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sexta-feira, dezembro 31, 2010

Edward Albee

Interessantíssima a entrevista na Folha de S. Paulo de ontem (30.dez.10) com o dramaturgo americano Edward Albee, autor de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (2000).

Trechos interessantes:
Folha - A morte é uma presença marcante e até assume forma humana em peças de sua autoria, como "Três Mulheres Altas" e "A Senhora de Dubuque". Por que o senhor acredita que ela seja um mote tão forte para o teatro? Edward Albee - Só há duas coisas que realmente importam. Os dois grandes eventos na vida de qualquer pessoa são seu nascimento e sua morte. E então você escreve sobre esse parêntese, sobre tudo o que acontece nesse intervalo. Você não pode escrever sobre seu nascimento porque não se lembra dele.
Mas pode escrever sobre a morte, porque obviamente não tem memórias dela, mas espera por isso. Há vários tipos de morte. Muitas das minhas peças são sobre pessoas que estão vivas, mas morreram emocional e intelectualmente muito tempo atrás. Você pode estar morto no íntimo e ainda vivo.

 (algo semelhante acontece em 'amortebeijoparasempre', meu romance)


Mais frases no decorrer da entrevista:
As notícias que nos chegam sobre a cena americana incluem a estreia de uma adaptação musical de "Homem-Aranha" orçada em US$ 65 milhões (R$ 109,8 mi) e um número crescente de estrelas hollywoodianas buscando na Broadway legitimação. Que margem esse quadro deixa para provocação e tomada de riscos?
A maioria das pessoas quer um entretenimento seguro e amigável. Não desejam que seja um ato de agressão. E quase toda arte, em seu melhor, é um ato de agressão contra o status quo. Ou seja: está ali para levantar questões, não para fornecer respostas fáceis, simples.
Mas se você faz perguntas difíceis, irrita muita gente. Essa é a função da arte, entretanto. Se ela não lhe saca do conforto, não é arte. O problema é que boa parte das pessoas tem preguiça intelectual.

Como o sr. vê o jogo de forças entre o teatro que chama de comercial e o de vocação mais experimental, hoje, nos Estados Unidos?
Grande parte das obras que são produzidas com um olhar no lucro que voltará para o investidor tende a ser uma perda de tempo. Por outro lado, grande parte dos trabalhos feitos só de amor ao teatro, ainda que não seja rentável, costuma ter mais valor. Esses são feitos em teatros pequenos, não comerciais, geralmente com temporadas mais curtas do que a porcaria comercial.

E por que isso acontece?
Porque as pessoas não querem ser incomodadas quando vão ao teatro. Anseiam por ter seus valores reafirmados -se é que se chega a discutir valores em cena. Não esperam vê-los questionados. Não estão ali para ser perturbadas. Querem perder tempo e estão dispostas a gastar muito dinheiro para isso.


O sr. é, então, pessimista em relação ao futuro do teatro?
O único problema da democracia é que você tem o que quer, em vez daquilo que você deveria querer. Numa democracia, se você é bem educado, pode tentar alcançar aquilo que deveria querer. Mas tem de ser instruído para fazer a democracia funcionar e para querer um teatro que faça algo útil.
Quando eu ia à escola, tinha uma classe de formação cívica, em que aprendia como o governo trabalhava e o que significava um ato político. Não se ensina mais isso na América. Também tive aulas de música, literatura e artes visuais. Hoje, elas não são consideradas importantes. As preferências das plateias são ditadas pelo pouco que aprendem. Se o cardápio ensinado fosse mais amplo, a gama de interesses seria mais diversificada.

E a entrevista é encerrada assim:

Toda arte é reinvenção, não repetição. Arte ruim é repetição. É simples assim.

RAIO-X
EDWARD ALBEE

VIDA
Nasceu em 12 de março de 1928, em Washington D.C., Estados Unidos

OBRA
Escreveu mais de 30 peças, dentre as quais "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf", em 1962 e "A Cabra Ou Quem é Sylvia?", em 2002

PRÊMIOS
Ganhou três vezes o Tony Awards (por "Quem Tem Medo...", "A Cabra..." e pelo conjunto da obra), e três vezes o Pulitzer (por "Seascape", "Um Equilíbrio Delicado" e "Três Mulheres Altas")


FONTE: Folha de S. Paulo de 30 de dezembro de 2010.

Violoncelo e harpa

Há muitos anos houve uma espécie de moda com um tipo de música chamada "new age". Muitos discos foram vendidos como música para meditar, etc. Eu não perdia um programa de rádio apresentado por Mirna Grish (acho que era esse o nome). Eis que ela apresentou a música abaixo da qual nunca mais esqueci. De repente, na madrugada, trabalhando aqui e ouvindo a rádio KDFC pela internet, a música aparece. Vejo logo o nome e procuro no youtube. Não foi nenhuma das duas versões abaixo que eu ouvi, mas também estão ótimas. A que eu ouvi era com violoncelo e harpa, mas posto primeiramente a do piano por causa da primazia como está executada. Delicie-se você também.

1º - piano e flauta:

2º - harpa e violoncelo

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Resiliência e metanóia

Foram duas palavras que descobri hoje e que fez-me entender um pouco mais a respeito de mim mesmo. A tal frieza psicopatológica (para quem olha para mim estando fora de mim) é, na verdade, uma extrema resiliência. Já a metanóia é um pouco mais complexa e faz parte do que passo nesse momento.
Achei esse artigo interessante: "Resiliência, metanóia e a arte de cavar buracos".

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Show do Roberto Carlos - Pref Eduardo Paes ferra moradores de Copacabana

Interessante o trabalho do jornalista Ricardo Gama que, revoltado, acabou fazendo um serviço para a comunidade. Muito boa a cobertura. Situação revoltante que faz pensar: o que você faria nessa situação?



O site dele é http://anovademocracia.com.br/blog/

Inserir DNA humano em um cérebro de macaco

          O biólogo Alysson Muotri, brasileiro, professor-assistente da Universidade da Califórnia em San Diego, concede entrevista à Folha de S. Paulo hoje e diz:
          "A gente tem a capacidade que nenhum outro animal tem, que é a teoria da mente . A teoria da mente, explicando de uma forma bem leiga, é o fato de você conseguir se colocar na mente de uma outra pessoa e entender que tipo de coisa ela pode estar sentindo ou pensando em determinada situação."
          A grande questão por que passa atualmente em suas pesquisas é: "como formar um cérebro inteligente e criativo?" E, para isso, ao dar inteligência ao macaco, esbarra-se em uma outra questão (essa que mais interessou a mim, hoje): "[o macaco] poderia começar a ter consciência. A partir desse momento será que ele não se torna um ser 'humanizado'? E, caso se torne, ele passaria a ter os mesmos direitos que as pessoas? Se a resposta for sim, então ele não poderia ser cobaia."

FONTE: Folha de S. Paulo de 29 de dezembro de 2010

David Hockney pinta em iPhone e iPad

29 de dezembro de 2010

O pintor britânico pegou-se tocando a tela do iPhone e reproduzindo o nascer do sol que via pela janela. Gostou da ideia e começou a fazer isso e enviar para os amigos. A luminosidade da tela faz parte da pintura e, portanto, numa galeria serão necessárias várias telas de LCD para haver exposição. O mais interessante está em sua declaração: "Ninguém se perguntou quanto isso custa. Como muita gente, ainda não encontrei uma maneira de receber por isso, mas como esses desenhos dão muito prazer aos meus amigos, que importância isso tem?"

Fonte: Folha de S. Paulo de hoje.
Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2912201018.htm (para assinantes)

Querido Diário,

"Querido não, pois querido é coisa de boiola". Casseta e Planeta Urgente já virando velhos tempos. Dizem que esse tal de Blog é uma espécie de diário em que as pessoas vão escrevendo o que fazem da vida, põem fotos, uns comentam os blogs dos outros e por aí vai. Acabo de descobrir uma maneira interessante e utilitária para mim. Fazer disso um diário intelectual. Assim, poderei recordar o que eu lia e que ia me impressionando nas diversas fases da vida, do ano, da semana, sei lá. É que muitas vezes me lembro de reportagens que li e não me lembro onde nem quando. Agora poderei digitar o assunto na busca do blog e, em qualquer parte do mundo, acessar o que eu li. Anos de experiência já me trazem certa certeza de poder confiar que as imformações não se perderão facilmente. Essa ideia de arquivar as coisas foi tão fantástica que resolvi fazer mais um blog.  Trata-se de uma espécie de hemeroteca, onde guardarei os assuntos que for achando em minhas navegações que poderão servir para meus projetos literários futuros. Neste blog aqui, escreverei minhas impressões de coisas que estiver lendo que me impressionarem... Comecemos por hoje, então.

Ainda não vi...

Ainda não vi Rede Social (trailer aí embaixo)... Nem os outros que estão na minha lista. Vontade de ver filme ultimamente. Fico sem assistir à TV durante um bom tempo (só jornais ou uma ou outra entrevista) e, de repente, vem uma vontade louca de ir ao cinema. Estão na minha lista para assisitr nas férias: Rede Social; Pequeno Nicolau; Tetro; O Garoto de Liverpool; De Pernas Pro Ar; Muita Calma Nessa Hora; Você Vai conhecer o Homem dos seus Sonhos; Film Socialism e Um Homem que Grita. São, portanto, nove filmes, dos quais acho que conseguirei ver uns dois... Depois eu vejo da locadora (o que acaba também nunca acontecendo). Na verdade, dez filmes (esqueci de contar a Rede Social).

sexta-feira, dezembro 03, 2010

quarta-feira, novembro 24, 2010

Uma história...


Leiam essa história que escrevi em 2007... Para quem tem e-reader, melhor ainda.

É só clicar aqui: download 1.
Ou aqui: download 2.

Um e-book inteiramente grátis só para você!!


Outros livros publicados:
amortebeijoparasempre
Uma mensagem ao mundo: histórias do Velho Alvino

sexta-feira, novembro 19, 2010

AMANHÃ!!!!!!


Dia 20/11/2010 (Sábado), das 10 às 18 horas - acontecerá a

1ª FLI - Feira Literária de Indaiatuba


Local: Casarão Pau Preto - Rua Pedro Gonçalves, 477 – Jardim Pau Preto - Indaiatuba-SP


Mais detalhes nos anexos ou pelo site:

www.1fli.wordpress.com

ENTRADA GRATUITA

segunda-feira, novembro 15, 2010

O nascer do Sol e a morte da Lua
(cheia ao nascer)
Desde ontem dona do céu
Depois que o Sol se tocou
E foi embora do mundo.

O Sol e a Lua brigados.
Ele, sempre brilhante!
Independente...
A Lua, muito mais linda,
Sensual ao Sol depois que ele sai de cena
Vem suave fazer um brinde
Muito cheia de si - como toda lua deve ser -
Sabendo-se à míngua a partir de amanhã.

Na solidão do Universo
A Lua não pensa
Não escolhe os dias de sua beleza
E embeleza nossa vida
Quando menos esperamos
(como somos desatentos!)

Em 22/10/2010

sexta-feira, novembro 12, 2010

1ª FLI - Feira Literária de Indaiatuba

Dia 20/11/2010 (Sábado), das 10 às 18 horas

Local: Casarão Pau Preto - Rua Pedro Gonçalves, 477 – Jardim Pau Preto - Indaiatuba-SP

Mais detalhes no site:
www.1fli.wordpress.com

ENTRADA GRATUITA

Dê uma chegadinha lá!!

sábado, setembro 25, 2010

Fósforo

Vou fazer um café pra você, meu amor

Minha cabeça fria
Meu corpo numa caixa
Dezenas de companheiros iguais a mim
Alguns já se foram!
Agora somos uns vinte
E eu continuo aqui
Dando risada dos sisudos
Cabeças-de-vento -
Em breve cabeças-de-fogo -
Explodidas por estresse daquele ser
Que, sem necessidade, queima três fósforos
Para acender uma mísera boca de fogão
Que vai esquentar a água
Do "meu" café.

Como se fósforos bebessem café.


[18/09/10]

sábado, setembro 18, 2010

Gullar

Meu coração bate forte
Porque daqui a pouco
Terei em minhas mãos
Um livro de poesias
De um poeta de verdade
E vivo ainda!
Estou feliz de viver no mesmo mundo
De Ferreira Gullar
De Manoel de Barros
De Chico Buarque
De Roberto Piva (que foi embora há pouco - que pena!)
Além disso,
Vivi o Vinícius
E agora escuto, enquanto escrevo:
"E se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração!"

Amo minha vida!

[18-9-2010]
Minha árvore está sofrendo. Pensei, no começo, que estava queimada e triste, entretanto percebi que as partes amarelas eram sementinhas.

Fui até lá, bem pertinho da minha árvore, e vi que havia sementinhas verdes e amarelas - minha árvore brasileira - e que por isso ela estava pesada. Para mim, minha árvore está sofrendo. Vejo nela um peso que não é dela. E ela sofre, sim. Nada posso fazer, pois é da natureza das árvores oferecer frutos, por mais que pesem na sua vida.

Minha árvore está com cara de velha mal cuidada, como quem acha que vai morrer mesmo e deixa de se cuidar. Aos oitenta anos perde-se, muitas vezes, a vontade de ficar bonita. Para quem?

Mas minha árvore não raciocina. E se ela está feia agora, com certeza não sabe disso. E ela passou a ter uma beleza maior quando percebi que ela estava assim por causa dos seus frutos.

Minha árvore está grávida! E não posso deixar de registrar o meu ciúme. Não é brincadeira. Eu queria ser o pai de todas aquelas sementinhas, mas eu não sei como transar com uma árvore.

Dizem os espíritas, a respeito da evolução dos espíritos, que primeiro tu és pedra, depois planta, depois animal irracional, depois homem e fica voltando várias vezes para ser cada vez melhor, para aprimorar-se... Não concordo! O que devo fazer para voltar a ser árvore?

Amo minha árvore!

[18/09/2010]

domingo, setembro 12, 2010

Nunca pensei que conheceria pessoa para quem o dinheiro pudesse fazer as vezes de Deus. Não confio a minha vida a nenhum dos dois, pois, por ser sagrada, minha vida é só minha.

Não sou imortal quanto às adversidades, mas sairia muito bem de uma mina escura a 700m de profundidade depois de pacientes três ou quatro meses de espera. Claro, não é o mundo que se pede a Deus, mas sabendo poder beber água e exercitar-se um pouco, a parte básica da vida garantida, não há mais o que pedir a Deus. O resto é com a gente!

Aliás, tudo é com a gente. Deus só entra aqui como personagem de ficção do inconsciente coletivo. Ficção, aliás, muito bem vinda.

Adoro transar com Deus. O Diabo é mais quente e dá mais prazer, mas com Deus, sei lá! Não sei explicar... O sexo é meio frio, mas as carícias são muito mais intensas e sempre fica uma lembrança muito boa dessas nuvens. Uma paz muito grande poder gozar bem lá dentro do útero de Deus!

Já com o Diabo, não sei... Dá sempre vontade de tirar o pau e gozar na cara dele. E ele gosta! E eu me sinto bem subjugando-o. Fazemos um casal perfeito, mas disso não fica nada. Sou mais a língua de Deus brincando, subindo e descendo, acariciando o instrumento de injetar vida. A mesma língua divina que umedece a entrada do útero.

Que bom que Deus é assim, homossexual, pois toda a humanidade tem um só sexo e sabe que, por mais prazeroso que seja transar com o Diabo, somos mais livres quando aprendemos a dar o cu para Deus. E pra isso nem é preciso ter sexo.
[12-9-2010]

Bancos

Quero visitar alguns bancos
Falar com cada gerente
Assinar os melhores planos
Respeitando, é claro, o que tenho.
Abrir, primeiramente, uma conta
No banco de olhos:
Exigir letras grandes para todos os contratos.
No banco de sangue:
Exigir sempre taxas mínimas
E extratos à vontade.
No banco de sêmen:
Fechar a conta
Por conta dos prejuízos futuros
(Já cheguei ao máximo dos meus ganhos)
[12-9-2010]

segunda-feira, agosto 23, 2010

afastamento

O que me afasta de você
É justamente a poesia!
Esse clamar em desertos alheios
Uma injúria ou difamação
Umas letras, enfim, que, por fim,
Não dizem nada
Só confundem mais o seu pensamento
Que não pára
Que não pára
Só é enlevado para onde não é chamado.

O que me afasta de você
É essa poesia do nada
Poesia de nada
Insistente na teologia
Fingindo-se terapia
De um amanhã que nunca vem.

O que me toca é minha toca
Esconderijo de minha sombra
Regozijo de meu sorriso
Sonho de minha sanha
Espírito do bem
Espiralado

Talho

Cada poesia que eu talho
Nesse oco de pau
Por dentro desses troncos
Secos e sem vida
é um pouco de mim
Que se esvai, assim...
Oco e sem vida
A ficar marcado
Nessas texturas sem vida
Uma rolha de fim de tudo
Um vinho saboroso
Quando um dia for aberto...
Mas não é para ser aberto nunca!

O melhor vinho da eternidade.

Só é eterno aquilo que nunca pode ser.

Lua

Vejo a Lua
Astro sem luz própria
Aprendi na escola
Que é reflexo do Sol.
Continua brilhante no céu
Nada se perdeu para mim
Ela não é dona da luz
Eu não sou dono do Sol
Ela brilha pra mim
Enquanto eu abro uma skol.
Sonhos... Sonhos são assim
A gente imagina uma coisa
Acontece inesperadamente outra
E vem um suspiro de dentro:
"Ainda bem que era sonho!"
E os imprevistos da vida acontecem
Não há beliscão que os faça parar
Não há nada para acreditar...
Voltamos, então, ao sonho
Onde vivemos livremente
sendo-nos!

domingo, agosto 22, 2010

vento

Eu sei quem eu sou.
É justamente por isso que eu quero reprimir, esconder, cavar bem fundo e me enterrar em vida: só para viver mais, até bem velhinho. Não dá para eu ser eu mesmo: acho que não sobreviveria uma semana. Qual seria minha contribuição para o mundo? A Janis é a Janis e eu estou querendo o quê? Me comparar?
Sou um ponto de merda no infinito!
Se eu conseguisse ser pleno... Essa plenitude está longe de mim, por enquanto...
Sou covarde, idiota, bobo, não sou capaz de enfrentar desafios mais graves porque sair de mim mesmo significa "ficar nervosinho" e "não saber o que está fazendo".
Sofro por não conseguir, ainda, ser EU MESMO!, E a Janis Joplin sempre me causou a sensação de que se dedicou até o último fio da alma! Em seguida, morreu.
Quem prende tudo dentro de si, acaba-se transformando em escritor e vive até 80-100 anos.
Poderia estar escrevendo agora, e o que eu estou fazendo? Desabafando num caderninho de merda! Ouvindo Janis - a mulher que eu gostaria de ser - ainda vou escrever uma bela história de amor sob as músicas de Janis Joplin - Talvez quando já for de domínio público (coisa que ela já é, acho).

"DOMÍNIO PÚBLICO" - bom título. Uma coisa que não quero mais, mas que usei de muita alma para fazer agora é "domínio público". Sabe o que quer dizer? Depois que você morrer, passa meio século, e você é estuprado! Tudo o que você fez é de todo mundo.
Já fui estuprado e sei como é:
Acho que estupro é um pouco melhor, pois quem está estuprando tem prazer, pelo menos, apesar de ser a mesma essa sensação de FIM das verdades absolutas. Como se a verdade estivesse em consonância com a destruição de bens materiais. Acontece que a escrita não é um bem material, bem como a fotografia.

Imgino a mulher enciumada de Henri Cartier-Bresson rasgando todas as fotos dele!

Eu passei por isso. Ainda bem que eu não sou nenhum Cartier...
Sou um Fauth que não vale nada.
Podem rasgar minha vida, jogar pelas janelas dos automóveis, afinal de contas nada vale a pena!
Estamos neste mundo à toa mesmo!
Sem Deus, sem ninguém!
Tudo o que produzimos é pilha, lixo especial!
O papel em que produzo, onde escrevo, agora, um dia será incinerado, ou levado por uma ENCHENTE dessas: quando ENCHE a gente e a gente tem que dar fim ao que já foi coberto pelo barro. A chuva tem o poder de apodrecer as coisas. Fiquei apodrecido. Ninguém respeita minhas tintas... Talvez por eu ser mau pintor. E daí? O pouco que me resta é sempre atirado ao lixo! Lugar meu, enfim.

sábado, abril 17, 2010

Distúrbio

Corri feito um distúrbio
Uma espécie de doença rara
Que acomete pessoas que não cabem em si
As pernas em esforço hercúleo
Tentando mais rapidez que a alma
Os pulmões unidos pensando
Que jamais serão vencidos
Enquanto a alma agarra-se ao corpo
Que finge não aguentar estar vivo
O corpo aguenta muito mais do que isso
E minha alma, medrosa como quem nunca viu o sol,
Esconde-se cada vez mais dentro de mim
E fica furiosa quando meu distúrbio não é grito.
Não é vontade de morrer ou de matar
Não é psicopatologia nem coisa neurológica
É apenas uma transparência sob o sol quente
Que espanta ratos e baratas e, sem querer...
minha alma boba, fingindo abandonada.

Por isso corri feito um ditúrbio
A imprevisibilidade o levava ao "terra à vista"
Sem esperança de ver alguma coisa
Não existem mais desertos
E os esconderijos estão cada vez mais escassos.

Mas minha alma ainda os encontra
Bem dentro de mim
Sopro forte ventos alheios
Coisas insossas de dias cheios
Como se fossem de mim essas saídas
De ares, de gases, de sonhos ruins.

Depois da corrida minha boca fede
Dos demônios que passaram por ali
Escovo os dentes e passo perfume
Mas o hálito do anteontem inesquecido
Sobressai como sombra do meu ser
Mesmo eu sabendo que não sou
Essa boca de cachimbo do diabo
Que não sabe do poder das águas
Nem da falta de ar.

O inferno é só queimada?
E quando falta água?
E o ar?
E a terra?
O inferno é tudo isso
E tudo isso é uma beleza
Completamente inigualável...
E o sonho? Onde entra?
No meio de um arco-íris
De água, luz e som
Som de cegueiras ilustres
Luz de homens cegos
Águas de bêbados imensos.
O Sol, a Lua, o Terror
O mundo fingindo que não existe
Enaquanto caminhamos por essa terra insana.

A vida não sabe o que faz.
nós entendemos tudo,
pois estudamos...
Entendeu?
Nem eu!

Quinta, a dimensão

A areia da ampulheta
Chegou ao fim
Cabe a mim
A reviravolta do relógio
Antes disso escuto a música
Olho a pirâmide
Sorvo um trago mexicano.
Mexer na ampulheta
Não é voltar o tempo
Mas uma nova contagem
Que já já acaba
A música continua
A pirâmide permanece:
quatro pontos cardeais.
Sol nasce, Sol se põe.
E o que permanece além da vida?
A música, a pirâmide
E esses desenhos
Nas almas e nas cavernas
De toda gente.

Torturante Ironia

Que mágoa neste abandono!
Que ânsia, perdi o sono
E vim tristonho cantar!
Porque a canção mais aflita
É a forma que há mais bonita
Da gente poder chorar.

Tu sobes este barranco
Sujando o vestido branco
Pisando as pedras do chão
Mas sem saber na verdade
Que desde lá da cidade
Tu pisas meu coração.

Por ser do morro e moreno
É que eu soluço, é que eu peno
bebendo meu amargor
Porque me negam, querida
Essa alegria da vida
De possuir teu amor?

Que torturante ironia
O amor com categoria!
Eu amo e não posso amar
Porque a mulher que eu adoro
Não mora aqui onde eu moro
Deixe-me então soluçar.

(Orestes Barbosa)

domingo, janeiro 31, 2010

Gaivotas

Ninguém sabe das manobras radicais
Dos meus aviões de papel
Cada dobra que faço na folha branca
Indica sucesso ou fracasso no vôo
Tenho paciência na dobradura
Escuto o vento vindo e sinto
A responsabilidade nas minhas unhas
Em cada vinco que faço.
Cada pedaço de papel que amasso
Pode ser vidas que sucumbem
No espaço de um abraço.
Sinto-me à vontade pilotando
Minhas gaivotas de papel.

Sobrevôo o mundo
Aqui
Acolá
Caio ali:
Solo molhado desfaz o papel
Crio outra gaivota com as mesmas dobras
Para voar pouco
E cada pouco que vôo
Na minha gaivota frouxa
É muito para eu ver
O suficiente para chorar
Minhas lágrimas molham o papel
E caio no mar, no mato,
No canto da minha casa.
Fico inerte, aguardando o lixo
- sonho da viagem de ninguém
Transcendendo a cidade
No olho do minifuracão.
Nenhuma pedra sobre mim
Sigo livremente triste
Reclamando da vida que não levo
Filho do papai que não tive
Com Dinheiros e Gracias
Propinas, gorjetas por tudo aquilo
Que nunca fiz.
Não mereço um decibel do que chega aos meus ouvidos
Durmo, sonho, e assim vai a vida,
Como num avião de papel
Sem destino a cair em qualquer esgoto
Sobrevôo essa vida de mentira
Sobressaio como piloto de mim mesmo
Nas turbulências, a esmo.
Sinto-me uma folha de rascunho
Da qual foi feita gaivota
Avião de papel
Dentro em breve com bico no chão
Sob risadas de crianças incandescentes
Que abandonam brinquedos frágeis
Dentro das próprias casas.

Avião de papel na mão de qualquer pessoa
Atirando para qualquer lado
Pelo simples prazer de ver voar
Aquilo que não é seu.

Quem bate no muro
Quem cai na lama
Quem sofre o risco de ser pisoteado
Sou eu
Gaivota de papel-rascunho.