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sexta-feira, junho 20, 2008

Cidades sombrias

Não agüento mais
Esses projetos culturais

A cada dia que passa
Fecho-me sobre mim mesmo

É tanta coisa ruim
É tanta tinta gasta

Tantas horas perdidas na tentativa!

Sonhos e atitudes sonhadoras
Entre "louváveis" e "palatáveis"
Mandar "um beijo"
(ou "bjo", para ser mais breve e frio)
um "muito bonito"
Talvez "adorei"
Bacana
Legal
Maneiro
Sinto-me num chiqueiro

Tantas horas consumidas em tentativas!

Não agüento mais
Essas peças teatrais

Onde a fogueira arde no palco das mentiras
Consumindo a única coisa de que não dispomos

Aplaudimos mecanicamente aquilo que se tentou
Afinal tanto trabalho
Sol a sol
Temporais de sofrimentos
Para um minuto de fantasia mal costurada
Um pedaço de carne mal embrulhada
"O sabor amargo de uma tristeza sem fim"
Clichês intermináveis em vias de nunca se acabar

Já sei o que é doce
O que é bom e vicia
Saudade, amor
Trabalho, paixão
E vou morrer feliz por saber disso?

Quero mais, quero mais, quero mais, quero tudo!

Fui selecionado sem querer
E agora obrigam-me a selecionar?
Não sei fazer isso
Desculpem-me

Qual o melhor vinho...
A melhor posição...
O melhor blog...
A mais gostosa mulher...

Difícil?

Entre para o clube dos "dez mais"
Os dez melhores nisso
Os cem melhores contos
Do século?
Da década?
Desse minuto?
Tenho dez, cem ou mil para agora, vai?

E por que os melhores, se há os piores?
Dez piores, cem piores, mil!
Do dia? Da hora?
Quem é o mais da hora?

Não há mais "mais", agora!

Você não sabe o que quer ver

Tanto tempo jogado no lixo das obrigações

E a gente achando legal a idéia de ser reciclável
Por isso queremos ser plásticos o tempo todo
Para retornarmos cardeques em vidas diversas:
Garrafas pet
Sacolas de mercado
Guimbas de cigarro
Isopores e engradados
E morrermos entalados
Nessa mesma correnteza
Nas mesmas bocas-de-lobo
Dessas cidades sombrias.

domingo, junho 15, 2008

Perdi (ou ganhei?) duas horas
Escrevendo um poema!
Duas horas!
Do resultado não gostei.
Poderia ter feito algo bem melhor:
um parafuso
uma roda
algo estapafúrdio
e chamá-lo de qualquer coisa
'Vinda dos Estados Unidos'!
Seria mais útil.
Qualquer coisa seria mais útil
Do que esse poema de duas horas que não prestou!

Duas horas para nada!

Toda a vida abandonada
O mato crescendo e invadindo
Os relacionamentos que construí
De sol-a-sol
Com ternuras e cansaços
Com feiúras e estardalhaços
Escândalos e estilhaços.
Tudo tão cultivado
Agora abandonado
Por causa da poesia...

Duas horas
Mais os dias em que nada faço

Vagabundo
Ridículo
Bebum
Um
simples
nenhum.

Perdi a vida escrevendo
Um poema que foi para o lixo.

14/06/08

sábado, junho 14, 2008

Da série: "Disney nunca mais" - I


Eu Mickey
Rato nojento
Sacudo
A porca que amamenta.
Tiro-lhe os filhotes
Aperto-lhe as tetas:
Com cada grito lancinante dessa porca
Faço sádicas músicas
Sorrindo e cantando
Como rato bonzinho
Norte-Americano.

Mickey Mouse!
E o Pateta sou eu!
Amigo leal
Com o sempre sorriso idiota
Dos que admiram Castelos de Areia
Enquanto são maltratados
Roubados
Otários sob o olhar do Cristo
Redentor cego
Incapaz de ver o mar.

Copacabanas em outros países
Crianças algemadas por pirulitos! -
E não se trata de um filme de Carlitos.

O que é confiar?
O que é viver?

Disneilândias são sonhos patetas
E patetas são tristes nos olhos:
Quantos desertos, quantas cegueiras!
Sem dentes na frente
A debochar da gente
Cachorros submissos ao que vier
Empurram a vida com suas barrigas
Põem na cabeça uma cartola que não cabe
Muito menos sabem o que estão fazendo ali
Dentro de um desenho
Bobo, Ridículo e milionário
De tão mentiroso
Sorrindo sem dentes e sem vontade
Da vida da gente.
Sorrindo para um Castelo de Areia -
A mesma areia com que se constroem
Os World Trade Centers.

(poema escrito na sala de espera da clínica "World Center Dentes")
no Brasil , é claro.

13/06/08 - 21h15 (Espaço Cultural Dalí - Campinas)

sábado, junho 07, 2008

Monteiro Lobato revisitado (1919) - V

PORÃO

Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos.

(LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1959 ­‑ p.278)

Monteiro Lobato revisitado (1919) - IV

BOCATORTA

Morria Cristina e não se desdobravam crepes pelo céu, nem murchavam as folhas das árvores, nem se recobria de cinzas a terra...

Espezinhado pela fria indiferença das coisas, fechou-se na clausura de si próprio, torvo e dolorido, sentindo-se amarfanhar pela pata cega do destino.

(LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1959 ­‑ p.227)

Monteiro Lobato revisitado (1919) - III

ANGÚSTIA DA CRIAÇÃO

Estudando a ficção brasileira, após o simbolismo, Lúcia Miguel Pereira observou, com muito acerto, que, com exceção de um Lima Barreto, o mais não passou de puro diletantismo de alguns espíritos bem dotados, mas aos quais a angústia da criação jamais atormentou.

(CAVALHEIRO, Edgard. Vida e Obra de Monteiro Lobato. In: LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1959 ­‑ p.18)

sexta-feira, junho 06, 2008

Limpo

Quando se passa a limpo
Tudo revive sujo
Revoltosos mares turbilham
Cadáveres remexem-se nos túmulos
No cheiro acre subsiste o ar
Não adiantam ventiladores
Sequer aspiradores…
Somente o filtro
E seu barulho aquário
Assustadoramente monocórdico
De geladeiras e de ventos
E de ondas do mar…
Depois de tudo processado
Como as carnes dos hambúrgueres dos Mc Donalds
A gente sorri!
(alface entre os dentes):
Que letra bonita!
Caderno bonito!

Tudo passado…

Tudo passado a limpo
E esse gosto inconfundível
Dos plásticos e modernos alimentos do agora.

15/maio/08 – 21h15min

Palhaço

Espelhos espalhados
Palhaços espelhados
Pentelhos do caralho
Cuidados com espantalhos
Com ventos, com telhados –
É tudo de vidro
E a vida: vidrada em baralho
Baralho de estilhaços
De contas, de sanhaços
De sonhos em regaços
Emaranhados à sorte
De cada segundo que vai
E os flashes nos olhos
Não me permitem ver o futuro
Maldito Sol
Que vem assim, tangente,
Esquentar a vida da gente.
– Palhaço!

17/maio/2008 – 10h20min

Desleixado V

Eu não guardo mais nada
Não tenho guardado nada
Dizem-me esquecido das coisas
Que coisas?
Há, porventura, ‘coisas’?
O que há é o que eu sinto agora
E é tanto…


Os grãos de areia que pisei massagearam os meus pés
(disso eu lembro bem e sinto até saudades)
Mas não me peça para descrever a praia:
Se chovia ou fazia sol
Se era verão ou inverno
Se estava claro ou escuro
Que dia, que ano, que hora… Que coisa!
Para mim nada existia
Além da massagem nos pés.

Não sei o nome daquele mar
(se é que havia nomes)
Nem a sua localização
Só sei que por ali navegava
Tranqüila, leve e em sonhos
A minha alma liberta
vivente
E sem coração.

06/06/08 – 13h40min

domingo, junho 01, 2008

Monteiro Lobato revisitado (1919) - II

PRETO RETINTO NA ALMA
"Muita gente, e gente boa, comenta a idéia do estilo próprio no Brasil como absurda.
- Pois havemos então de restaurar o mau gosto colonial, um barroco de importação atravessado de barbarismos oriundos da cabeça de pedreiros pretos?
Levada a intransigência a ponto agudo, era caso de responder que o pedreiro preto que com seu sentimento pessoal colaborou na arte vinda da metrópole, era branco por dentro; como o snob de hoje que copia a França é preto retinto na alma; porque o preto fazia obra de branco e estes brancos falsários fazem obra de pretos do Senegal, useiros em meter na cabeça uma cartola velha, enfiar a casaca, atochar os pés num botinão e virem para a rua crentes de que o público os confundirá com puros parisienses."

(LOBATO, Monteiro. Idéias de Jeca Tatu. 9ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1959. p.31)

Demências - I

Grito nos fins de tarde da janela da minha casa
Voz ecoando em verdes montes, o sol morrendo
E minha dor pela lentidão do dia avermelhado
Grito para todo o vilarejo
Não palavras nem qualquer outra coisa significativa
Apenas berro como criança que faz birra
Urros vespertinos já conhecidos dos moradores
Céu da boca aberta ao infinito
Minha alma se liqüefaz em som e fúria.

Logo me trarão remédios, toda tarde é assim
Tenho que engolir meus gritos
Segurar minha alma que salta pela boca
Parar de andar intermitente de um lado para outro
Olhando para o chão e, às vezes, quando me dirigem suas palavras nojentas de cuspe
Levanto apenas os olhos.
A cabeça sempre voltada para baixo
Criou em mim essa corcunda
Dormir a maior parte do tempo sob efeito de remédios,
Proibida de sair de casa
Fez de mim um monstro de cento e trinta quilos.

Tentam ao menos me pentear, mas não quero
E uma braçada minha derruba pessoas!

Eu me divirto com as raras visitas que me olham com medo
Estou sempre com um meio sorriso na boca fechada
Levanto a mão displicentemente para cumprimentar
E não olho pra cara de ninguém.

Escuto as superficialidades e aquilo vai me enjoando
Quando começam as intrigas
Os diálogos cheios de intenção macabra
Empurro o visitante com toda força
Começo a gritar e a tornar a vida impossível.

Emendo meus gritos ao pôr do sol
O céu da boca escuro e sem estrelas de um dia chuvoso
Os comprimidos, as injeções, as tentativas de me tornar igual
Que pelo menos eu pare de quebrar as coisas
Não posso continuar varejando objetos contra as paredes.

Eu sou insuportável.
E a vida só é vida se for desse jeito
Gutural!