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quarta-feira, dezembro 17, 2008

Quando o álcool desce queimando
Sei que o tomei
Por algo que não gostei
De outro modo, desce reto
Decente
E até gostoso.

Quando o álcool desce queimando
É porque meus filhos estão chorando
E as coisas não vão muito bem.

Quando o álcool desce beijando
É porque de alguma forma
Está nascendo um poema.
Descanso na tua beleza
Mulher imaginária
Sonhada
Sei lá o quê.

Basta a mim ver-te sumindo
Junto à música que toca
Meus olhos esfumaçados
Procuram teu corpo entre os demais
E o que se vê, e o que se ouve
São escrituras pendentes
De notas musicais
Infantis
Mudas
Sinoidais.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

"Fui mexendo o caldo
e minha garganta estava travada"
[Lygia Fagundes Telles]

Lembranças

Gosto das lembranças que seu cheiro e sua pele me trazem
Gosto de todas as lembranças...
Sobretudo dos dias em que olhávamos longas horas
É para elas que passo dias olhando longas horas,
quadro a quadro, detalhe por detalhe.
Para os horizontes sonoros do nosso amor
É para eles que direciono meus questionamentos.
Das pulsações incandescentes nos levando a loucuras
Em que espaço estão escondidas as pulsações incandescentes?
Dos olhos, dentes e bocas da morte a observar-nos mais de perto
Quem os olhos, dentes e bocas da morte observam mais de perto?
De quando os sonhos eram quase palpáveis
Quando os sonhos outra vez se tornarão quase palpáveis?
E os dias, quase incertos.
E os dias? Quando voltarão a serem quase incertos?
E a única certeza é esta que permanece.
E a única certeza é esta que permanece.
A despeito de qualquer ruído estranho de vento
Ou barulho feroz de chuva que não cai, mas é jogada contra a Terra.
Por mais que a chuva açoite minhas costas,
Por mais que os ventos me arrastem para longe.

"amortebeijoparasempre", de Wallace Fauth

SINOPSE:
Narrado em primeira pessoa, o romance trata de diversos aspectos da sociedade contemporânea, sobretudo no que diz respeito a esse estranhamento humano que estamos a viver em pleno séculoXXI: falta de amor, banalização da morte, individualismo. Com uma linguagem ágil e bem humorada, a psicologia sombria de Dimas, o narrador-personagem, vai surgindo aos poucos, levando o leitor a repensar as bases do amor, ao tocar em temas como machismo, violência sexual, necrofilia e idealização da mulher. amortebeijoparasempre é intrigante desde o título, em que amor, sensualidade, morte e eternidade são apresentados em uma unidade semântica, demonstrando, logo de início, os caminhos que serão percorridos nessa estranha história. Após a leitura deste livro, muitas questões permanecerão flutuando no espírito do leitor, tais como: osexo; a eternidade do amor; os relacionamentos muitas vezes já mortos, mas sem atestados de óbito; o masculino e o feminino levados às últimas conseqüências; os amores condicionais e incondicionais. Enfim, uma obra em que romance, eternidade e terror esbarram-se em uma linha limítrofe escrita com tanta verdade e sem receios que, por isso mesmo, torna-se de rara beleza.
Disponível em www.editorabarauna.com.br
comunidade: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=71001449
autor: http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=15546417076159219289
e-mail: wallacefauth@ibest.com.br

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Do Diário em Paris - III

Vim até ao fim da linha 9 do metrô, à Mairie de Montreuil, Montreuil, Montrerel ou Monsterol, Monasteriolum. Na igreja, onde foi batizado Carlos V; também se batiza no momento uma criança. O nome é Christian; e todo menino tem um destino real. O padre, paternal sobre hierático, em sobrepeliz e estola roxa, observa que os dentinhos dele estão apontando. O sacristão serve simples, ainda que ostente a simbólica corrente de prata – é f-fe-ta... fidelibus tuis... Ego te exorcizo... – rezam trechos da cerimônia. O garoto chora. Tocam os sinos. Fora, porém sob o relógio-de-sol, no alto de um contraforte da nave, lado sul, guarda-se esta inscrição, de há 326 anos.
VIVECELONLHEVREDELAMORT
E o dia se estende repensadamente.
[Guimarães Rosa]
"Nós todos viemos do inferno; alguns ainda estão quentes de lá"
[Guimarães Rosa]
Eu não preciso fumar
Para ver a fumacinha saindo de mim
Ainda estou quente do inferno!
Vôo sem sonhos
Olho de cima tudo
E não sei contar pra vocês
Tantas coisas que vejo
E finjo que não é nada.
Pubico, às vezes...
Me divulgo nessa vida
Tem outra?
Não me diga!
Choro
Porque é ruim
Tudo o que escrevo
Fingindo poesia.

Mas é assim que vai
sonhos, alegrias e tristezas
somatizados
na ponta do lápis.
As árvores dançam
Ao sabor do vento
Desde quando vento tem sabor?
Vento bate na cara
Vento leva a gente
Não dá pra saborear.

A gente dança, dança, dança
E fica no mesmo lugar
Às vezes quebra, requebra
Galhos à tona
Para o náufrago
Nos rios de lágrima ou sangue

Assim.

Freio

Freio minha luz
Temporariamente
Enxergo o nada
No entanto sou tudo.

Sonho e faço minhas coisas
Não tenho culpas
O que me sobra?
Silêncio e solidão.
E um galo que canta
Até o meio do dia
E a tarde toda torna-se poesia
Sempre silenciosa.

Ondas de surf me levam embora
O Sol, seco, diz muita coisa
Junto desse céu azul!
E os pássaros, inconstantes
Voam à esmo, sem sonhos
Sem nada
E cantam nas horas vagas
Que são todas as horas.

Complications

Make love
Sweet Baby
Reality
Soul

Choro e sinto muito
A falta
Que eu não sabia
O sonho
Que eu não vivia
A sombra
Que eu sou.

Sou sombra
De tudo aquilo
Que eu não sabia.

Desculpe, sou eterno.
Com ou sem você.

Complications.
O Crescimento dela é que me dói
Porque vê quem eu sou
E sente-se nada a ver

Nosso cruzamento na vida
Foi puro desespero:
Saíamos de nossas casas
paríamos um filho
E encontramos uma calma deitados
Mas não era isso que queríamos...
Era muito mais
E eu não sou muito mais.
A mãe dos meus filhos não gosta de mim

Além de todas as coisas
Não há livramento no horizonte

Isso a entristece

E eu, fedido, pobre e feio
Não penso em sair daqui
Por não ter onde parar

Quero o abraço dos meus filhos
Eles ainda me amam
Depois
Só solidão e cansaço.
Já ia esquecendo:
meu livro saiu.
Meu livro saiu.
Sabe o que isso significa?
Nada.
Uma tristeza muito grande
Apodera-se de mim.

Logo agora.

Morrer, nunca mais
Mas deixe-me chorar
E eu choro de verdade agora
como quem morre de manhã.

Meu filho prefere o nascer do sol
Acorda cedo e abre a janela
Pra ver o céu.

Já eu gosto quando o sol se põe
E penso em quanto meu filho evoluiu.