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domingo, janeiro 31, 2010

Gaivotas

Ninguém sabe das manobras radicais
Dos meus aviões de papel
Cada dobra que faço na folha branca
Indica sucesso ou fracasso no vôo
Tenho paciência na dobradura
Escuto o vento vindo e sinto
A responsabilidade nas minhas unhas
Em cada vinco que faço.
Cada pedaço de papel que amasso
Pode ser vidas que sucumbem
No espaço de um abraço.
Sinto-me à vontade pilotando
Minhas gaivotas de papel.

Sobrevôo o mundo
Aqui
Acolá
Caio ali:
Solo molhado desfaz o papel
Crio outra gaivota com as mesmas dobras
Para voar pouco
E cada pouco que vôo
Na minha gaivota frouxa
É muito para eu ver
O suficiente para chorar
Minhas lágrimas molham o papel
E caio no mar, no mato,
No canto da minha casa.
Fico inerte, aguardando o lixo
- sonho da viagem de ninguém
Transcendendo a cidade
No olho do minifuracão.
Nenhuma pedra sobre mim
Sigo livremente triste
Reclamando da vida que não levo
Filho do papai que não tive
Com Dinheiros e Gracias
Propinas, gorjetas por tudo aquilo
Que nunca fiz.
Não mereço um decibel do que chega aos meus ouvidos
Durmo, sonho, e assim vai a vida,
Como num avião de papel
Sem destino a cair em qualquer esgoto
Sobrevôo essa vida de mentira
Sobressaio como piloto de mim mesmo
Nas turbulências, a esmo.
Sinto-me uma folha de rascunho
Da qual foi feita gaivota
Avião de papel
Dentro em breve com bico no chão
Sob risadas de crianças incandescentes
Que abandonam brinquedos frágeis
Dentro das próprias casas.

Avião de papel na mão de qualquer pessoa
Atirando para qualquer lado
Pelo simples prazer de ver voar
Aquilo que não é seu.

Quem bate no muro
Quem cai na lama
Quem sofre o risco de ser pisoteado
Sou eu
Gaivota de papel-rascunho.