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sábado, julho 26, 2008

Vertical

De vez em quando deparo-me com rostos de atores e atrizes na TV que mantêm uma certa regularidade. Uma está sempre chorando. A outra está sempre irritada com os acontecimentos. Aquele outro tem sempre uns gritos para a família. Percebo a continuidade das novelas no dia-a-dia. As coisas mal resolvidas de hoje que ficaram para amanhã porque o expediente acabou. A cara que aquele sujeito fez para mim hoje, sexta-feira, continuará na segunda-feira, devidamente processada pelo fim-de-semana. E a mágica poderá acontecer: a minha expressão estará totalmente diferente, quebrando, assim, os juízos que foram sendo processados novelescamente durante quarenta e oito horas.

No dia-a-dia do trabalho, da convivência, teimamos em continuar o capítulo do encontro anterior. O problema, para mim, é que não quero dar continuidade aos estereótipos que crio a cada dia. Dessa forma, nunca fico plastificado como atores de novela: “esse é o que gosta de música alta”, “essa é a que está o tempo todo traindo”. Eu quero viver e ponto. Estou sempre a descontinuar os capítulos anteriores. Tentam encaixar-me nas noções, mas não encontram nunca a caixa perfeita. Talvez por eu ser assim mesmo, “sem-noção”.

Eu até tento estar de acordo com as estatísticas e com as expectativas, até acima destas últimas, no sentido mais embusteiro que se possa conceber, mas a minha vida de interrupções não me deixa ser linear.

Se, há algumas horas, constatei que entregar uma folha de papel no formato paisagem ao invés de entregá-la no formato vertical faria uma instituição inteira parar por algumas horas… Travei totalmente ao não conceber o que ocorreria com a mesma instituição se a paisagem, num belo dia, se tornasse verticalizada.