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sábado, novembro 29, 2008

Às vezes, em sonhos distraídos, que me surgem das esquinas do pensamento e da emoção, visiono amores. Uma vez me encontro desenrolando um enredo de uma paixão correspondida por uma tuberculosa de génio, que havia escrito o seu livro imortal na esperança de não sei quê, sempre, assentada, à janela da casa caiada. Outras vezes é a marqueza, que mora na quinta alta, que,quando me conheceu residente perto dali onde eu nunca estaria, me atrai a si sem querer; o nosso amor desenvolve-se sem história, e há uma grande conclusão. Outras vezes ainda o romantismo deixa as tuberculosas e a arisocracia, e há uma grande simplicidade nos desejos sonhados: ela foi enconrada enre a vida como uma flor entre ervas altas, colhi-a para o meu lar limpo e lindo, e a nossa vida, pelo menos até onde vai o sonho, dorme quietudes entre sinceridades, e tudo é afago.

Ah, que enredos complexos, em conveses de navios, em ilhas distantes, em hotéis universais, em viagens passageiras, me não encantam a distracção como vestidos expostos.

Mas, de repente, e com um regresso de pesadelo estatelado, desperto do meu romantismo sexual, e coro a sós comigo de fazer com a mente de dentro a mesma coisa que fazem todos os homens. E tenho, como timbre de fidalguia fraseada, a antagem ridícula de contra. Sim, às vezes sonho deste modo. Às vezes sou costureira masculina, e tenho príncipes, que são princesas, e muitas vezes são outra coisa, na imaginação inevitáel.

E então acordado de todo, rio, quase alto, de me ver assim, como se me visse nu por baixo da nudez, como se me conhecesse esqueleto da alma, e uma alegria pontiaguda valsa nos meus devaneios. Que tristeza!


[FERNANDO PESSOA]

Fellini

Há um filme, quero dizer, a idéia, o sentimento, a desconfiança, de um filme que trago comigo há quinze anos e que ainda não se abriu, não me concedeu confiança, não me revelou as intenções. Aparece com pontualidade ao final de cada filme que faço, como se quisesse se propor, me fazer entender que agora é sua vez, fica algum tempo comigo, me estuda um pouco e, uma bela manhã, desaparece.Também fico feliz a cada vez que se vai, é muito sério, empenhado, ainda não nos parecemos, quem sabe qual dos dois terá mudado. Pensando bem, nunca tive vontade de fazer nem mesmo um desenho seu, um rabisco qualquer; é evidente que quando decidir colaborar, me fará compreendê-lo por meio de outros sinais.

Às vezes até desconfio de que não é um filme, e sim alguma outra coisa que ainda não sou capaz de compreender, e me assusto um pouco, mas logo me conforta o pensamento de que deve ser um filme-piloto, uma espécie de espírito guia bizarro que tem a função de introduzir outras histórias, outras imaginações; de fato, quando desaparace, no seu lugar fica, sem falta, um filme de verdade, o que farei em seguida.

Talvez um sonho que tive há muito tempo se relacione com esse filme quimérico, ou melhor, com meu comportamento quanto a ele, feito de fascinação e desconfiança, e que sempre me deixa cheio de fervor e cético, me atrai e me repele. Exatamente os mesmos sentimentos contrastantes que tive com relação ao misterioso chinês que chegou de madrugada com um enorme avião cheio de passageiros.Eu era o diretor do aeroporto. Estava sentado atrás de minha mesa numa imensa sala deserta e via, pelas paredes de vidro, a pista iluminada, o céu estrelado e o grande avião havia pouco aterrissado. Como chefe do aeroporto, também dirigia o setor de imigração e concedia visto de entrada aos viajantes. Começo a fazê-lo quando um dos passageiros me deixa curioso e me atrai, sem que consiga fugir disso. Está sozino, destacado, envolto num quimono usado e pomposo que lhe confere um aspecto majestoso e maltrapilho. Não tem bagagens. Aproxima-se ligeiro e solene de minha mesa e pára na minha frente, as mãos escondidas nas amplas mangas, os olhos fechados. Olho seu rosto: pertence a um oriental aristocrático e miserável, os cabelos são oleosos, sujos, têm um cheiro ruim, de roupa mofada, de folhas encharcadas, de sujeira, mas a nobreza que emana de sua figura me fascina e perturba. Podia ser um rei, um santo, mas também podia ser um cigano, um vagabundo, indiferente ao desprezo dos outros por estar acostumado com a mortificação e a miséria. Um sentimento indefinível de ansiedade e inquietação me sobe a garganta, me deixa mudo, inseguro, faz meu coração bater mais forte. Sei que o estrangeiro espera uma decisão minha e não faz perguntas, não solicita nenhuma intervenção, não fala. A meu desconforto, à minha emoção crescente, opõe a silenciosa e inequìvoca realidade de sua chegada, de sua presença. A circunstância não diz respeito a ele, mas a mim; ele só devia chegar, e agora está aqui. Sou eu que devo decidir entre deixá-lo entrar ou não, em conceder-lhe ou negar-lhe o visto. O pressentimento de que a situação está nestes termos inevitáves, aumenta minha perturbação, meu mal-estar. Encontro-me a gaguejar desculpas hipócrita, mentiras infantis: digo que não sou o verdadeiro chefe do aeroporto, que não cabe a mim decidir, que dependo de outras pessoas mais importantes, mais competentes, elas sabem o que fazer, eu não, pois sou apenas um funcionário. Um sentimento de vergonha e de autocomiseração me obriga a abaixar a cabeça, não sei mais o que dizer, olho distraído a inscrição sobre a mesa que indica "diretor". Desce um grande silêncio, os passageiros, lá no fundo, são uma massa muda e indistinta. Não ouso levantar a cabeça. Parece-me que já se passara muito tempo, tempo demais, toda uma vida. Com trabalhosa lentidão construo no sonho o pensamento: do que terei mais medo ao levantar os olhos? De encontrá-lo ali, poeirento e cintilante, próximo e inatingível, ainda ali a me esperar, o misterioso estrangeiro vindo do Oriente, ou de não encontrá-lo mais?

[Federico Fellini]

sexta-feira, novembro 28, 2008

Leve, breve, suave

Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Nunca, nunca, em nada
Raie a madrugada,
Ou 'splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar.
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.

Postado por Fernando Pessoa em mil novecentos e lá vai bolinha.

Pedofilia

A menina no banco da praça

suores divinos saindo de mim
sons que não quero entrando assim
invadindo, fingindo, cheirando jasmim

Não sei
Não quero saber
– E tenho raiva de quem sabe!

sexta-feira, novembro 21, 2008

Puta

A vida é muito fácil quando a gente aprende

A ser puta

– De verdade!

sábado, novembro 15, 2008

Caos Calmo

Depois de um dia cheio de gente
Aguardo a chegada do último trem.
Estou sozinho na estação.

Tudo parece do mesmo jeito
O mundo como sempre foi
Cheiro de morte por todo lado.

Todo o meu hoje é passado
Quase meia-noite
As pessoas do futuro vêm no último trem
Taciturnas e cansadas
Esperando a hora de fechar os olhos.

A agitação do dia, parece, foi mentira!
Não houve palpitações no coração
As gargalhadas cessaram, juntamente com as alegrias
Até os mais exaltados, dedos em riste...
Parece, tudo história.

Agora, sozinho na estação, não consigo acreditar
Começo a recontar a própria vida
Enriqueço a solidão com personagens do antes
E já não estou sozinho:
Outros emergem do dia que vai...
E ficam, como eu, à espera do último trem
Companhias silenciosas do além de mim.

O trem passou.
Tudo história.
Parece mentira:
Era eu sozinho naquela estação?