Pesquisar este blog

sábado, abril 17, 2010

Distúrbio

Corri feito um distúrbio
Uma espécie de doença rara
Que acomete pessoas que não cabem em si
As pernas em esforço hercúleo
Tentando mais rapidez que a alma
Os pulmões unidos pensando
Que jamais serão vencidos
Enquanto a alma agarra-se ao corpo
Que finge não aguentar estar vivo
O corpo aguenta muito mais do que isso
E minha alma, medrosa como quem nunca viu o sol,
Esconde-se cada vez mais dentro de mim
E fica furiosa quando meu distúrbio não é grito.
Não é vontade de morrer ou de matar
Não é psicopatologia nem coisa neurológica
É apenas uma transparência sob o sol quente
Que espanta ratos e baratas e, sem querer...
minha alma boba, fingindo abandonada.

Por isso corri feito um ditúrbio
A imprevisibilidade o levava ao "terra à vista"
Sem esperança de ver alguma coisa
Não existem mais desertos
E os esconderijos estão cada vez mais escassos.

Mas minha alma ainda os encontra
Bem dentro de mim
Sopro forte ventos alheios
Coisas insossas de dias cheios
Como se fossem de mim essas saídas
De ares, de gases, de sonhos ruins.

Depois da corrida minha boca fede
Dos demônios que passaram por ali
Escovo os dentes e passo perfume
Mas o hálito do anteontem inesquecido
Sobressai como sombra do meu ser
Mesmo eu sabendo que não sou
Essa boca de cachimbo do diabo
Que não sabe do poder das águas
Nem da falta de ar.

O inferno é só queimada?
E quando falta água?
E o ar?
E a terra?
O inferno é tudo isso
E tudo isso é uma beleza
Completamente inigualável...
E o sonho? Onde entra?
No meio de um arco-íris
De água, luz e som
Som de cegueiras ilustres
Luz de homens cegos
Águas de bêbados imensos.
O Sol, a Lua, o Terror
O mundo fingindo que não existe
Enaquanto caminhamos por essa terra insana.

A vida não sabe o que faz.
nós entendemos tudo,
pois estudamos...
Entendeu?
Nem eu!

Quinta, a dimensão

A areia da ampulheta
Chegou ao fim
Cabe a mim
A reviravolta do relógio
Antes disso escuto a música
Olho a pirâmide
Sorvo um trago mexicano.
Mexer na ampulheta
Não é voltar o tempo
Mas uma nova contagem
Que já já acaba
A música continua
A pirâmide permanece:
quatro pontos cardeais.
Sol nasce, Sol se põe.
E o que permanece além da vida?
A música, a pirâmide
E esses desenhos
Nas almas e nas cavernas
De toda gente.

Torturante Ironia

Que mágoa neste abandono!
Que ânsia, perdi o sono
E vim tristonho cantar!
Porque a canção mais aflita
É a forma que há mais bonita
Da gente poder chorar.

Tu sobes este barranco
Sujando o vestido branco
Pisando as pedras do chão
Mas sem saber na verdade
Que desde lá da cidade
Tu pisas meu coração.

Por ser do morro e moreno
É que eu soluço, é que eu peno
bebendo meu amargor
Porque me negam, querida
Essa alegria da vida
De possuir teu amor?

Que torturante ironia
O amor com categoria!
Eu amo e não posso amar
Porque a mulher que eu adoro
Não mora aqui onde eu moro
Deixe-me então soluçar.

(Orestes Barbosa)