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sábado, agosto 08, 2009

pensando barato

Juro que eu não queria ver apenas três leitores dos cinco que aparecem que compraram o livro pela internet. Esperava uns dez, pelo menos, porque foi tanta propaganda, foi tanta coisa, foram tão grandes os comentários positivos. O amigo que disse poder virar um filme e minha idéia de, junto com ele, escrever um roteiro. Tudo isso para, como resultado, um nada! Ninguém lê, ninguém se interessa. A vida é muito maior do que um livro. Ainda mais um mísero livro. Ridículo, mal escrito para os padrões atuais. Não queria ser nenhum best seller, mas três?!

É muito pouco para tanta coisa que fiz e passei. Dizem, para me acalmar, que cinquenta pessoas têm meu livro, por conta do lançamento. O que mais eu quereria? Que as pessoas lessem meu prospecto e comprassem o livro? O problema não é o ato da compra, mas o ato da leitura. Dos cinquenta que sei que têm o livro, uns três ou quatro o leram. Gastei dinheiro e tempo. Posso gastar mais e doar exemplares para ser lido. Penso seriamente em fazer isso. Os livros deveriam ser gratuitos como um pôr de sol. Tão lindo, tão mágico, e está aí para todos. Tudo bem que existem as bibliotecas, mas as pessoas devem se dirigir para lá. E a verdade é que ninguém se dirige. Qualquer vagabundo tem o direito a um pôr de sol sem precisar nem mesmo levantar-se de sua calçada. Eu queria que minha obra fosse assim. O problema do escritor é justamente este: ser um nada e ter consciência disso. Autoconhecimento. Eu comigo mesmo, dentro de mim, surfando nas minhas coisas e sendo cobrado por isso. “Por favor, não fique dentro de você mesmo num dia de aniversário, seja quadradinho como todos esperam das pessoas em dias como esse. Não beba, não fume cachimbo, não se tranque.”

Toda a natureza me atinge agora. A natureza humana é a pior de todas e traz esse calor impressionante que faz meu sangue circular numa pressão diabólica. Não tomo mais remédio a mais de um mês! Estourem, veias! Foda-se. Eu quieto aqui. Parado. E as veias estourando de tanta pressão. O sangue grosso, pedindo aspirinas prevents, e eu resistindo dentro de mim mesmo, explodindo em literatura, mas não é suficiente. Tenho que ser um quadrado socialmente ativo. Mas eu não sou isso. Minha gravata, joguei pela janela do automóvel, sujando o local carroçável, numa demonstração horrível de que não sou flor que serve para se cheirar de perto. Causo alergias. Cheirem-me de longe. Mas não deixem de cheirar-me: tenho o aroma da vida inteira, das podridões às mais altas esferas que um odor pode ter. Sou um daqueles lugares onde os podres odores transformam-se em deliciosos aromas. Um perfumista saberia reconhecer-me. Um estrume pode ser ótimo perfume francês. Eu sou esse estrume.

Passo minhas horas livres escrevendo as merdas que penso e lendo as merdas dos outros. É muito fácil, depois de ler, dizer que é merda. Por que leu até o final? Porque gostou? Obrigado. Afinal, quero ser lido, apesar de ser tão desagradável. Penso até em distribuir gratuitamente minhas obras. Não ganhar nada não me faz mal. O problema é pagar para ser lido. Meu salário em distribuição dos meus livros ruins, tendo tanta gente passando fome. Poderia distribuir meu dinheiro melhor, mas fico nessa coisa esquisita que sou, atrapalhando o bom andamento do mundo. Várias vezes sou punido por minhas incompetências e digo que não me importo. Digo, só. Mas é claro que me importo! Eu queria, por exemplo, ganhar a Corrida da Integração, em Campinas. Meu filho, vendo a medalha de participação, perguntou: “papai, você ganhou?” E eu, meio envergonhado, disse que não e expliquei que o bom é a corrida, a saúde, etc. Ele não ouviu. Perguntou: “em que colocação você chegou?”. Sei lá, eu disse, talvez em cento e vinte, ou cento e oitenta. Ele riu e saiu correndo, depois de apalpar minha barriga.

Como o que tenho vontade, bebo o que tenho vontade e vou vivendo nesse mundo. Preciso me privar de várias coisas, comer insípidas refeições para manter um corpo no padrão que querem para mim. Para quê? A Gisele Bundchen pode querer dar para mim se eu ficar muito bonito, mas eu não vou querer comê-la simplesmente porque não quero conhecer sua família no Rio Grande do Sul nem passar um natal terrível com aquela família loura e se achando o máximo porque tem uma filha internacional. Eu quero ficar aqui. Quieto. Parado. Lendo. Escrevendo. Sendo eu mesmo. Mas também não posso, porque a Gisele aqui de casa quer que eu tenha atitudes quadradas e pseudonormais, mas eu não consigo programar-me para amanhã. Obedeço regras no meu trabalho porque tenho que ganhar o pão, mas em casa eu faço um quadro com horário pras coisas para ver se eu consigo produzir o mínimo. Mas vem visita, vem gente estranha e eu tenho que fazer papel de gente. Gente que não sou. Li, hoje, um trecho do livro “pergunte ao pó” que me fez chorar. E eu chorei. Não posso chorar lendo nem escrevendo. Dizem que entro em “alfa” e não gostam quando estou assim. Respondo que estou feliz quando estou assim, porque em “alfa” eu sou eu. Produzo minhas merdas, penso minhas coisas e até bato minhas punhetas. Mulheres desconhecidas chupam meu pau e não vão querer cobrar nada por isso: posso ir ao vaso sanitário mijar e jogar o guardanapo com minha porra para o éter. Esse é meu “alfa”. Não preciso de ninguém nessas horas. E, quando preciso, é uma merda. “Tá vendo?” “Não dá pra viver sem depender de ninguém”. Deixem-me morrer, então. Eu não quero morrer, mas se nas horas em que preciso do prato no qual cuspo não querem pôr a comida, que me deixem morrer de fome. Quem sabe eu aprendo? Pra quem acredita em outra vida, eu voltarei cego e perneta, pensando barato, e cuspindo ainda no mesmo prato que como. Adoro meu próprio cuspe. Na próxima vida virei vomitando! Recomer pedacinhos de queijo.