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domingo, julho 26, 2009

Olhos Verdes

Eu não enxergo tudo verde, apesar de ter os olhos verdes. Mas sei que transformo os olhares de quem me olha nos olhos, e esta é, atualmente, a única arma de que disponho.. O semblante silencioso, calmo e sério, e esse meu olhar que parece ser profundo só porque é colorido, encanta os incautos que não sabem enxergar além da superfície desse meu ser ignóbil. Minha docilidade advém pura e simplesmente das próprias consciências que veem palácios e princesas na aparente calma de um mar ou de um céu que nada trazem em si mesmos de verde ou de azul. Não há colorido nas transformações e, portanto, a vida não tem a cor dos meus olhos. Meu olhar profundo é pura ilusão.

quarta-feira, julho 15, 2009

Olinda

Daqui a pouco vou conhecer Olinda!

Minhas postagens no twitter

Ainda não aprendi muito bem pra que que serve esse tal twitter... Mas fico sabendo de notícias, porque sou seguidor do G1....

Abaixo estão minhas últimas postagens

  1. Aqui o ar condicionado não para desligado
  2. Daqui a pouco, conhecendo João Pessoa!
  3. Meu amigo Monteiro, meu amigo Resende, mais gente nova e tudo vai indo muito bem... Amanhã conhecerei João Pessoa!
  4. Queimado. Ardendo, pois o tempo nublado... Nada de protetor solar. O sol saiu e a conversa ia e vinha com as ondas e as cervejas...
  5. Daqui a pouco, voo para Recife! Chega de frio. Praia e céu de anil!
  6. Tá bom... O link exato é esse: http://bit.ly/13bMH1
  7. Falar nisso, Carla Bruni tá uma gracinha cantando “Anyone Else But You” em dueto com Julien Doré. Ouçam no blog http://www.oesquema.com.br/
  8. Segundo Heródoto, a cara de Sarkozy é de quem está pensando, sobre o olhar de Obama: "esse é o cara". rsrs
  9. Pensei que o Heródoto Barbeiro fosse colocar a foto do Obama olhando a bunda da moça. rsrs
  10. Preciso escrever, agora, um resumo de minha comunicação cujo tema será "A poesia fora da sala de aula". Vamos ver o que vai dar!
  11. Dor de cabeça por trás da superfície aparente e agora suando... Essa febre vai passar...
  12. Trabalhando muito com jornais... Não estou aguentando de tanto ler... E essa dor de cabeça fininha que não passa.
  13. Quatro dias sem escrever nada
  14. Acordando de madrugada. Dor de cabeça e uma gripe seca, ridícula, que não vai embora!
É isso!

segunda-feira, julho 06, 2009

Chuvas e perdas

Infelizmente peguei alguma chuva e sereno nas noites de Paraty. Dormia pouco. Vi um amanhecer na praia, lendo Bukowski. Depois, fui assistir à mesa de Alex Ross e juro que eu esperava mais. Também, um tanto ignorante em música clássica, não deu para aproveitar muita coisa. O fato é que depois do almoço eu estava com um insuportável sono e uma dor de cabeça fininha como a chuva que permancia na tarde de sábado... às 17h fui descansar, já um pouco febril e, de uma tacada só, perdi Gay Talese e Lobo Antunes. Tudo bem, não dá pra ganhar todas. Consegui, ao menos, ver uma apresentação de bonecos, chamado "Em concerto". (Aliás, nesse link, dá pra ver o vídeo de "valsa", pequeno trecho só para se ter uma idéia do poder daquele pessoal. Movimentos perfeitos). Valeu a pena, mesmo febril... Depois de uma noite de sono de suores, domingo foi dia de ir embora de um ambiente que tanto amo... Alguma poesia evoca em mim aquelas pedras tortuosas, aquele mar ali pertinho, um clima cultural transcendente... Quero voltar a Paraty de uma outra vez, quando não for época de Flip para ver se dinto a mesma coisa. Acho que a energia de todas aquelas pessoas em prol de um mesmo objetivo deixa aquele lugar mágico assim.
Apesar de chuvas e perdas, valeu muito a pena!

sábado, julho 04, 2009

MESA 10 - SEQUÊNCIAS BRASILEIRAS

No início percebi que há mais gente que acredita em Chico Buarque do que gente que não acredita em Deus. Estava um pouco mais cheio do que no dia de "Deus, um delírio". Começou lendo um trecho de "Leite Derramado" (capítulo 20, página 149). Escolheu estrategicamente um trecho em que incluía: "sexo", "negão", "edifício modernista", "polícia" e "violência urbana".

Milton Hatoum, quando começou a falar, foi deixando Chico Buarque um pouco menor. Ou um pouco maior, porque a fala literária de Hatoum junto à figura de Chico, representante de "Roda Viva", "Cálice", "Meu Guri", foi deixando as imagens mais bonitas e evocativas. Ao iniciar a leitura de seu livro "Órfãos do Eldorado", ficou explícita a diferença entre o que é literatura de verdade e uma literatura que parece não ter muito o que dizer, como a do Chico. "Na tarde úmida, um arco-íris parecia uma serpente abraçando o céu e a água." depois, na página 84: "...não falava da vida dele, há pessoas que morrem com seus segredos."
E mais:
"Dizia que o fim da tarde o inspirava e incomodava e que sentia nesse momento do dia um desejo absurdo de sofrer. Bebia duas garrafas de tinto e, antes de anoitecer, lia poemas de Cesário Verde e Manuel Bandeira. E embora meio bêbado, a voz rouca e grave dizendo: a vida passa... a vida passa... e a mocidade vai acabar."

"E também recitou um poeta francês, muito moderno, que tinha escrito poemas de amor quando combatera na primeira guerra. Os versos insuflaram ainda mais o desejo da minha amada. Quando Estiliano terminou de ler, eu disse, quase sem voz: 'isso é uma tortura'.
- É a nossa vida quando não dá certo - ele corrigiu - mas só os poetas sabem dizer."

"Ele pôs os livros na pasta de couro, levantou e disse que eu devia entender uma coisa: as paixões são misteriosas como a natureza; quando alguém morre ou desaparece, a palavra escrita é o único alento. Eu ia mandar Estiliano ao diabo! Ele, a palavra escrita e toda a poesia do mundo, mas o homem já estava na rua de terra e eu lambia lágrimas."

Simplesmente não dá para comparar as duas literaturas. Milton Hatoum é uma poesia bela. Chico Buarque... Era só o Chico Buarque.

Segundo Hatoum, foi um livro por encomenda, mas era uma história que ele já tinha ouvido falar e guardou na memória, enfim, foi uma espécie de encomenda anunciada, pois era uma história que escreveria de qualquer forma. Começou por um caminho e, quando se deu conta, tinha ultrapassado a encomenda. Deveria escrever até 25 mil palavras e já tinha passado. Teve que mudar tudo. "Essa coisa de encomenda é horrível! Nunca mais! Nunca mais faço nada por encomenda. Nem um bilhete por encomenda!". "A novela, para mim, foi um exercício de concisão".

Chico limitou-se a dizer que um livro não emenda no outro, pois quando acaba de escrever um livro, não quer mais saber de literatura. Depois de Budapeste, ficou se perguntando sobre o porquê de ter escrito sobre uma cidade que não conhecia, na qual nunca esteve. Resolveu, então, escrever sobre um tempo em que não viveu. E ficou por aí. Só nisso. Além, é claro, das obviedades sobre seu personagem velho, cuja memória recente é sobrepujada pelas memórias remotas. Sobre literatura e música popular, disse que não acredita muito nessa hierarquia. "Sinceramente, não sei se Guimarães Rosa é mais importante do que João Gilberto". Ora, sr. Francisco... Não se pode comparar frutas com automóveis... Não há hierarquia entre música e literatura. Se for assim, o terceiro lugar ficaria para a pintura, o quarto para a escultura e por aí vai?!

Tudo bem, foi bastante interessante a citação de Guimarães Rosa, ao citar o abandono do romance "A Fazedora de Velas". Romance nunca publicado sobre um velho em um casarão em Minas Gerais. Aí Guimarães foi tomado pela tristeza daquele personagem e largou o livro. Mais tarde, disse ter encontrado o casarão com o mesmo quarto que ele tinha imaginado. Chico disse sentir necessidade de sair da sombra desse velho, que até já o deixara com a perna quebrada.

Outra coisa interessante: dizer que tudo sobre o Hatoum e sobre ele mesmo já estava no Google.

Hatoum, por sua vez, disse que o romancista é um biógrafo de espectros.

Por fim, para manter sua propaganda de homem de esquerda, que pensa nas classes mais desprotegidas, não pôde, o Chico, de deixar de fazer referência ao protesto dos caiçaras que acontecera poucas horas antes do seu debate.

Bem, Leite Derramado eu já li. Agora, vou ler "Órfãos do Eldorado" e tenho certeza de que vou gostar muito mais. Não adianta também, chorar o leite derramado.

sexta-feira, julho 03, 2009

MESA 8 – SENTIDOS DA TRANSGRESSÃO

Edna O'Brien
Em conversa com Liz Calder.

(trechos da fala de Edna)

"O beijo de uma prostituta é a hóstia de toda uma população"

"O marido chega em casa e vê a mulher quase caindo da escada para pintar o teto. Ela explica: sei que você gosta de um teto, tanto que até falou de um pintor que fez isso em uma igreja, acho que na Capela Cistina."

ESSA É A MELHOR:
[a respeito dos filhos. Um dos filhos falou para a mãe]:
"Me dói a forma como você foge de nós. Sempre correndo... Sempre correndo... Será que somos leprosos?!"

"Escrevo como um sonâmbulo – não imagino que alguém vá ler."

"O Dawkins não está aqui. Diferentemente dele, eu acredito em Deus e na ressurreição."

"Cheguei a comprar uma máquina de costura para agradar ao homem com quem eu estava casada"

"Para escrever é preciso ter uma capacidade secreta de desafiar a tudo e a todos"

"eu tenho uma vida de freira"

"A paisagem na qual cresci era uma paisagem assombrada"

"Escrever é uma linguagem que brilha e tem alguma profundidade."

"A dissecação não é o que nos faz amar alguma coisa"

"A reportagem, hoje em dia, está bem melhor que a literatura"

"será que a literatura tem que ter essa monstruosidade?"

Agora LIZ CALDER:
"Meu marido saiu do quarto, depois de um dia inteiro trancado lá dentro e eu achei que ele ia morrer de tão pálido que estava. Saiu, desceu as escadas e estava pálido. Não sei se esse tipo de coisa acontece com outros escritores..."

Qual o papel da paixão na sua literatura?

O'BRIEN: Amor é saudade. Paixão é perseverança.

"você tem que ter cuidado comigo, porque sou um pouco louca."

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Tirem suas próprias conclusões.

MESA 5 – DEUS, UM DELÍRIO

Richard Dawkins em conversa com
Sirio Boccanera

SIRIO: Há muitos ateus escondidos por aí?
DAWKINS: Há muitos ateus no 'armário'. Em Oklahoma, por exemplo, cidade reconhecidamente evangélica nos EUA, três mil pessoas vieram assistir minha palestra sobre o assunto. Tenho visto, pelo mundo inteiro, a participação de um público enorme. É claro que tive resistências. Um políticvo de Oklahoma, por exemplo, tentou proibir minha palestra e banir a faculdade que tinha me convidado. "Deus, um delírio" é até um livro engraçado e eu espero que as pessoas entendam isso.
SIRIO: E o conforto da Fé? Pessoas que acham conforto na religião?
DAWKINS: Não é porque se está em uma situação confortável que a coisa seja verdadeira.
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Se alguém for ficar chateado ao ler meu livro, ora, não leia.

[Sobre a situação confortável] Há pessoas que não querem saber do médico que têm uma doença fatal.

SIRIO: E as artes que sugiram da religião, como, por exemplo, a pintura de Michelangelo na Capela Cistina?

DAWKINS: Essas artes são importantes, até para entender a evolução da humanidade. Mas o fim das religiões não causaria nenhum problema, seria como os deuses gregos: ninguém, hoje em dia, acredita neles, mas continuamos a estudá-los. Sem religião, a arte vai continuar existindo, sem dúvida, pois a arte vai onde está o dinheiro, essa é a verdade. Os pintores recebiam, e bem, para fazer suas pinturas nas igrejas.

SIRIO: Pensando na vida após a morte, qual o sentido da vida?

DAWKINS: A propagação do DNA..
Claro, cada um de nós vai procurar seus próprios objetivos: ser um bom médico, escrever um livro. Afinal, esta é a única vida que a gente vai ter na vida! Vamos aproveitá-la. Não desperdice esta oportunidade em prol de "outra vida".

Acredita-se na vida após a morte – a cenoura do paraíso. Ou então a luta é para não ser queimado no inferno. E esse é o motivo mais idiota para ser moral. Tenho um amigo que, com muita espirituosidade disse certa vez:
– Você acha que Moisés, quando desceu do monte com as tábuas dos dez testamentos e leram aquele que diz "não matarás", alguém falou: "oh! Eu não tinha pensado nisso!"

Alguém, em um programa de rádio, certa vez, disse que sem Deus as pessoas sairiam matando umas às outras... Quer dizer que você só é uma pessoa correta por medo do inferno?

REVELAÇÃO, TRADIÇÃO e AUTORIDADE são os piores motivos para se acreditar em alguma coisa. Deve-se acreditar em EVIDÊNCIAS. E foi isso que disse em carta aberta à minha filha. Acho que toda criança com dez anos deveria ler essa carta. O que quero dizer é que não tenho a intenção de deixar ninguém ateu. O que eu tenho certeza é de que não existe "criança católica", mas "criança cujos pais são católicos". (aplausos da plateia)

Darwin acertou em quase tudo, menos no que diz respeito à genética. Errou tudo em genética. Ele acreditava que as pessoas se misturavam como se misturam tintas.

Naquela época vitoriana, de Freud inclusive, as pessoas eram muito preconceituosas com relação à raça e ao sexo.

Apenas na Nova Zelândia e em alguns estados da Austrália, por exemplo, a mulher adquiriu o direito ao voto ainda no século XIX. Percebe-se um racismo atroz nos romances policiais de Agatha Christie como se aquilo fosse normal. [lembrei-me de 'o caso dos dez negrinhos']

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Quando escrevi "O gene egoísta" fui mal interpretado. As pessoas costumam criticar os livros porque ouviram falar, sem ler. Quem se der ao trabalho de ler, vai perceber que o título poderia ser "O gene altruísta". O que afirmo, no livro, é que chegamos em um estágio tão alto de consciência e inteligência, que somos capazes de contruir um mundo melhor para nós mesmos. Esse é o gene egoísta. Não quer dizer, como tentam falar sobre mim, que eu sou Darwinista e como seres mais fortes (inteligentemente) devemos exterminar os mais fracos. Defendo exatamente a ideia contrária.

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Perguntaram a mim: "e se um dia, quando você morrer, der de cara com Deus? O que vai dizer?"

Ora, direi, QUE DEUS VOCÊ É? Thor? [e citou mais de uma dezena de tipos de Deus]. Depois eu concluiria: "NÃO HÁ EVIDÊNCIAS SUFICIENTES PARA DIZER QUE VOCÊ É DEUS".

MESA 3 - VERDADES INVENTADAS

Arnaldo Bloch
Tatiana Salem Levy
Sérgio Rodrigues
MEDIAÇÃO: Beatriz Resende

SÉRGIO: [interessante a descrição dele sobre a Batalha da Praça da Sé, sobretudo a 'velha' quando dialogava com o personagem Xerxes e ele ia fugindo dos estrondos dos tiros...
– Tenha coragem... Diz a velha.
– É que eu tenho que ir ao banheiro – mente Xerxes
– Já sei – diz ela – Está se cagando...

Achei ótima essa conversa com um "revolucionário".

MEDIADORA: Falem do processo criativo.

ARNALDO: escrevi o livro entre 2001 e 2007. Mas meu processo começou antes... [e narrou histórias de infância].

TATIANA: [com bastante tensão na voz] A escrita, para mim, tem sangue. Como disse Nietzsche: "precisamos transformar história em sangue misturando nosso sangue com os dos antepassados..."

SÉRGIO: A diferença entre mim, Tatiana e Arnaldo é que eles trabalham com material familiar. Ao contrário de mim, pois não sou parente de ELZA, muito menos de PRESTES, etc. Escrevi esse livro por encomenda e em menos de um ano. Houve muita pesquisa e tive até uma auxiliar. Parei tudo para escrever o livro.
Acredito que a ficção tem muito mais verdade que a realidade.
Aliás, a realidade não existe. Isso é uma notícia importante de se dar aqui.
As pessoas tendem a confundir ficção com mentira.
O inseto de Kafka, por exemplo, não é mentira, mas uma realidade monstruosa. (aplausos)

MEDIADORA: sobre a coragem de desnudar-se nos livros.

ARNALDO: Depois da notícia de que a realidade não existe, informo que "Biografias Definitivas" não existem. Nenhuma biografia pode ser definitiva. No meu livro, optei por dar voz às subjetividades...

TATIANA: Tive coragem não por expor minha vida erótica, por exemplo, porque não é isso que vocês vão encontrar no livro [em resposta à referência feita pela mediadora]. Mas coragem de expor o que vai muito dentro de mim, de colocar meu sangue ali.

SÉRGIO: O maior risco, para mim, era enfrentar problemas políticos, pois ressuscitar uma história que sempre deixou de ser contada pela esquerda por motivos óbvios e que não foi contada pela direita por incompetência, colocava-me em situação crítica. O maior risco era conseguir que o texto não caísse em reducionismo ideológico de nenhuma das partes. A busca por essas nuances cinzentas entre o preto e o branco, entre o certo e o errado, essa foi a maior dificuldade. Mas o livro foi bem sucedido. Quem for ler com os olhos livres vai perceber que não há intenção de defender ponto de vista algum.

MEDIADORA: Perguntas da plateia. 1) Quais os elementos que levam uma obra a ser verossímil, empática e emocionante ao mesmo tempo?

"não sei" "não há fórmulas"

Nessa resposta, ficaram evidentes as palavras "verossímil", "empática" e "emocionante" e os escritores brincaram o tempo todo com isso.

MEDIADORA: Ao voltar ao passado, do que vocês precisaram se livrar?

TATIANA [reagindo na hora, sem tempo de pensamento]: Da chave. (risos da plateia).

"Passar o peso do ombro para o ventre".

ARNALDO: Se a Tatiana tentava se livrar da Chave, eu tentava me livrar do útero.

SÉRGIO: Olha, eu não tava tentando me livrar de nada. Até mesmo pelas características do livro. Talvez eu tentasse me livrar de um fardo. Criar uma consciência de coletividade, criar ou destruir mitos, o que talvez ajude o Brasil a sair dessa, mas sou muito cético com relação à capacidade da literatura de mudar alguma coisa. Ainda mais em um país como o nosso, com tão pouca leitura.

MESA 2 - SEPARAÇÕES

Rodrigo Lacerda
Domingos de Oliveira
MEDIAÇÃO: Paulo Roberto Pires

Domingos : Períodos de separação são altamente produtivos. Eu tenho 5 casamentos e 5 separações. E sempre a gente sofre muito.
Na primeira, desarticulei-me inteiro. Andava nas ruas e parecia que os prédios cairiam em cima de mim. Sofri muito. DESARTICULEI.
Na segunda separação. Sofri muito.
Na terceira separação. Sofri muito.
Na quarta separação. Sofri muito.
[estou resumindo, é lógico]
Na quinta... Se na primeira, eu me desarticulei, nessa eu DESAGREGUEI.
Foram malditas mas necessárias passagens.
Todos nós, amando e desamando, somos carneirinhos indo para o abate.

Sobre separação, há três indagações:
1) Por que o amor acaba? [e ele discorreu sobre o assunto por uns minutos]
2) Por que dói tanto quando o amor acaba? (por que, afinal, nos dilaceramos? E o que dói? Dói pelo que poderia ser e que não foi, dói pelo que fantasiamos. Os amantes sofrem como cães danados. Quando se ama, perde-se a liberdade, não tem jeito. Mas ter a liberdade, ficando sozinho, dói muito. Dostoiewski: 'não há nada que eu deseje mais que a liberdade, mas não há nada mais que doa tanto'.
3) Esxistirá mesmo um grande homem só?
Achei a conclusão do meu filme 'Separações' quando percebi a semelhança entre homens apaixonados e doentes terminais. Os 'micos' que a pessoa paga para ter seu amor...

RODRIGO LACERDA: No livro 'Outra Vida' mostro as situações corriqueiras, banais... Extrair significados mais profundos do cotidiano, é o que eu faço. Quem não consegue fazer isso é prisioneiro da própria mediocridade.

DOMINGOS: Não há banalidade no mundo. Nenhum acontecimento é banal; a questão é você enxergar mais de perto ou mais de longe.
Não é preciso conhecer a vida para conhecer a arte, mas é preciso conhecer a arte para conhecer a vida.
Tenho tantas coisas para contar que acredito que sejam úteis para as pessoas se eu contar.
Quando escrevo, tento não estar ali, mas mais próximo do incosciente. Depois, na hora de reorganizar é terrível!
Acho tudo uma merda. É uma grande dor. Mas, como a dor, acontece o mesmo: se não mata, passa.
Depois de um tempo, você vira meio 'cavalo' dos personagens: eles começam a escrever por você. Você vira uma espécie de 'cavalo' do inconsciente coletivo.
Acredito que exista uma TERRA DAS PEÇAS PRONTAS, ou TERRA DAS OBRAS DE ARTE PRONTAS. Chega um momento em que a gente já recebe tudo pronto. Quando a gente atinge esse estágio, é porque será uma boa obra.

RODRIGO: Os personagens não se rebelam contra mim. Nunca gostei dessa história, pois se quisessem tomar minha vez, eu diria: pegue essa lista e vá às compras. Depois de um tempo entendi o que os escritores diziam. não é que os personagens dominam, mas vão criando personalidade...

MEDIADOR: a identidade com os personagens.

DOMINGOS: Sobre um roteiro de filme policial que estou fazendo, certa vwez pensei em abandonar porque eu não conseguia sair de onde estava. Liguei para um amigo e contei o problema, dizendo: Não posso escrever sobre essa gente, nunca senti essas coisas, não consigo. Recebi a seguinte resposta tranqüila demais para mim: "Domingos, eles são iguaizinhos a nós". Aí eu entendi e consegui continuar.

RODRIGO: Em "outra vida" eu queria escrever sobre personagens totalmente diferentes de mim.

MEDIADOR: Domingos disse, com outras palavras, que toda arte é uma espécie de autoajuda. Explique isso melhor.

DOMINGOS: Eu sempre quis escrever um livro de autoajuda. Um LIVRO IMORTAL DE AUTOAJUDA. Você chega nas livrarias e nas prateleiras principais só há autoajuda. Principalmente nos aeroportos. (risos na platéia)

[Continua daqui a pouco: agora tem Chico Buarque.]

Continuando...

DOMINGOS: Sou a favor da VIDA! Mesmo quando estou deprimido, com vontade de morrer (o que acontece duas ou três vezes por semana, por sou normal), já tenho minha convicta posição.
"Sobre a questão da vida. não é para discutir, é para decorar"

MEDIADOR: sobre o universalismo. Partir do particular para o geral...

DOMINGOS: Isso é uma discussão ultrapassada! Tchecov já disse: quanto mais particular, masi geral. Todo mundo já sabe disso. É como discutir a existência de Deus. Não cabe mais. Pouco importa se Deus existe.

[depois de um tempo, Domingos pergunta]:

"não vamos passar pras perguntas não?"

[Outro momento interessantíssimo foi quando ele pegou o microfone errado e virou a mão para que ficasse certo. Muita gente riu. Ele ficou falando com a mão virada, mas o discurso era tão consistente que um minuto depois ninguém mais lembrava que ele estava segurando o microfone de maneira torta.]

DOMINGOS: Eu sempre que posso, falo pros artistas sobre o segredo da produtividade: é só acabar tudo o que começa. Só se vai saber se é uma merda ou não depois de pronto, que é quando você mostra pros outros.
[sobre a realidade e não-realidade]: A diferença entre estar mais perto da realidade é o grau sde fantasia que se quer viver. Eu escolho o mais alto.

PARATY FLIP mesa 1

Não entendo o porquê de atravessar um rio para comprar ingresso. Bilheteria com poucos caixas (quatro) e as pessoas que chegam em grupo, ali, na hora, começam uma reunião para decidir o que vão ver, os melhores horários, etc... Não fazem uma previsão? Eu cheguei no caixa de disse: quero as mesas: tal, tal e tal... Demorei menos de cinco minutos. As pessoas decidiam na hora. Qual é o interesse desse povo na FLIP?

MESA 1: NOVOS TRAÇOS
Rafael Coutinho
Fábio Moon e Gabriel Bá
Rafael Grampá
MEDIAÇÃO: Joca Reiners Terron.

Não me interesso por história em quadrinhos, normalmente... Mas obtive coisas interessantes da discussão.

RAFAEL GRAMPÁ: Não me atraio por histórias urbanas, de pessoas ou mesmo autobiográficas. Crio uma realidade própria. [disse isso em resposta a uma pergunta sobre escrever sempre histórias em que se degolam pessoas]. Gosto de criar uma realidade própria porque o papel aceita tudo...
MEDIADOR: Em quanto tempo se desenha uma página?
RESPOSTAS DIVERSAS: "meia por dia"... "se eu fizer uma por dia estou satisfeito"... "uma a cada três dias e já fico feliz"... Rafael Coutinho, sempre com muita propriedade, falou da relatividade dos desenhistas, pois essa variação de tema depende, também e muito, do material utilizado.
MEDIADOR: O que acham da crescente utilização dos quadrinhos para o cinema?
"dinheiro"
"O cinema precisa de material sempre, daí a utilização de romances para o cinema... Os quadrinhos são, em princípio, pré-testados visualmente"
"Sem contar o aproveitamento em canecas, lapiseiras, lancheira das crianças..."
"O autor de Calvin e Haroldo não permitiu o licenciamento de seus desenhos para canecas e coisas afins porque não queria que seus desenhos fossem desculpas para produzir coisas".

[(sobre deixar de produzir o Calvin) "Esta não é uma decisão nem fácil nem recente, e eu saio com uma certa tristeza. Porém meus interesses mudaram de direção, e eu pretendo trabalhar agora em um projeto com menos compromissos artísticos. Eu ainda não decidi sobre futuros projetos, mas minhas relações com a UPS (Universal Press Sindicate) vão continuar."

Na Wikipédia: O autor ainda lutou contra a pressão de editores para comercializar seu trabalho, algo que ele achava que iria "diminuir" sua tira.[8] Ele recusava-se a comercializar suas criações, dizendo que colar imagens de Calvin e Hobbes em canecas, adesivos e camisetas à venda desvalorizaria os personagens e suas personalidades.[9] Ele também recusou-se a permitir que fosse feita uma versão em desenho animado da tira. Watterson costumava criticar a decisão de Jim Davis de licenciar sua tira Garfield em tantos produtos, dizendo que isso "diminuiria" a tira [carece de fontes?].]

MEDIADOR: sobre a crescente adaptação de obras da Literatura Brasileira para os quadrinhos e das bancas para as livrarias.

"Por conta da durabilidade das obras. Nas bancas, a coisa acabava logo. Na livraria, além de chamar a atenção para a obra literária adaptada, pode ser usado nas escolas"

MEDIADOR: Seria possível fazer um romance como o de Spielgeman, em que ele desenha ratos como judeus e gatos como nazistas, sem os desenhos?

[Maus: A Survivor's Tale é um romance gráfico produzido pelo estadunidense Art Spiegelman que narra a luta de seu pai, um judeu polonês, para sobreviver ao Holocausto. O livro também fala do relacionamento complicado do autor com seu pai e de como os efeitos da guerra repercutiram através das gerações de sua família. Em 1992 Spiegelman foi agraciado com um "Prêmio Especial Pulitzer": tal categoria foi proposta pois o comitê de premiação não se decidiu se categorizava Maus como uma obra de ficção ou biografia.

Spiegelman retrata diferentes grupos étnicos através de várias espécies de animais: Os judeus são os ratos (em alemão: maus), os alemães, gatos, os franceses, sapos, os poloneses, porcos, os americanos, cachorros, os suecos, renas, os ciganos, traças, os ingleses, peixes, os brasileiros, papagaios, . O uso de antropomorfismo, uma técnica familiar em desenhos animados e em tiras de quadrinhos, foi uma tirada irônica em relação às imagens propagandistas do nazismo, que mostravam os judeus como ratos e os poloneses como porcos. A publicação na Polônia teve de ser adiada devido a este elemento artístico.

Grande parte do livro foi publicado em série na revista RAW, editada por Spiegelman. Foi então publicado em duas partes, antes de finalmente ser integrado em um só volume. Um CD-ROM com a história também existe, embora tenha saído de circulação.

O livro trata do anti-semitismo. O termo usado pela primeira vez por Wilhelm Marr, designa uma aversão irracional, um ódio gratuito e sem a menor razão pelo povo judeu. Se pararmos para analisar a origem semnantica da palavra, o termo está incorreto pois semitas não são somente os judeus, mas também os árabes. Esse ódio pelos judeus vem de longa data. Os gregos, romanos e babilônios queriam proibir as crenças religiosas do judeu. A Igreja Católica perseguiu os judeus na época das cruzadas. Já no século XX foi a vez da Alemanha nazista perseguir os judeus - exterminando milhões deles.]

FONTE: WIKIPEDIA



"O problema seria ter que, a todo instante, descrever quem eram os ratos e quem eram os ratos, para que o leitor ficasse se lembrando. Isso não acontece nos quadrinhos, já que antes da leitura, os animais estão ali representados."


MEDIADOR: obre a proibição de quadrinhos nas escolas... Qual o tipo de preconceito?

"O problema é que as pessoas ficam com a "Turma da Mônica na cabeça e acham, sempre, que quadrinho é pra criança – sempre. [daí o mau resultado nas escolhas]."

"Há também o humor de protesto da década de 70 e o humor sujo da década de 80 (em revistas como Chiclete com Banana)"


Portanto, os quadrinhos sempre têm todos esses preconceitos: ou são infantis, ou são sujos.