveres e mais deveres…
Com milhares de gizes efêmeros
Que se apagam em noventa minutos

Vieram tintas, papéis, teclas
Tudo lindo! Tudo perfeito!
Mais fácil de apagar para sempre
O que antes para sempre ficava.

Hoje recebo elogios
Daquilo que nunca escrevi
Por coisas que nunca pensei
De Pessoa que nunca vivi.

A tela de um computador
Só agora entra em poema
Mesmo que esse poema
Nem entre com puta dor.

sábado, abril 12, 2008

A poesia se desfaz

Quando o sentimento é ruim
A poesia se desfaz.

Não adianta tentar restabelecer o contato.

É preciso esperar passar a tempestade
Deixar o sol secar as tábuas da proa
E só então, diante do sorriso do dia,
Mergulhar de cabeça numa poesia
Lavar o corpo da sujeira do ontem
Nessa salmoura cheia de vida
Aquário brilhante onde nadamos
Lindos e ornamentais!
Para lá e para cá
Sem, no entanto,
Sair do lugar.

sexta-feira, abril 11, 2008

conversa entre marido e mulher

- sabe o caio fernando abreu?
- quê qui tem?!
- Adoro. Amo. Tenho orgasmos. Vários. Você não imagina!
- Putz... Sinto-me um corno...
- Pesquise sobre a vida desse poeta maravilhoso! Que me encantou! Que me levou...

O marido foi pesquisar e disse:
- ainda bem que é bicha!

Ao que a mulher respondeu:
- O Abreu?! Fique tranqüilo, meu amor, porque já morreu... Você nem percebeu. Podia até ser bicha, mas hoje, como nunca você fez, ele me comeu!

sexta-feira, abril 04, 2008

REVÓLVER III















Estive com a chave
Diante da violação
Estive com a senha
Diante do pecado
Eu tenho um barco
Para atravessar os dilúvios
Subo na Giraffa amarela
Para apertar seu pescoço
Puxo as barbas do leão
Que passeia em meio a [coisas de] cidade
Brinco com todos os perigos
Destemido senhor de mim
Dono das ruas e filho dos ventos
Percorro invisível a vastidão do mundo
Acariciando cabelos
Derrubando louças
Assoviando canções de medo
Ao penetrar nessas frestas da existência.

Estive com a faca inquieta nas mãos
O queijo, a manteiga, o pão
Intactos como sempre estiveram
Cactos de um deserto humano
Onde corre o vento
E queima o sol
As areias impossíveis –
Nem para castelos servem de tão secas!

Estive em insondáveis recantos do mundo
Com seres que já não estão vivos:
Têm sede e fome
E não entendem da minha prisão.

Não convenço.

Subo pelas paredes atrás da lagartixa
Solto o rabo fictício
Cortinas e cortinas de fumaça
Fazem apenas tossir
A esses mais respeitosos senhores.

Não atinjo.

Estive com o revólver cheio de balas
O dedo no gatilho
E um silêncio tremia na noite…
Até a manhã seguinte
Nada entrou pelo cano
Só esse vento – que sou eu –
A circular assoviando
Por esse frio túnel da morte
Prestes a incendiar-se
Depois de detonada a última pólvora
Que restou em mim.