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quarta-feira, outubro 05, 2011

Gosto de framboesa

Este ser que me sufoca só pode ser imundo. Uma possessão! Talvez seja a melhor definição. Como um demônio, toma conta do meu corpo, modifica minha voz, domina minha razão, pressiona minha cabeça e prostra-me com o rosto nos lençóis. Sob meus olhos, uma maquiagem fúnebre deixa-me com jeito de zumbi. As pessoas olham para mim com cara de nojo, lastimando serem minhas conhecidas.

Preciso de ajuda para expulsar de mim essa coisa! Do contrário, este ser imundo e repugnante tomará conta de minha alma e transformará meu corpo por inteiro.

Um anjo surge com um líquido vermelho. Seria sangue? Estarei transformando-me em algum vampiro? Bebo e é doce. Sabor framboesa, diz-me o anjo a sorrir. Bebo como quem beija. Boca vermelha, primeira delícia nesta manhã de inverno.

Mais tarde, ao tentar respirar fundo, sou impedido pelo ser repugnante, que não me deixa chegar ao fim da minha respiração. Eu queria apenas dar um suspiro, mas não! Enfureço-me e todo o meu corpo, com uma força fora do comum, resolve expelir o demônio numa tosse. Sinto como que um pedaço de carne passando pela minha garganta e invadindo-me a boca. Com nojo, cuspo no chão a parte daquilo que me sufoca. Não identifico o quê, mas sei que é verde e tenta me matar. Ao vê-lo imóvel, depois de um surdo baque, sinto alívio por vê-lo fora de mim. Sei que há muitos pedaços verdes para expelir ainda, mas já consigo dar o primeiro suspiro em paz e começo a sonhar com o anjo do beijo vermelho com gosto de framboesa.

04/out/2011

quinta-feira, setembro 22, 2011

ilhas

Com a internet, as pessoas começaram a tornar públicos os seus medos, os seus anseios, as suas ideias, as suas teorias. Com isso, muitos solitários encontraram amigos com quem compartilhar seus delírios...
E começaram a formar ilhas de solidão.

quinta-feira, agosto 04, 2011

Estamira no canal Brasil

quem puder assista, hoje, 16h40, no canal Brasil, o documentário ESTAMIRA e sinta um pouco de poesia de onde ninguém imagina que poderia sair.
O diretor esta de parabéns pelo belo e terno filme.

Wallace Fauth

sábado, julho 30, 2011

Adriana Lisboa

Ela diz que escrever é como um emprego qualquer. Você acorda de manhã e vai para seu emprego.
Chegando lá, escreve mecanicamente, como a gente faz em nosso emprego qualquer:

IMPERIALISMO CULTURAL

A vida íntima
de uma menina de dez anos
na Somália (Somália é qualquer lugar
neste mundo, neste mesmo mundo):
o clitóris e os lábios vaginais são decepados
a menina é costurada em seguida, deixando-se
apenas uma pequena abertura para a urina e a
menstruação
a menina é imobilizada até que a pele grude
entre suas pernas
e no dia em que estiver pronta para o sexo
seu marido
ou uma mulher respeitada na comunidade
vai abri-la de novo, cortá-la
como se corta uma fruta, como se corta
um envelope que traz um documento
importante
como o avião corta a nuvem
como a nuvem corta o céu.

[Adriana Lisboa]

Q I

As pessoas cuja classificação cai na parte mais baixa da escala de QI tendem resistir a mudar.

sábado, julho 09, 2011

Serviço

Dizem que é muito bom fazer o que a gente gosta e ainda ganhar com isso. Ganhar, aliás, é um pensamento tipicamente ocidental levado às últimas consequências pelos americanos que somos todos nós, mas que só os norte-americanos tomam para si.
O problema é fazer o que a gente gosta quando não se está nem um pouco a fim de fazê-lo. Nesse caso, melhor seria nem receber por isso, já que não se vai dar conta de estar-se sempre a sorrir, no caso dos palhaços, ou de estar-se sempre a pintar, para o caso dos pintores.
Gosto de tudo e quero fazer tudo e o faço.
Não vislumbro ganhos
Nem vejo como isso seja possível:
Estou vivo como um bebê que nem aprendeu a própria língua
Porque se sou humano e não entendo o que outro ser humano diz...
Quando descubro que temos visões de mundo totalmente diferentes,
Vem a mim a falsidade que é o querer aproximar-se.
Tolerar, talvez...
Aproximar-se, jamais.
Aí está essa a distância. Aí o atraso do crescimento global.
A saída não está em todo o mundo falar inglês, mas falar, realmente, uma mesma língua, o que me parece impossível. Uma visão global só seria possível se todos fôssemos capazes de falar todas as línguas, isto é, capazes de compreender todas as nuances das palavras e entonações. Esse tal de "way of life", uma imposição cultural como a estadunidense, é uma bosta. Basta você visitar os estados unidos: tudo muito bem organizado, bem pensado, onde não se vê horário de almoço porque as pessoas estão produzindo algo de útil para a humanidade. Acreditam estar fazendo o melhor.Levam o homem à Lua,tudo "otimizado". Mas você não tem muitas opções além do hambúrguer, da pizza, do taco mexicano ou do frango xadrez chinês. Talvez seja um sonho de muitos poder comer só besteira o tempo todo e achar que está certo, afinal sua vida é sua e por que não viver prazerosamente? Isso remete à infância: se você deixar, seu filho só come doce e hambúrguer. Nos Estados Unidos isso é normal entre os adultos, o que me faz imaginar que, sendo a potência mundial que é, a humanidade está perdida, ou muito imatura.
Enquanto estive aqui, tentei comer uma só vez por dia (hamburguer, pizza e afins) e, à noite, somente uma salada de frutas que se achava em potes por aqui. No terceiro dia "no more" salada de frutas. Não é uma coisa que se encontra com facilidade. Resultado: comi tudo com muita gordura, com muita manteiga e a vida em torno de um grande parque de diversões. Tudo o que a gente sonha quando criança, eles tentam reproduzir na realidade para viverem assim, como adultos... O extremo disso parece ser o Michael Jackson: aquele que parece nunca ter crescido. Ídolo por essas bandas. Querer ser criança... Bando de idiotas. Não que eu queira ser adulto, pois o que chamam adulto mostra-se frágil como um bebê. Queria apenas ver a humanidade avançando... Há uma claridade enorme na minha maneira de ver tudo assim, meio de longe. Ao mesmo tempo, tenho a sensação de estar ficando cego (literalmente), como se fosse proibido enxergar demais.
A paisagem de Las Vegas é surreal. Digna de um Salvador Dali. Está amanhecendo. Tiro a foto e vou dormir.

quinta-feira, junho 23, 2011

domingo, junho 12, 2011

Miscelânea de leituras

Interessante o artigo de Mirian Goldenberg sobre quem foi Leila Diniz (http://hemeroteca-fauth.blogspot.com/2011/06/os-asteriscos-de-leila-diniz.html).

Mais adiante, li que Rogério Tolomei Teixeira aposentou-se do Banco do Brasil e  matou seu personagem, Rogério Skylab, com o lançamento do seu último CD (o décimo). Disse ele: não prefiro a escatologia, nem o terror, nem a piada, como muitos pensam. Prefiro a morte. Eu sempre fui um cadáver dentro da MPB. Eu, particularmente, prefiro que ele continue um cadáver (reconhecido por poucos) do que um Luan Santana da vida.

Suzana Herculano-Houzel, em seu artigo Exaustão Cerebral afirma o que eu já havia lido faz um bom tempo: uma ou duas horas de atividade cerebral intensa (uma visita a museu, por exemplo) cansam os neurônios. Fiquei pensando como devem ficar meus neurônios em quatro horas de correção de redação.

A Apple está investindo no conceito de nuvem. Meus recortes que ficavam engavetados, por exemplo, estão hoje nas nuvens, isto é, posso acessá-los de qualquer lugar do mundo. Lembro-me da época em que usávamos o programa de e-mail da Microsoft de muito sucesso: Outlook Express. Baixávamos as mensagens em nosso PC e depois só poderíamos rever em casa. Em que computador estão as minhas mensagens? Já não existe mais isso. Não há um único computador, mas uma série deles, interligados, transmitindo as informações e fazendo backup o tempo inteiro para segurança de todos. E onde, então, especificamente, estão guardadas as mensagens? Nas nuvens, meu caro. Nas nuvens! Esse é o mais novo conceito e que está sendo aproveitado por Steve Jobs, da Apple. Acho que agora ele conseguirá superar o Bill Gates, ao unir o tal Ipad e o conceito de nuvem. As informações da sua vida andarão com você para onde você for: seus amigos do facebook, seus discos em MP3, seus livros em PDF e nada mais... Só falta a casa no campo, mas nada que um aplicativo da Apple não resolva.

Sairá, em breve, um auto de João Cabral de Melo Neto inédito. "A casa de farinha". O tema parece interessante: o estranhamento das pessoas da casa de farinha porque o dono do local de repente deixa de cobrar aluguel.

Por fim, na revista VEJA desta semana, Isabela Boscov comenta o filme "Blue Valentine", mal traduzido para o português como "Namorados para sempre". Veja o comentário aqui: http://veja.abril.com.br/blog/isabela-boscov/cinema/namorados-para-sempre-blue-valentine/

sábado, junho 11, 2011

Central Park, NY


A primeira vez que ouvi falar no Central Park de Nova Iorque foi quando ouvia Simon & Garfunkel e fui apresentado ao LP duplo gravado ao vivo no tal parque. Jamais imaginaria que pudesse, um dia, visitar aquele lugar, mas desde então sempre pensei nele com muito carinho. Passou a ser um lugar meu.  Guardado bem dentro de mim. Quase imaginário de tão mágico. Até que um dia eu fui até lá.
Pude percorrer toda sua extensão. A pé, de bicicleta, acompanhado dos meus filhos e também sozinho. Mágica no ar. Claro que pensei no Concert in Central Park! Ficava olhando os campos gramados onde os americanos faziam seus piqueniques e imaginando em qual deles foi armado o palco. Sound of Silence na minha cabeça diversas vezes e, sempre com um sorriso na lembrança, o erro inicial quando foram cantar The Boxer. Um erro que não perdeu o ritmo nem a melodia e que passou a fazer, para mim, parte da música. Gosto mais ao vivo do que no estúdio com aquela perfeição que aprisiona a alma.
Agora, posso ouvir as músicas e ver a dupla no palco. Delicioso DVD que sempre existiu (desde 2003). O show é de 1981, e a ideia de um mundo sem celulares, tweeters, blogs faz-me imaginar que aquelas pessoas foram muito privilegiadas e algumas talvez não tivessem noção disso. Taí um momento no mundo do qual eu gostaria de ter participado.
Infelizmente não há DVD para Sá & Guarabyra (10 anos juntos), de 1982. Outro show do qual eu gostaria de ter participado.

quinta-feira, junho 09, 2011

Presidente ou presidenta?

Parente adquiriu seu feminino parenta lá pelo século XIII. Não é de agora. Agora, estamos assistindo, ao vivo, ao surgimento do feminino de presidente. Aliás, presidenta já está dicionarizada como palavra usual. Podem chorar e dizerem o que quiserem, mas a língua modifica-se aos poucos e para essa modificação não haverá mais retorno. Aceitar isso é compulsório. E não há lei que obrigue os falantes a não falarem.

Minha pitada nessa sopa.

sábado, junho 04, 2011

Mentirinha

Sinto-me travado. Totalmente travado. Parece que toda minha vida trava quando estou assim. Por mais que por fora tudo esteja dando certo como nunca deu antes, por dentro estou sem capacidade de movimentos. Vamos lá, wallace, tudo de bom pra você! E a sensação de estar jogando no lixo o que seria "tudo de bom". Nunca o que queremos estará à nossa disposição, dirão alguns. Concordo. Mas há um mínimo que exigimos: as necessidades básicas (alimentarmo-nos e defecar, urinar), e as necessidades da inteligência. Nesse ponto, nada adianta minha vida. Tentei dormir mais cedo, dormir bastante; tentei acordar bem cedo, dormir bem tarde, virar a noite; tentei tomar calmante, tomar energético, tomar cerveja... Nada adianta. Penso em fumar um cigarro, agora. Sei que não vai adiantar. O que adiantaria para mim seria começar. Mas não consigo começar. Não quero começar. Não quero escrever sobre Orestes Barbosa. O nome dele aparece em passagens de avião nos Estados Unidos, mas não é o Orestes: é o bisneto. O sangue dele corre ali. Corre aqui do meu lado e, pasmo ao lembrar-me disso: corre nas veias dos meus filhos. Aí eu travo. Aí penso que não dá para escrever. Nessa hora sou totalmente incompetente. E tenho tantas ideias interessantes para depois. Pelo menos dois romances cercam-me. Mas não começo nada sem antes sair desse impasse de Orestes. Sinto-me travado mesmo. Totalmente dependente desse romance sobre alguém que não conheci, mas de cuja família comecei a fazer parte e sobre a qual não quero dizer nada. Mas é de uma beleza tão grande o que quero contar sobre o Orestes de Chão de Estrelas que não consigo pensar nos outros romances sem antes resolver este. E não resolvo nada. E vejo os dias passando, as horas... Meus filhos amadurecendo, pessoas em volta morrendo, a vida passando e eu sabendo que minha vez está logo ali. E eu protelando, protelando o que preciso fazer... Ás vezes acho que protelar minha missão é uma forma de viver mais. Como se... ao acabar de fazer o que precisa ser feito por mim, minha hora chegará. Pretensão imensa. Como se eu significasse alguma coisa perto do tamanho dos planetas no Universo. Já recebeu aquele e-mail com o tamanho dos planetas e as frasezinhas dizendo que por ser pequeno você é um lixo? Pois é. Não consigo explicar o lixo que sou e ao mesmo tempo um Deus. Um Deus. É assim que me sinto. E é essa solidão divina que me faz sentir um verdadeiro lixo, pois eu não queria ser Deus e ter a responsabilidade dessa criação de merda. Saber-me "criatura" faz-me ter bem a consciência do que deuses são capazes.
Criador de merda, por que não vai dormir um pouco?

domingo, maio 22, 2011

No link do lado

Para saber de leituras interessantes que tenho feito, veja o link ao lado "hemeroteca do fauth"
VIDA APÓS A MORTE

"Um conto de fadas para pessoas que têm medo do escuro"
 (Stephen Hawking)

Que merda! Eu queria ser o dono dessa frase. Acredito nisso do fundo do meu coração.
Esquecida na gaveta fria
O sangue secando azul:
Decerto o poeta morreu! –
Deserto de poesia.
          Faz tempo que não escrevo a sério. Nem mesmo quando provocado. Uma grande preguiça tem tomado conta de mim na hora de colocar as palavras no papel. Não é retórica: ainda escrevo no papel, e não é pouco. Preciso andar com caneta e caderno. Não me sinto bem, ainda, sendo o único a usar alguma parafernália eletrônica em público. Quando estou lendo ou escrevendo, quero estar invisível. Para isso, tranco-me no escritório - e não adianta muito, porque sempre alguém vai lá falar comigo, afinal estou em casa - ou vou para algum lugar com cadeira e mesa, de preferência sem garçons. Aí leio, escrevo, penso e faço meu trabalho enquanto ser vivo, que é manter tudo funcionando, inclusive o cérebro.
          De vez em quando reclamam da minha falta de interação com as pessoas. Agora, então, que não estou mais ingerindo a imensa quantidade de cerveja de antes, terminou o único motivo que me fazia ligar para as pessoas e marcar algum tipo de reunião. Quero reunir a mim mesmo: juntar os pedaços que vivo espalhando por aí.
          Mais quieto, mais chato, ainda assim não consigo a solidão suficiente para meus trabalhos. Esse estar sozinho, quase sempre, só acontece com algum sofrimento, alguma grosseria feita com a maior educação: "por favor, preciso ficar sozinho ". A frase soa antipática, ridícula, sinal de desamor em relação à pessoa que está se doando toda para estar ao meu lado porque gosta de mim e me quer por perto. E quem disse que preciso agradar os outros? O que pretendo é dizer "não" mais vezes. Não sei direito quais são as consequências, mas acredito estar disposto a enfrentá-las. Preciso, cada vez mais, ficar sozinho. O problema, talvez, seja querer compartilhar coisas e não achar quem queira estar perto de um bicho como eu. Mesmo isso não é problema, pensando melhor agora, pois tenho um blog e, ao publicar, vem a sensação de estar compartilhando meus pensamentos, minhas experiências, minha visão desequilibrada do mundo. Não o divulgo muito porque não quero, efetivamente, ampliar possíveis contatos. Quero a sensação do compartilhamento, mas não quero trocar ideias. Como no trecho de Machado de Assis, no conto Noite de Almirante, "Que importa à grande dama o autor da obra?" Assim eu gostaria de existir. Não importa quem sou e o que faço, quero que as palavras publicadas sejam independentes. Como se tudo o que eu escrevesse fosse apócrifo.
          Nós, que escrevemos, somos apenas um mero instrumento. Pensar assim traz algum sentido para a vida. Uma função nada especial, mas especializada. Como a de uma caneta esferográfica. Há milhares e milhares, e o que sai de suas esferas não é propriamente responsabilidade delas, mas de seus usuários. Por outro lado, não fosse sua existência, algo muito semelhante a ela seria criado, por se tratar de um instrumento fundamental para a humanidade. Por ser humano, sinto-me mero instrumento de passagem de forças indistintas. E só sinto isso porque não consigo abandonar essa coisa que nem posso chamar de hábito.
          Ando muito racional e isso de certa forma deixa-me irritado. Gosto mais quando o mundo mágico toma conta do meu ser e sinto a poesia vibrando com as batidas de meu coração. Continuo vendo poesia em tudo, mas como espectador. Assim não gosto, mas nem sempre a vida se nos apresenta do jeito que gostaríamos.
           Eu comecei dizendo que estava sem escrever. Pergunta-se: "o que faz então neste exato momento?" Nada. Escrever essas angústias pessoais não é propriamente escrever, a não ser quando vêm em forma de poema. Aí sim, deixam de ser meramente pessoais para tornarem-se profundamente humanas. O que tem me incomodado é isto: essa sensação de caneta esferográfica esquecida na gaveta, a tinta secando.

quinta-feira, maio 19, 2011

Poema quase explicado

Em uma bela manhã de fevereiro, após presenciar uma cena terrível de sofrimento diante de uma escolha banal, escrevi o poema abaixo.
(dizem que o poema, quando explicado, perde a magia. Mas esse é desprovido de mágica mesmo).

Querendo, quero o impossível
Vivendo, sou invisível
Sem charme em agonia
Sofrendo no indizível
(entrelinhas de minha inexpressão)
Imponderável sentimento de não-poder
Amargas raízes que não ganham chão
Nenhuma profundidade
E esses ventos, meu Deus!
Os mesmos ventos do quase-sempre
A derrubar os galhos podres da minha alma.

(Campinas, 11 de fevereiro de 2010)

Bastidor, de Ana Holck

          Em 09 de janeiro de 2011, visitei a exposição de Ana Holck no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro. Era o último dia e só visitei a exposição porque esperava o horário da peça "A Lua vem da Ásia", monólogo de Chico Díaz, baseado na obra homônima de Campos de Carvalho publicada em 1956. Ótima peça, aliás.

          "Caminhamos escorados no fino limiar entre uma presença escultórica marcante e sua pulverização, adentrando um produtivo campo de incertezas no qual ver talvez seja menos habitar do que desabituar-se." (do texto "desabitar-se", de Sérgio Bruno Martins, sobre a exposição de Ana Holck)
           Trata-se de uma sala inteira transformada em um imenso biombo de plástico, daquelas pastas polionda usadas na escola. Brancos, opacos, baseando-se na ideia dos pisos hexagonais de concreto. Alguns deles, os de concreto, no chão, escorando as paredes de plástico, ora com hexágonos cheios do material (na verdade policarbonato alveolar), ora com vazios hexagonais. A interpretação faz parte da questão, como dizia, antigamente, meu professor de matemática. Veja detalhes clicando aqui.

           As pessoas que ali vão, falam baixinho, como manda a educação. "Eu pensei que você gostasse de arte", diz uma mulher a um homem, provavelmente o marido e a voz diminui ainda mais quando eu me aproximo mais, tentando saber do diálogo, talvez ouvir a resposta daquele homem que parecia incomodado vendo aquilo. Não ouvi, mas foram duas palávras, no máximo três que ele deixou escapar entredentes com uma cara de quem queria sair logo dali.

          Tenho notado isto faz tempo: esse falar baixo demais como se houvesse medo de expressar a opinião. Não gostar e ser criticado por um não entendedor de arte, ignorante das novas tendências. Ora, o direito de gostar compete a todo ser humano. Não gostar de determinada forma de arte e manifestar-se não é desrespeitar o artista. A sensação que tenho, no entanto, é a de estar no interior de uma igreja - aquele silêncio... Como se duvidar da existência de um sentido para a vida, para a arte ou para deus fosse uma heresia. Eu, por exemplo, não sou muito fã de artes modernas e instalações, apesar de gostar muito da ideia desta última. Minha opinião é bem parecida com a de Ferreira Gullar nesse aspecto. Entretanto, como nas igrejas, mantenho o silêncio como quem vela o que não existe, ou seja, vivo as obviedades.

domingo, maio 15, 2011

As pessoas vivem para quê?

Dias atrás assisti a um vídeo em que se perguntava: as pessoas vivem para quê? E tentava responder: para perder alguém? Para se manter vivas? Para viver mais tempo? Ou para nos deixar? Então, como em uma resposta definitiva, os cinco velhinhos de Taiwan, com idade média de 81 anos, que vão aparecendo tomando remédios e chorando a morte de entes queridos, decidem passear de moto por 13 dias. Para isso, passam por seis meses de preparação. Rodam 1139 quilômetros e, por fim, depois de diversas imagens revelando passado e presente, com muitos sorrisos entre os cinco amigos, a resposta surge: por um simples motivo: sonhos. Para pessoas ordinárias com sonhos extraordinários (For ordinary people with extraordinary dreams). Claro que, como em nossa língua não fica muito bom o jogo de palavras, o ordinário é traduzido para comum. Poderíamos pensar em outra tradução, modificando o extraordinário: Para pessoas comuns, com sonhos incomuns. Mas aí o incomum não teria o apelo do extraordinário. Talvez eu me encaixasse melhor na segunda tradução, pois estou mais para sonhos incomuns do que extraordinários. 

De alguma forma a propaganda mexeu com meus pensamentos. Alguém com a pretensão de dizer o porquê de estarmos vivendo. Vive-se para realizar sonhos extraordinários? Eu não penso nisso. Talvez eu não tenha sonhos, ou talvez eles não sejam extraordinários. Incomuns, pode ser. Mas não acho que se viva para isso. Nem acredito que se viva para alguma coisa. Vive-se e ponto. Não estamos aqui para expiar pecados de vidas anteriores, nem estamos aqui para fazer o bem e conquistar uma cadeira na academia brasileira de anjos. Estamos aqui nos perguntando “e daí?”. Temos algo que nos faz sofrer: a consciência da morte, que os cães, por exemplo, não têm. Mais do que o sonho, há o frio na barriga. Isso é o que talvez nos faça viver, mas não que vivamos para isso. Vive-se em busca de uma felicidade que, já se sabe, é sempre efêmera, pois nós, humanos, estamos sempre nos sentindo incompletos e, segundo o poema Retrato do artista quando coisa, de manoel de Barros, a maior riqueza do homem é essa incompletude e nisso o poeta é abastado. Ao sentirmos nossa incompletude, vamos em busca do que acreditamos que nos complete e, perto de atingir o que julgamos ser o auge, o ponto máximo que criamos, quando nossas mãos aproximam-se do objeto tão desejado, surge o tal frio na barriga. É isso, pensamos, é verdade e está aqui ao alcance das minhas mãos e vou agora tocar meu sonho. Frio na barriga, vista turva, tremedeira, lábios roxos, suor frio, parece que vamos explodir de alegria. Gozo. Nirvana. Depois da conquista, podemos morrer. Daí a ideia dos franceses de chamar de pequena morte o orgasmo. 

O problema é que não morremos. A cada conquista, uma falsa morte. A cada descoberta, uma explosão, como a de Arquimedes, ao descobrir a solução para o problema da coroa que, desconfiava-se, tinha prata misturada ao ouro maciço. Arquimedes saiu nu, pelas ruas, gritando Eureka! Depois disso, mais incompletude, até que um dia, virá um frio bom na barriga e nos levará a vida de vez. Uma grande morte. Um grande orgasmo. O verdadeiro Nirvana.

Se você acredita que vivemos para os sonhos extraordinários, lembre-se do TC Bank, autor da propaganda, pois ele poderá ajudá-lo a realizar seu passeio de moto, de ônibus ou de avião. Sejam quais forem os seus sonhos, o banco lá estará, com suas moedas de ouro. No entanto, por mais extraordinários ou incomuns que sejam, não é para realizá-los que se vive. Vive-se para viver. Para olhar, sentir, respirar... E, queira ou não pensar nisso, vive-se para morrer.
Assista ao vídeo:

Mais Manoel de Barros, também tendo a ver com "As pessoas vivem para quê?"



domingo, maio 01, 2011

Não sei o que fazer dos textos que leio

Não sei o que fazer dos textos que leio. Acabo de ler uma crônica deliciosa sobre alguém que oferece um livro de presente a um admirador de sua biblioteca. O livro é Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez. Quem dá o presente descobre, pouco tempo depois, mas já tarde demais, que o presenteado é crente e está quase pastor. Dito assim é sem graça. Há necessidade de ler a crônica e eu quero compartilhar, mas quem vai querer ler? [quem quiser ler, clique aqui] Quem vai querer ler tudo o que eu acho imperdível ser lido? As pessoas têm lá seus afazeres e eu aqui, sem fazer nada, lendo essas bobagens. E pior: pensando em atrapalhar a vida alheia, querendo que as pessoas interrompam suas vidas para verem o que eu vejo, sentirem o que eu sinto. Impossível. Sonho. Sempre o sonho.

Recorto e guardo, então, o texto na esperança de que algum dia vá compartilhar com alguém a excelente leitura. Um belo domingo de sol, quem sabe, no meio de um bate-papo à beira da churrasqueira, eu possa dizer: sabe o livro do Gabriel García Márquez? Pois li outro dia uma crônica...

E minha pasta está ali: lotada de recortes, alguns amarelados pelo tempo, os quais nunca voltei a ler, tampouco compartilhei com quem quer que seja.

Há duas caixas no meu escritório repletas de revistas de literatura. Das duas últimas vezes que as abri, fiquei com pena de jogar fora. Há capas com Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, muitas matérias que ainda não li e, pelo jeito, talvez nunca chegue a ler. Todos os dias chegam aos meus olhos jornais, revistas, páginas novas do livro que estou lendo, sites da internet, e-mails e, para complicar a situação, eu mesmo produzo mais páginas, como estou fazendo agora. Para quê? Para quem? As pessoas têm seus afazeres e eu, que não tenho afazer algum, arranjei isso de ficar lendo e escrevendo todo o tempo e criando ódio mortal das situações que venham a tirar-me dessa inércia louca de viver assim. Meu salário acabou vindo disso, de certa forma, pois ao lecionar, fui escolher Literatura e Gramática e obrigo várias pessoas a produzirem mais páginas para eu ler: as fatídicas redações. Quero que essas pessoas escrevam bem, que saibam expressar seus pensamentos, seus sentimentos por intermédio das palavras. Para quê?

Olho minha estante e, numa contagem rápida, deve haver uns seiscentos livros aqui. Alguns ainda no plástico de quando comecei uma coleção proveniente de bancas de jornal há uns dez anos. Bonitos exemplares de capa dura e bom papel. Fechados. Um dia vou ler a maioria. Um dia... Um dia que nunca chega e talvez nunca chegará. Os espaços da minha estante estão todos tomados e prometi a mim mesmo que aquele seria meu limite. Para entrar outro livro, algum deverá sair. Foi aí que comecei a acumular novas obras nas estantes do local em que trabalho e lá também parece haver limites. Preciso parar, repito para mim mesmo. E aparentemente eu paro de adquirir obras que vão entrando em uma fila interminável de leitura. Movimento nenhum. Até que, sorrateiramente, pego-me digitando, durante horas, títulos e autores de livros digitais adquiridos gratuitamente por serem de domínio público. Sim, comprei um e-reader para ler em viagens e poder levar muitos livros comigo. Estou com praticamente todos os clássicos da literatura brasileira. Ao todo, no meu leitor digital, há pouco mais de quatrocentos arquivos, entre contos, romances e poesias.

Em minhas leituras diárias de jornais, revistas, romances, poemas, crônicas, contos, redações de aluno, estou sempre passeando por momentos mágicos e quero mostrar para todo mundo. Recorto, copio, colo e salvo em um canto do computador, escrevo minhas experiências de leitura em um blog, em uma caderneta, mas... Falta algo. Uma direção, talvez. Não sei bem o que é, mas estou sem saber o que fazer com toda essa experiência. É como se eu estivesse preocupado com a própria experiência do viver. Para quê? Viver para quê?

Abro um parêntese para acalmar aqueles que podem imaginar que estou prestes a dar cabo de mim, pois se acredito que não há motivos para viver... Calma. Muito menos há motivos para morrer. Morrer eu já sei como é: tudo para de funcionar e a gente se desfaz na terra. Não quero isso. É tão bom abrir Fernando Pessoa, na pessoa de Alberto Caeiro, e ler que o único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum. Tão bom sentir a brisa, viver um pôr-de-sol, mergulhar no mar, brincar. Não, morrer tem menos motivo ainda. Morrer para quê?

Se todo esse sentimento exige alguma ação, a ação é arranjar mais tempo de vida para deliciar-me com o que há de melhor, como as leituras. Escrever essas coisas que não têm serventia também me fazem bem, então por que não fazê-lo? Já que nada parece ter mesmo serventia, vivamos o melhor possível. Crio, então, para mim, o melhor dos mundos. O único problema é que não posso ficar o tempo todo só. É preciso interagir de uma maneira preestabelecida, por menos que eu queira. Se eu pudesse, minha interação seria apenas de compartilhamento dessas mágicas por que passa minha alma diuturnamente. Ah, se eu pudesse, deixaria tudo para ficar com minhas leituras e minhas escritas, mas é preciso comprar o pão, dar bom dia, exercer alguma atividade social. Eu acho até que cumpro bem essas chatices, pois acredito que há até pessoas que gostam de mim, tenho quase certeza. Pelo menos é o que elas me fazem acreditar.

Supondo que tudo esteja muito bem arranjado com relação ao tempo, volto aos primórdios: o que fazer de tudo o que leio? Lixo?

Pois foi o que eu fiz com uma pasta cheia de recortes de dois anos.

Faltam as revistas e alguns livros para poder transformar minha estante em algo mais dinâmico como um rio, como minhas leituras, como minha própria vida.

segunda-feira, março 28, 2011

Novo Blog da Maria Betânia

Gostei do novo blog poético da Maria Betânia.... Assista abaixo:

Mais Elizabeth Taylor

Segundo Veríssimo, ontem, no filme "Um Lugar ao Sol": Não há outro caso - com exceção, talvez, da primeira visão de Rita Hayworth em "Gilda" - de uma entrada em cena com a dela [Elizabeth Taylor] na história do cinema.
O pior é que o filme passou ontem no TCM e eu não consegui ver.

A overdose dos games

     Esse é o título da matéria publicada na Folha de S. Paulo de domingo, na Ilustríssima, assinada por Diógenes Muniz. Inicia-se com um jogo instalado no banheiro do metrô de Tóquio e chama-se "toylet". Você mija e faz pontos. O objetivo deve ser fazer o sujeito não mijar fora do local estipulado.
     O livro lançado recentemente sobre o assunto: "Reality is Broken", de Jane McGonigal é, segundo o articulista, um manifesto tecnoutópico. Realmente, mais adiante, ele nos mostra uma forçação de barra na argumentação da autora. Segundo ela e alguns defensores da ideia, estamos passando por uma revolução que estão chamando por aqui de "gamificação". "A humanidade está saindo da vida para entrar no jogo", diz McGonigal em seu livro.
      Pela terceira vez nesta semana escuto falar no jogo "Angry Birds", como a nova sensação do Ipad. Será que aquela fila para comprar o aparelho era de viciados em jogos? Nessa história de games, os dados são realmente surpreendentes: há um filme chamado "Scott Pilgrim contra o mundo" que é um jogo. No final do filme, o rival explode numa chuva de moedas de ouro, como nos jogos do Mário Bros.  Além disso, nenhum filme, livro ou CD superou a marca de 1bilhão de reais em cinco dias do game "Call of Duty: black ops". Segundo a matéria, a maior bilheteria da história do cinema na mesma época do lançamento do jogo, "Crepúsculo", arrecadou, nos primeiros 3 dias, apenas 232 milhões de reais.
     Outra coisa interessante foi a citação de uma "filósofa digital" (Amber Case, 24), também denominada "antropóloga ciborgue". Leia a entrevista clidando aqui
     Guardarei esse nome, William Kist, especialista em educação na universidade de Kent State, Ohio. Escreveu algo sobre "a sala de aula conectada socialmente: lecionando na era das novas mídias".

A reportagem completa você lê clicando aqui.

domingo, março 27, 2011

Ipad 2

Outra foto que ficou marcada no dia de hoje: a fila para comprar o Ipad 2... Ora, é uma espécie de telefone celular gigante, ou um computador que tem só tela... Há essa necessidade toda desse aparelho? Não entendo essas filas. Por que querem tanto um aparelho assim dessa forma, tão rapidamente, com tanta urgência? Eu só queria um pouquinho mais de tempo de sobra para poder ler meus livros e escrever minhas histórias... Abaixo duas fotos que saíram nos jornais de hoje.


sábado, março 26, 2011

LIVROS

Livros que pareceram interessantíssimos:
Fernando Pessoa, uma (quase) autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho.
e
Raiva, romance de um escritor argentino, Sérgio Bizzio.

Veja as matérias que saíram na Ilustrada de hoje (26/3/2011):

Vouyerismo sedutor conduz "Raiva"

Em seu primeiro livro, cineasta argentino Sergio Bizzio progressivamente descamba para o delírio

JOCA REINERS TERRON
ESPECIAL PARA A FOLHA

A ficção argentina tem se afastado de seu paradigma mais conhecido, a literatura fantástica, o que bem comprova "Raiva", primeiro romance de Sergio Bizzio (Villa Ramallo, 1956) a ser lançado no Brasil.
A produção literária do cineasta e roteirista (sua história "XXY", dirigida pela mulher, Lucía Puenzo, obteve repercussão por aqui) tem sido prolífica, remetendo-a nesse aspecto e em outros à proverbial graforréia do compatriota César Aira ("Coronel Pringles", 1949).
Os livros deste, além da prolificidade, quase sempre são calçados no absurdo contemporâneo.
Com Bizzio não é diferente, partindo em seus enredos de situações realistas bastante reconhecíveis para progressivamente descambar no delírio.
Em "Reality" (2007), por exemplo, um reality show é invadido por terroristas islâmicos. Contudo, e por exigência dos criminosos, o programa continua no ar.
Desse modo, em movimento inesperado, a realidade contamina com violência o absurdo midiático de exposição pública da intimidade.
Em "Raiva", algo semelhante ocorre: primeiro, o pedreiro José María e a doméstica Rosa se apaixonam.
Agressivo, José María espanca quem dela se aproximar, como o filho do síndico de um prédio vizinho à mansão onde Rosa trabalha.
Ele perde o emprego após ser denunciado, mas assassina o capataz.
Alheia a isso, Rosa continua a recebê-lo no emprego, aproveitando viagem dos patrões. Certa noite, porém, eles voltam desavisadamente. Obrigado a se esconder no sótão, José María permanece na mansão sem que ninguém o saiba.

AMBIGUIDADES ÍNTIMAS
Aí tem início um sedutor jogo de voyeurismo que envolve o leitor, levando-o a avançar páginas em busca do desenlace.
María é subitamente aprisionado à vida secreta dos personagens da casa ao mesmo tempo que transforma sua relação anterior com Rosa em algo que não pode contar com sua intervenção.
Ele usa do telefone para falar com a namorada, mas não tem meios, ou quiçá o direito, de alterar o destino dela, descobrindo assim ambiguidades de sua face íntima, assim como de todos os outros moradores da casa.
De forte base irrealista, a ficção argentina moderna originada em Macedonio Fernández (1874-1952) e perpetrada por Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e muitos outros, tornou-se ilusoriamente representação metonímica de toda a literatura argentina, excluindo a vertente de ordem documental surgida no "Facundo", de Domingo Sarmiento (1811-1888), e continuada em Roberto Arlt (1900-1942).
Sergio Bizzio, assim como César Aira, representa o caminho do meio surgido nos últimos anos.

JOCA REINERS TERRON é autor de "Do Fundo do Poço Se Vê a Lua" (Companhia das Letras)


127 pessoas

Caricatura de Almada Negreiros



José Paulo Cavalcanti Filho lança primeira biografia brasileira de Fernando Pessoa , em que revela 55 novos heterônimos

MARCO RODRIGO ALMEIDA
DE SÃO PAULO

José Paulo Cavalcanti Filho tinha um objetivo quando iniciou sua biografia de Fernando Pessoa (1888-1935): descobrir quem era o "homem real" por trás do grande poeta português.
Após oito anos de pesquisa, o autor e advogado pernambucano acabou deparando-se não com um, mas com 127 "Pessoas".
É esse o número de heterônimos do poeta catalogado pelo livro "Fernando Pessoa: Uma (quase) Biografia", que Cavalcanti lança agora.
As múltiplas personas de Pessoa vão muito além de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, e superam também o que pensavam os especialistas.
Cavalcanti cita no livro que, no início dos anos 1990, eram conhecidos 72 heterônimos de Pessoa. O livro acrescentou 55.
O conceito de heterônimo que adotou é amplo e não se restringe à definição padrão: "nome imaginário que um criador identifica como o autor de suas obras e que apresenta tendências diferentes das desse criador".
Inclui todos os nomes, tendo estilo próprio ou não, com os quais o poeta assinou seus textos. A decisão pode ser contestada, mas a intenção de Cavalcanti nunca foi fazer uma biografia convencional.
As excentricidades já começam pelo subtítulo: "Uma (quase) Autobiografia".
O autor refere-se ao trabalho como o "livro que escrevi com meu amigo Pessoa".
A "amizade" é das mais antigas. Começou em 1966, quando Cavalcanti leu "Tabacaria", um dos principais poemas do autor.
A partir daí, viria a montar umas das principais coleções sobre vida e obra de Pessoa.
O poeta deixou mais de 30 mil páginas com anotações sobre si mesmo, literatura, família e fatos cotidianos.
Cavalcanti usou tantos trechos que chega a dizer que seu livro tem "mais frases de Pessoa do que minhas".
"Mas não se trata", explica, "de Pessoa falando sobre si, é a palavra de Pessoa falando sobre ele. Ou melhor: é o que quero dizer, mas por palavras dele".
Cavalcanti foi ainda além: para dar unidade estilística ao texto, tentou escrever como Pessoa.
Reduziu os adjetivos e adotou outro hábito dele: o uso, em média, de três vírgulas antes de um ponto final.

SEM IMAGINAÇÃO
Durante a pesquisa, Cavalcanti foi até quatro vezes por ano a Portugal. Leu centenas de documentos e entrevistou parentes e pessoas que conviveram com Pessoa.
Dessas andanças, saiu com a certeza de que o poeta é o autor "menos imaginativo" que existe.
"Tudo o que escreveu estava realmente à volta dele. Não tinha nada inventado."
Como exemplo, cita "Tabacaria". O poema menciona cinco personagens e Cavalcanti revela que todos realmente existiram e eram próximos do poeta.
Quando se trata de Pessoa, contudo, nem tudo é claro. "Sabes quem sou eu? Eu não sei", já advertia o poeta.
Sobre sua vida sexual ainda paira uma imensa dúvida. Teria sido gay? Cavalcanti acha que sim, embora não existam provas.
Também não há certeza sobre se teria ou não transado com Ophelia, seu mais conhecido relacionamento (Cavalcanti pensa que não foram além de beijos ardentes e leves toques nos seios).
Cultivar mistérios, ao que parece, fazia parte do estilo de Pessoa, e isso também Cavalcanti tentou incorporar.
O poeta tinha por hábito, diz o biógrafo, embaralhar as datas. O heterônimo Alberto Caeiro, por exemplo, morreu em 1915, mas há textos datados de 1930 atribuídos a ele.
No prefácio do livro, Cavalcanti também colocou uma data futura: 13/6/2011. Dupla homenagem, já que Pessoa nasceu nesse dia, em 1888.

Elizabeth Taylor

TCM, hoje, começa a passar os filmes com a atriz. Pretendo assistir ao de 22h: "Gata em teto de zinco"(Barracão de zinco do Orestes me seguindo. rsrs) e 0h05min: "De repente, no último verão".

Buzz Lightyear no Japão

Imagem que apareceu no jornal Correio Popular de hoje e ficou martelando na minha cabeça...

Chinelinho nerd de Harvard

Eu gostei do chinelo da sorte do Zuckerberg. Gosto de sandálias assim, pois são boas para usar com meias no inverno. Hehehehe.

EINE KLEINE NACHTMUSIC

Uma "pequena serenata noturna", a tradução. Tenho escutado "serenata" de Orestes Barbosa e li outro dia, na coluna de Rubem Alves, uma citação a essa composição de Mozart dizendo haver ali uma beleza paradisíaca. Essa música seria um delicioso brinquedo com os sons. Melodia bastante conhecida, mas que a gente nunca lembra o nome. Abaixo o que encontrei no youtube: interessante ver com os olhos dos músicos que acompanham as partituras.

sábado, fevereiro 19, 2011

World Press Photo 2011

Concurso internacional de fotografia. Veja as fotos vencedoras aqui: http://www.folha.com.br/fg2140.
São fotos jornalísticas, portanto aparecem tragédias mundiais recentes.
A que eu mais gostei, por parecer uma pintura, foi a fotografia das vítimas de enchentes brigando por comida distribuída por helicóptero do Exército do Paquistão. Feita por Daniel Berehulak, a imagem ganhou o primeiro prêmio da categoria "Pessoas nas Notícias - Reportagens".

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Pessoas com estrela

RUY CASTRO

fonte: FOLHA DE S. PAULO de 11 de fevereiro de 2011

RIO DE JANEIRO - Em 1966, em Londres, um jovem, Bob Nadkarni, aspirante a escultor, ia tomar o ônibus que o levaria à escola de belas artes onde trabalhava como professor. Pregado no poste, havia um anúncio: "Precisa-se de escultor de miniaturas de naves espaciais para filme de science-fiction. Apresentar-se no estúdio tal".
Por acaso, parou no ponto um ônibus que ia naquela direção e, sem pensar, Bob o tomou -significava trocar o emprego na escola por talvez nada. Quando chegou ao endereço, um homem fantasiado de macaco cumprimentou-o. Era um amigo e disse que a fantasia era para uma ponta no filme. Bob foi atendido pelo diretor e contratado. O diretor era Stanley Kubrick. O filme, "2001: Uma Odisseia no Espaço".
O nome de Bob Nadkarni está nos créditos de "2001". Ele ainda trabalhou em outros filmes antes de vir parar no Rio, onde está há 30 anos e tem um misto de pousada e centro cultural, chamado The Maze, no morro Tavares Bastos, no Catete. Em 1966, estava no lugar certo, na hora certa.
Outro jovem, Luís Fernando Verissimo, 22 anos em 1959, flanava certa noite por Roma quando ouviu um alarido anormal da multidão perto da fonte de Trevi. Foi ver o que era -e viu: Federico Fellini filmando a sequência em que Anita Ekberg entra vestida na água e é seguida por um hipnotizado Marcello Mastroianni, em "A Doce Vida".
Mas nada supera o acaso que bafejou o futuro intelectual russo radicado em São Paulo, Boris Schnaiderman, hoje com 93 anos. Em 1925, Boris tinha 8 anos, morava em Odessa, na Rússia, e estava brincando nas imediações de uma escadaria. De repente, quase foi atropelado por um carrinho de bebê. Estava sendo testemunha da filmagem, por Eisenstein, da sequência da escadaria em "Encouraçado Potemkim". Era a história, sem aviso, passando diante de seus olhos.
Algumas pessoas têm estrela.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Metafísica sem Deus (por e-mail)

Interessante a matéria da Ilustríssima de 30 de janeiro.

Veja em http://hemeroteca-fauth.blogspot.com/



 

teste

Testando postagem por e-mail

Wallace Fauth
http://fauth.blogspot.com/

 

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Tinta complica restauro de painéis de Portinari



Estive no Rio de Janeiro e, dentre as dezenas de atividades culturais das quais eu queria participar, fui à exposição dos painéis de Portinari no Teatro Municipal. Nunca havia entrado ali e foi ótima a oportunidade, pois houve (e ainda há) um trabalho imenso de restauração. A sensação é entrar em um prédio novíssimo, mas com o gosto e a moda das primeiras décadas do século XX. Os painéis ocupavam todo o palco e o público pode passar bem próximo. Estão no Brasil para restauração e li, na quinta-feira (2.fev.2011) que foi a pigmentação feita pelo próprio artista que acelerou o surgimento de imperfeições. Pelo que estava escrito na reportagem, “a tinta utilizada na década de 1950  ainda não secou totalmente! Em vez de comprar tinta industrializada, resolveu produzi-la em seu próprio ateliê por razões econômicas (como sempre!). Os técnicos em restauração dizem que das duas, uma: ou Portinari utilizou em excesso um tipo de resina para diluir a tinta, ou... (causa mais provável, conhecendo a malandragem), as tintas, vindas a granel da Inglaterra, foram misturadas a uma quantidade maior de óleo pelo revendedor em São Paulo, para aumentar o volume.
Apesar das “razões econômicas”, Portinari não deixou de ser Portinari. Por que se insite na arte? Tenho pra mim, às vezes, que isso é um tipo de doença. Mas... Quem não é doido?

domingo, fevereiro 06, 2011

Nabokov e as borboletas andinas


Vladimir Nabokov apareceu umas três vezes em textos que li neste começo de ano. Dois deles me lembro bem: em Veríssimo e em uma reportagem da Folha sobre Ciência (31.jan.2011)! O autor de Lolita estava certo quanto a uma hipótese a respeito das borboletas: as borboletas dos Andes vieram da Ásia. O autor russo está me perseguindo e acho que vou me render a essa leitura, principalmente em um momento em que se fala muito sobre Pedofilia. Além disso, minha filha completou 12 anos, a idade da personagem que dá título ao livro e que é objeto de paixão de um professor de poesia de quem a menina era enteada. Está havendo muita sincronicidade com relação a esse Nabokov.
Por falar nisso, gostei da idéia do Desafio Literário. Quem participa, torna-se leitor assíduo e, o que é melhor, consegue organizar sua leitura. Depois de ver isso me deu uma vontade de planejar minha leitura para este 2011!

Cantando pela serra do luar

De F E R R E I R A   G U L L A R

Publicado na Folha de S. Paulo de domingo, 23 de janeiro de 2011, não há comentários a fazer, apenas ler e fechar os olhos, cantando...


CANTANDO PELA SERRA DO LUAR
E me pergunto, quando escrevo esta crônica, de que afinal somos feitos, se de matéria ou de memória
NA ABERTURA da exposição comemorativa de meus 80 anos, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, fui surpreendido por um coral de jovens estudantes que, postado na escadaria, à entrada do museu, começou a cantar "O Trenzinho do Caipira". Após o primeiro momento de espanto, passei a cantar com eles, baixinho, claro, pois não desejava ser ouvido; é que não resisti ao impulso de participar daquele momento.
Não havia ali, a meu ver, um homenageado e, sim, uma encantada confraternização.
Mas, por incrível que pareça, enquanto cantava e me confundia com as demais pessoas ali presentes, veio-me uma constatação: a do contraste entre aquele momento e o outro, distante 40 anos, quando pus letra na tocata da "Bachiana nº 2", de Villa-Lobos.
Muita gente conhece a história do "Poema Sujo", escrito por mim em Buenos Aires, em 1975, mas o que constatei, de súbito, nesse momento de confraternização, foi o contraste entre a alegria de agora e o desamparo em que me encontrava naquele apartamento da avenida Honorio Pueyrredón, certo de que o mundo desabava sobre minha cabeça.
Não pretendo me valer desse pretexto para falar de mim mesmo ou do "Poema Sujo", de que a letra do "Trenzinho" é parte. Não é isso. A surpresa me arrebatou, ali, à entrada do museu, diante daqueles meninos e meninas que o cantavam, reacendendo, inesperadamente, em mim, a manhã de maio de 1975, quando, como quem faz a última coisa possível, escrevia aquele poema que, mal sabia eu, iria tornar-se o mais conhecido e traduzido dentre os tantos que escrevi na vida.
Assim foi que, subitamente, estou de volta àquele momento. Estou desgastado e ferido pelos anos de exílio, pelas perdas, pelas decepções e derrotas. A família, os amigos, o Rio de Janeiro, com suas praias e montanhas lilases, estão fora de meu alcance, e não me conformo com isso. É que, então, ali, era apenas um poeta às voltas com um poema que inventava -a única alegria possível.
Agora, em 2010, diante do coral, no hall de entrada do MNBA, o tempo se abre como um abismo e me suga e me atira, outra vez, para 40 anos atrás, naquele instante esvaído no curso da vida, mas que a cantiga do coral me traz de volta, sem que ninguém ali o perceba, cantando que estão ou encantados com o canto, senão eu que, não obstante, continuo a cantar com eles.
O presente é canto vibrante mas, dentro dele, estou eu-outrora, diante da máquina de escrever Lettera 22, inventando o "Poema Sujo". E é nesse momento do poema, quando lembro das viagens de trem que fazia com meu pai, que a "Bachiana nº 2" invade o quarto (a "Bachiana" que, quando ouvi pela primeira vez, me fez lembrar daquelas viagens e que agora, ao contrário, vem trazida pela lembrança delas). E a letra que, durante 20 anos, tentara escrever, sem o conseguir, escrevo-a então em menos de 20 minutos:
"Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar."
A mesma letra que ouço agora na voz dos garotos, nesse começo de noite em dezembro de 2010. Sim, a mesma, mas outra, pois a que ouvia, escrevendo-a, era quase silêncio, murmúrio que se juntava à melodia de Villa-Lobos tocando na vitrola. E me pergunto, agora, quando escrevo esta crônica, de que afinal somos feitos, se de matéria ou de memória. Mas, veja bem, memória não é passado? Ou não é? Tendo a pensar, fora da lógica aparente, que tudo é presente, todo o vivido, só que, em geral, estamos ocupados demais com o agora para nos darmos conta disso.
De qualquer modo, não poderia nunca imaginar, naquela manhã distante, que aquele murmúrio se tornaria canção, que aqueles versos um dia seriam um canto público na voz de meninos e meninas do meu país, décadas depois, numa noite de alegria e comemoração, quando o que foi sofrimento e desespero se apagou para sempre, pois a própria vida, na sua alquimia, os mudou em festa.
"Lá vai o trem sem destino 
Pro dia novo encontrar
Cantando vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar."

Valter Hugo Mãe


Campinas, 06 de fevereiro de 2011
Valter Hugo Mãe, autor português, prefere ser chamado por escrito de valter hugo mãe, em minúsculas. Não há maiúsculas em seu romance. Já em meu romance “amortebeijoparasempre” o narrador, Dimas, ora prefere grafar os nomes próprios com maiúsculas, ora com minúsculas, dependendo da importância que tem o nome próprio no momento em que conta sua história. Valter hugo, segundo a crítica de Marcelo Pen na Folha de S. Paulo, de 22 de janeiro de 2011, usa sintaxe desconexa e “sugestiva” (?). Depois de Joyce, com seu jorro de pensamentos, somente Saramago, ao que parece, conseguiu tamanha inovação linguística. Claro que há o nosso Guimarães Rosa, mas este parece deixar muita coisa cifrada ainda. Saramago consegue subverter a sintaxe e, ao aprender seu modo de narrar, tudo fica claro para o leitor. Rosa já é mais fechado e difícil. O que quero dizer é que essa vontade jovem de mudar a sintaxe, inovar a linguagem, tudo isso me chateia um pouco, pois parece que essas coisas surgem como forma de esconder o fato de a história contada não ser tão boa assim. A forma, nesse caso, pretereria o conteúdo. Nunca li hugo mãe, mas a leitura dessa reportagem me fez pensar nisso. Tive vontade de lê-lo justamente por causa desses pensamentos despertados, uma espécie de preconceito que começa a nascer em mim.
Depois vem outro novo autor português (João Tordo), na mesma página, sob crítica de Adriano Schwartz. Segundo o professor de literatura da USP, o romance “As Três Vidas é um daqueles casos claros em que a ambição de centenas de páginas conspira contra o resultado”. Fico imaginando se o autor escreveu tantas páginas por ambição. Eu, particularmente, não acredito nessa ambição. O que pode ter havido, caso haja excesso, é um falso julgamento, por parte do autor, da necessidade de tantas palavras. Às vezes escrever é tão bom que a gente esquece que pode haver leitores. É um relacionamento engraçado esse de autor e leitor. A única coisa concreta que existe entre os dois é o objeto livro, ou melhor, a palavra escrita, pois nem o escritor é a pessoa que o leitor talvez idealize, nem o leitor é um ser único. E as palavras, apesar de estarem ali, provadas cientificamente como existentes naquela sequência, não querem dizer absolutamente nada de concreto – em se tratando, obviamente, de uma obra literária – pois o que se quer transmitir e o que se entende estão em ambientes improváveis. Assim, o escritor esforça-se para tentar mostrar algo que está além da superfície e o leitor, conhecedor das profundidades dos icebergs, busca avidamente saber, e deleita-se quando descobre, se alguém também percebe essa suprarrealidade. 

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Por que escrevo?

Texto original aqui: http://www.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=1342530 

¿Por qué escribimos?

Para entender. Para amar. Para que nos quieran. Para saber. Por necesidad. Por dinero. Por costumbre. Para vivir otras vidas y revivir la propia. Para dar testimonio. Cincuenta escritores tratan de contestar esta pregunta incómoda

Viernes 21 de enero de 2011 | Publicado en edición impresa 

Por Jesús Ruiz Mantilla
EL PAIS - GDA
Algunos llegaron a la literatura por vocación, por el placer de la lectura y para emular a los autores que admiraban. Ahora crean por necesidad vital, o simplemente lo hacen por dinero. Autores de renombre revelan los motivos por los que dedican sus vidas a la escritura.
En el principio fue el verbo... Así lo recoge San Juan en su Evangelio. La palabra que conforma el mundo, el nombre que lo explica todo. Puede que no fuera tal, puede que antes del verbo existieran cielos, mares, noche, día, estrellas, firmamento. Pero si nadie sabía cómo nombrarlos, no eran nada, absolutamente nada. Así que al principio fue el verbo, como bien dejó escrito Juan. Y a ese verbo bíblico lo siguieron la épica de Homero, la intemperie y el poder de los dioses, el amor y la guerra que nos relata la Ilíada y, después, el delirio del Quijote, y luego, la soledad de Macondo.
Puede que después de episodios narrados como aquéllos no hiciera falta nada más. Pero a los clásicos, que montaron todos los cimientos del templo, siguieron más generaciones -"el eslabón en la cadena ininterrumpida de la tradición", de la que alerta Enrique Vila-Matas-, algunas nuevas preguntas para cada era, nuevos problemas y, por lo tanto, conceptos nuevos, palabras nuevas. Detrás de su registro se escondía un escritor. ¿Por qué?
¿Por qué escribir? ¿Para qué nombrar? ¿Para qué contar? Para entender. Para amar y que te amen. Para saber, para conocer. Por miedo, por necesidad, por dinero. Para sobrevivir, porque no todo el mundo sabe bailar el tango, ni jugar bien al fútbol. Por costumbre, para matar la costumbre, por vivir otras vidas y revivir la propia. Por dar testimonio, porque no se sabe escribir bien, confiesa John Banville. Porque leyeron, padecieron y miraron cara a cara a la muerte.
Porque el verbo provoca desasosiego en Nélida Piñón; porque no se elige, como un amor, añade Amélie Nothomb. Por ser el masoquista que uno lleva dentro, aduce Wole Soyinka; por los arroyos y los torrentes de los libros leídos, cuenta Fernando Iwasaki; como forma de existencia, según Elvira Lindo. "Una manera de vivir", dice Vargas Llosa, parafraseando a Flaubert. Para sentirse vivo y muerto, proclama Fernando Royuela. Igual que uno respira, suelta entre interrogaciones Carlos Fuentes. O para sobrevivir a ese fin, "a la necesaria muerte que me nombra cada día", testimonia Jorge Semprún.
La escritura es dolor y placer. Como el cuento, como la retórica aristotélica, se arma, se aprende. Principio y fin. Antes que nada vino el verbo, lo deja claro San Juan. También lo sabía Kafka. Pero el escritor checo pregunta: "¿Y al final?". Quizás silencio, como interpreta sobre su obra George Steiner, con buen tino, oliéndose el apocalipsis de la destrucción europea.
Como testimonio también se mete uno entre papeles. Se escribe por el mismo motivo por el que Ana Frank comenzó a organizar su diario. O por el que la poeta rusa Anna Ajmatova, cuando se pasó 17 meses en las filas de las cárceles de Leningrado para ver a su hijo, respondió a una mujer que la reconoció y le preguntó si podría describir aquello que sí, que lo haría. "Entonces -dice Anna en Réquiem -, una especie de sonrisa se deslizó por lo que alguna vez había sido su rostro." Eso fue suficiente motivo. La emoción de la verdad, la justicia de dejar constancia. Para que otros quizás lo aplicaran a su presente, para que no se repitiera.
Pero Anna Ajmatova confesó, además, que escribía por sentir un vínculo con el tiempo. También se lo hizo por amor, por miedo al amor, por desgarro. En honor a las musas, como Shakespeare, "ese goloso de las palabras", a juicio de Steiner, en sus sonetos: "Mi musa por educación se muerde la lengua y calla mientras se compilan/ elogios que te visten de oropeles/ y frases que las otras musas liman". Una pieza que termina con toda una declaración de intenciones y una respuesta al gran asunto de la escritura: "Si a otros por sus dichos los respetas/ a mí, por lo que pienso, que es mi letra".
Al principio fue el verbo. Pero Cervantes y Shakespeare lo enaltecieron, lo igualaron a la medida de Dios. Porque exploraron todos los delirios y las pasiones de sus criaturas. ¿Por qué escribir? Para emularlos, sin más. Podría ser. "Para parecerme a Espronceda", como suelta Caballero Bonald. Escribir porque se medita, como Descartes, como Chesterton, cuya obra nos envuelve en una paradoja sin fin. Para adentrarse en los laberintos y no necesariamente querer salir de ellos, como Borges. "Porque estamos aquí, pero querríamos estar allí", dice Antonio Tabucchi. Por emular la infancia, cuando la niña Almudena Grandes enmendaba la plana a los finales que no le gustaban. Por volver a inventar historias de indios, vaqueros y pitufos, dice David Safier. Porque a la hora de hacerlo, "disfrutar es una palabra que se queda corta", confiesa Ken Follet.
Para fijar la memoria, una forma de "hacer surgir los recuerdos y las imágenes", cuenta Álvaro Pombo. Para volver a vidas anteriores, a las lecturas y los tumbos que cada uno lleva en la mochila, según Arturo Pérez-Reverte. Como vicio solitario, describe Héctor Abad Faciolince. Porque uno no se encuentra bien, asegura Juan José Millás. Por afición o por aflicción, dice Gonzalo Hidalgo Bayal. O porque le gustaban las redacciones en el colegio, como descubrió Antonio Muñoz Molina. Y hasta hoy.
La palabra es agua y cada historia, el río que las lleva. El escritor es quien domina la corriente, como hicieron Balzac, Dostoyevski, Dickens, Galdós, Clarín, Flaubert, Tolstoi, que siguió la estela épica de Homero como nadie. O el que va contra la corriente, como Marcel Proust, James Joyce, Valle-Inclán. Sin dudas, hay que enfrentarse a ello, como dice Josep Pla en su Diccionario de Literatura , "con temperamento". O con el empeño de conocerse, a la manera de Montaigne y los grandes memorialistas posteriores del siglo XVIII. Entre la verdad y la exageración, pero con talento, como Casanova.
El juego, la tortura de la palabra, también es lícito. Pero eso es más cometido de los poetas, como admitía Jaime Gil de Biedma. Para él, escribir era "erosionar el idioma en la forma en que el idioma lo admite". Es decir, maltratar el verbo, fustigarlo, estrangularlo. Pero para resucitarlo después, como el Evangelio. A lo largo de la historia, el escritor ha visto crecer Babel y ha contribuido a entenderla. Pero hubo también un tiempo, en el siglo XX, que lo aniquiló, que se arrojó al apocalipsis, con la Segunda Guerra Mundial. Disfrutemos en esta nueva era. Todos los motivos, todas las respuestas que se les ocurran a quienes deben contar nuestra historia son válidos.
Héctor Abad Faciolince
Porque mi cerebro se comunica mejor con mis manos que con la lengua. Porque me odio menos escribiendo que hablando. Por un ameno vicio solitario.
John Banville
Escribo porque no sé escribir. Un periodista le preguntó a Gore Vidal por qué había escrito Myra Breckinridge , a lo que contestó: "´Porque no estaba ahí"´. Fue una buena respuesta. Poner algo nuevo en el mundo es un privilegio que no se le concede a mucha gente.
Felipe Benítez Reyes
No sé por qué escribo, ni tampoco tengo demasiado interés en saberlo. En este caso, me preocupa más el cómo que el porqué. La pregunta me parece ociosa, de modo que cualquier respuesta posible no pasaría de ser una pirueta truculenta en el vacío. Aunque -quién sabe- a lo mejor escribe uno para eso: para obtener respuestas sin el requisito de una pregunta previa y, sobre todo, para ensayar piruetas truculentas en el vacío, que es un territorio literario bastante fértil.
John Boyne
Escribo porque las historias entran en mi mente y me niego a irme hasta que no escribo 26 letras en el teclado y las envío a una pantalla ante mis ojos. Escribo por Charles Dickens. Y por George Orwell. Y John Irving. Y Colm Tóibín. Escribo porque me encanta la sensación de tener un libro en mis manos y un libro en mi cabeza. Escribo porque me encantan las palabras. Escribo porque leo. Escribo porque siempre quiero saber qué ocurrirá a continuación.
José Manuel Caballero Bonald
Empecé a escribir porque quería parecerme a Espronceda. Un día encontré en mi casa familiar una biografía del poeta y quedé fascinado por alguien que murió con 33 años y había vivido grandes aventuras: fundó una sociedad secreta, sufrió persecuciones y cárceles, anduvo exiliado en Lisboa y Londres, combatió en las barricadas de París, fue diputado, vivió amores difíciles, luchó heroicamente contra el absolutismo, etcétera. Pues bien: como yo no podía emular a Espronceda en tantas y tan singulares hazañas, elegí lo que me resultaba más factible: ejercer de insumiso y escribir poesía.
Andrea Camilleri
Escribo porque siempre es mejor que descargar cajas en el mercado central. Escribo porque no sé hacer otra cosa. Escribo porque después puedo dedicar los libros a mis nietos. Escribo porque así me acuerdo de todas las personas a las que tanto he querido. Escribo porque me gusta contarme historias. Escribo porque me gusta contar historias. Escribo porque al final puedo tomarme mi cerveza. Escribo para devolver algo de todo lo que he leído.
Luisa Castro
La escritura para mí es una rendición. Escribo para conocer relatos que me cuento a mí misma. No me siento dueña de mis relatos, tienen vida propia, son autónomos y más poderosos que yo. No me identifico con ellos, no comparto sus ideas, ni su visión del mundo. Se producen en mi cabeza sin mi permiso, y cuando los suelto, es porque me han vencido.
Lucía Etxebarria
Para que me quieran más. Porque cada vez que alguien me dice: "Tus libros me han ayudado mucho, por favor sigue escribiendo", me da una razón para hacerlo. Porque al colocar a personajes en situaciones que simbólicamente pueden representar aspectos de mi vida y conseguir que salgan airosos de ellas, de alguna forma me salvo a mí. Porque siempre lo he hecho, porque es natural en mí, y porque es de las cosas que mejor hago, amén de dibujar, cocinar, hacer el amor y organizar fiestas. Escribo por amor, publico por dinero. Por esa razón, no publico ni la mitad de lo que escribo.
Umberto Eco
Porque me gusta.
Ken Follet
Disfruto escribiendo, pero "disfrutar" es una palabra que se queda corta. El acto de escribir me apasiona. Todo forma parte del reto de hechizar a mis lectores. Mi trabajo me absorbe de forma total.
Carlos Fuentes
¿Por qué respiro?
Almudena Grandes
Cuando era pequeña y leía un libro que me gustaba mucho, me inventaba a solas, para mí sola, otro final, la continuación que su autor no había querido escribir. Todavía ahora, cuando no puedo dormir, me cuento historias, las pienso, las repaso, las describo en silencio, con los ojos cerrados, hasta que me quedo dormida.
Mark Haddon
Ficción, poesía, teatro, pintura, dibujo, fotografía... en realidad eso no importa. Un día que no consigo hacer alguna cosa, por pequeña que sea, me parece un día desperdiciado. A veces puede parecer una bendición ser así, saber con tanta certeza lo que quiero hacer, pero a menudo es un sufrimiento, porque saber lo que quieres no es lo mismo que saber cómo hacerlo. ¿Por qué escribo? La única respuesta es "porque no puedo hacer otra cosa".
Gonzalo Hidalgo Bayal
"Por afición, por aflicción", escribí alguna vez. Por afición, porque es inclinación, necesidad, perseverancia y distracción. Por aflicción, porque sólo el dolor y sus numerosas circunstancias proporcionan suficiente materia literaria. En la afición se centra la relación con el lenguaje, que es, cuanto más intensa, más grata y divertida. La aflicción obliga, en cambio, a la búsqueda del sentido, si es que algún sentido tienen las desventuras de los hombres.
Fernando Iwasaki
Escribo porque es el más poderoso acto libertario que conozco. Escribo porque el hechizo de la literatura es fulminante y a mí me hace ilusión ser aprendiz de aquellas magias. Escribo porque mis padres y mis hijos se alegran cada vez que alguien les cuenta que ha leído algo mío. Escribo porque contar historias es el oficio más antiguo del mundo. Escribo porque dedico todos los libros de ficción a mi mujer y así -mientras siga escribiendo- ella sabrá que la sigo queriendo.
Use Lahoz
Escribo para reflexionar y pensar y darle vueltas a la vida de personajes siempre más interesantes que la mía. Y disfrutar del placer de la ficción, que es adictivo y que, como la realidad, no tiene límites. Escribo por supuesto para combatir el aburrimiento y pasarlo en grande. Para un escritor vivir, fundamentalmente, es escribir. Escribo para estar en paz conmigo mismo, por aquello que decía Machado de "yo vivo en paz con los hombres y en guerra con mis entrañas". Escribo porque conmueve y perdura, cada novela es la primera. Además es bastante barato. En fin: escribo porque aprendo, y así, a veces, parece que sigo estudiando.
Donna Leon
Al principio escribía para ver si podía hacerlo. Resultó que escribir un libro era muy divertido. Y por eso ahora, después de 20 años y de 20 libros, lo hago porque es divertido. Los personajes hacen lo que les digo que hagan; la realidad se puede cambiar para adaptarla a mis necesidades; si alguien muere, lo puedo resucitar al día siguiente. Supongo que también hay un elemento de vanidad. En una cena, todos queremos que presten atención a nuestras ideas, ¿no es cierto? Pero los buenos modales mandan que compartamos la conversación con los demás. Pero en un libro, nuestro libro, nosotros los escritores podemos seguir -bla, bla, bla- sin parar, y nunca tenemos que interrumpirnos para dejar hablar a nadie más.
Elvira Lindo
Escribo desde los nueve años. Desde muy joven empezaron a pagarme en la radio por guiones, cuentos y sketches . A los 31 años comencé a escribir libros. Pensé que escribir era mi oficio hasta que me di cuenta de que se trataba de algo más. Es un oficio pero también una forma de vida. No sabría vivir sin escribir. Todo lo que hago al cabo del día, lo que veo y escucho, lo que me provoca asombro, alegría o desdicha es material para ser contado. Y esa actitud vital, la de formar parte de la comedia humana pero la de ser también espectadora de ella, ese estar fuera y dentro a la vez, me ayuda a asimilar la experiencia de una manera enriquecedora. Escribo todos los días. Cuando no escribo, me siento una inútil, así que he llegado a una conclusión radical: nunca podré dejarlo. No sé hacer otra cosa, no sabría vivir de otra manera.
Alberto Manguel
Porque no sé bailar el tango, tocar un instrumento musical como la celesta o el glockenspiel, resolver problemas de matemáticas superiores, correr una maratón en Nueva York, trazar las órbitas de los planetas, escalar montañas, jugar al fútbol, jugar al rugby, excavar ruinas arqueológicas en Guatemala, descifrar códigos secretos, rezar como un monje tibetano, cruzar el Atlántico en solitario, hacer carpintería, construir una cabaña en Algonquin Park, conducir un avión a reacción, hacer surf, jugar a complejos videojuegos, resolver crucigramas, jugar al ajedrez, hacer costura, traducir del árabe y del griego, realizar la ceremonia del té, descuartizar un cerdo, ser corredor de Bolsa en Hong Kong, plantar orquídeas, cosechar cebada, hacer la danza del vientre, patinar, conversar en el lenguaje de los sordomudos, recitar el Corán de memoria, actuar en un teatro, volar en dirigible, ser cineasta y hacer una película en blanco y negro, absolutamente realista, de Alicia en el País de las Maravillas , hacerme pasar por un banquero respetable y estafar a miles de personas, deleitarme con un plato de tripas à la mode de Caën , hacer vino, ser médico y viajar a un lugar devastado por la guerra y tratar con gente que ha perdido un brazo, una pierna, una casa, un hijo, organizar una misión diplomática para resolver el problema del Medio Oriente, salvar náufragos, dedicar treinta años al estudio de la paleografía sánscrita, restaurar cuadros venecianos, ser orfebre, dar saltos mortales con o sin red, silbar, decir por qué escribo.
Javier Marías
Escribo para no tener jefe ni verme obligado a madrugar. También porque no hay muchas más cosas que sepa hacer, y lo prefiero y me divierte más que traducir o dar clases, que al parecer sí sé hacer. O sabía, son actividades del pasado. También escribo para no deberle casi nada a casi nadie ni tener que saludar a quienes no deseo saludar. Porque creo que pienso mejor mientras estoy ante la máquina que en cualquier otro lugar y circunstancia. Escribo novelas porque la ficción tiene la facultad de enseñarnos lo que no conocemos y lo que no se da, como dice un personaje de la novela que acabo de terminar. Y porque lo imaginario ayuda mucho a comprender lo que sí nos ocurre, eso que suele llamarse "lo real". Lo que no hago es escribir por necesidad. Podría pasarme años tan tranquilo, sin escribir una línea. Pero en algo hay que ocupar el tiempo, y algún dinero hay que ganar. También escribo para eso.
Luisgé Martín
Cuando escucho a algún escritor explicar las razones por las que escribe, pienso que yo también comparto esas razones. Todas. Me siento como un compendio, como uno de esos hipocondríacos que encuentran en sí mismos todos los síntomas de los que oyen hablar. Escribo como terapia psíquica, para ordenar el mundo y comprenderlo, para vivir vidas que no he podido vivir. Pero hace poco, leyendo el discurso de Pamuk en la Academia Sueca cuando recibió el Nobel, encontré una razón que nunca había escuchado así formulada y que me parece formidable: "Escribo porque puede que así comprenda la razón por la que estoy tan, tan enfadado con ustedes, con todo el mundo".
Luis Mateo Díez
Escribo para disimular la incapacidad de hacer cualquier otra cosa. Escribir no sólo me entretiene, también me apasiona y me hace sentir dueño de algo que se contrapone en mi existencia a una cierta inclinación de inutilidad. Los días en que me quedo satisfecho con lo que acabo de escribir tengo la convicción de no haber perdido el tiempo.
Eduardo Mendicutti
También a mí, como a Vargas Llosa, me dicen montones de veces que lo único que sé hacer es escribir. A lo mejor por eso acabarán dándome el Nobel. Para todo lo demás, estoy convencido, soy un desastre: para poner ladrillos, para cultivar tomates, para imponer el orden, para correr a pie o en bicicleta, aunque sea dopado, para condenar a delincuentes -con lo que a mí me gustan algunos delincuentes- sin que se me parta el corazón, o para defenderlos sin contagiarme... Cierto que, desde hace 30 años, soy bastante bueno como secretario general de una patronal de empresas consultoras, pero con algo tengo que redimirme. Claro que, según algún crítico y algunos colegas, puede que también para escribir sea una calamidad, pero de eso aún no he llegado a convencerme.
Eduardo Mendoza
Sinceramente, no lo sé. No es una respuesta bonita, pero es la que más se aproxima a la verdad.
Ricardo Menéndez Salmón
Escribo por insatisfacción. Si estuviera satisfecho, me limitaría a "vivir la vida", no a intentar comprenderla mediante la escritura. Claro que al intentar comprenderla, es decir, al escribirla, me doy cuenta de que en realidad la vida resulta incomprensible. Lo cual genera una nueva insatisfacción, la de comprobar que el intento por comprender la vida mediante la literatura lo único que ilumina es la imposibilidad de alcanzar esa comprensión. Pero entonces sucede algo curioso, y es que el hecho de descubrir esa imposibilidad me conmueve, admira e impulsa a escribir más y más.
Juan José Millás
Escribo por las mismas razones por las que leo: porque no me encuentro bien.
Rosa Montero
Escribo porque no puedo detener el constante torbellino de imágenes que me cruza la cabeza, y algunas de esas imágenes me emocionan tanto que siento la imperiosa necesidad de compartirlas. Escribo para tener algo en qué pensar cuando, en la soledad tenebrosa de la duermevela, por la noche, en la cama, antes de dormir, me asaltan los miedos y las angustias. Escribo porque mientras lo hago estoy tan llena de vida que mi muerte no existe: mientras escribo, soy intocable y eterna. Y, sobre todo, escribo para intentar otorgar al Mal y al dolor un sentido que en realidad sé que no tienen.
Luis Muñoz
Creo que puedo distinguir razones de tipo general y razones particulares. Entre las particulares: por darle forma a una emoción concreta, por hacerle un hogar de palabras a uno de esos pensamientos que uno cree que pueden ser salvadores, por ser vulnerable al contagio de otro poema que creo admirable y hacerme la ilusión de que puedo responderle, conversar con él o seguir alguno de sus hilos sueltos. Entre las generales, por querer sentir mi tiempo, el rabioso presente, en el lenguaje; por estar enamorado de la capacidad de las palabras para volver a decir la verdad, por el sentimiento de libertad que produce, por darles forma a seres informes: embriones de voces, sentimientos, sensaciones, ideas...
Antonio Muñoz Molina
Creo que nunca he pensado mucho en por qué escribo, salvo cuando me han hecho esa pregunta y he tenido que improvisar una respuesta que sonara convincente. Escribo, sobre todo, porque me gusta mucho hacerlo, y me ha gustado casi desde que tengo recuerdos. Me gustaba inventar cuentos, escribirlos y dibujarlos cuando era niño. Me gustaba escribir redacciones en la escuela. Luego empecé a leer novelas de aventuras y me enteré de que todas ellas tenían un autor, que solía ser Julio Verne, y por primera vez me imaginé practicando ese oficio. Después me aficioné a leer poesía y por imitación me puse a escribir versos, siempre muy malos. Cuando tuve una máquina de escribir, se me iban las tardes improvisando lo que fuera, por el puro gusto de golpear las teclas: diarios, poemas, obras de teatro. Escribo por gusto y porque me gano la vida escribiendo. Algunas veces disfruto mucho y otras preferiría estar haciendo cualquier otra cosa. Pero en ocasiones en que me he puesto a escribir contra mi voluntad y casi a la fuerza he encontrado cosas que de otra manera no se me habrían ocurrido. También escribo por quitarme la mala conciencia de no haber escrito, o para tener el alivio de haberlo hecho. Me puedo imaginar no publicando, al menos durante largos períodos, pero no me imagino no escribiendo. En el fondo es un vicio, un hábito cotidiano, o una manera de estar en el mundo, como tener afición por la lectura o por la música.
Julia Navarro
Para mí, escribir es una oportunidad de vivir otras vidas, pero también de asumir compromisos, aunque a veces vayan envueltos con el papel del entretenimiento.
Andrés Neuman
Escribo porque de niño sentí que la escritura era una forma de curiosidad e ignorancia. Escribo porque la infancia es una actitud. Escribo porque no sé, y no sé por qué escribo. Escribo porque sólo así puedo pensar.
Amélie Nothomb
Me preguntan por qué elegí escribir. Yo no lo elegí. Es igual que enamorarse. Se sabe que no es una buena idea y uno no sabe cómo ha llegado ahí, pero al menos hay que intentarlo. Se le dedica toda la energía, todos los pensamientos, todo el tiempo. Escribir es un acto y al igual que el amor, es algo que se hace. Se desconoce su modo de empleo, así que se inventa porque necesariamente hay que encontrar un medio para hacerlo, un medio para conseguirlo.
Arturo Pérez-Reverte
Escribo porque hace 25 años que soy novelista profesional, y vivo de esto. Es mi trabajo. Igual que otros pasan en la oficina ocho horas diarias, yo las paso en mi biblioteca, rodeado de libros y cuadernos de notas, imaginando historias que expliquen el mundo como yo lo veo, y llevándolas al papel a golpe de tecla. Procuro hacerlo de la manera más disciplinada y eficaz posible. En cuanto a la materia que manejo, cada cual escribe con lo que es, supongo. Con lo que tiene en los ojos y la memoria. Muchas cosas no necesito inventarlas: me limito a recordar. Fui un escritor tardío porque hasta los 35 años estuve ocupado viviendo y leyendo; pateando el mundo, los libros y la vida. Ahora, con lo que eché en la mochila durante aquellos años, narro mis propias historias. Reescribo los libros que amé a la luz de la vida que viví. Nadie me ha contado lo que cuento.
Nélida Piñón
Yo escribo porque el verbo provoca en mí desasosiego, afila los mil instrumentos de la vida. Y porque, para narrar, dependo de mi creencia en la mortalidad. Con la fe en que una historia bien contada me arrebate las lágrimas. Sobre todo cuando, en medio de la exaltación narrativa, menciona amores contrariados, despedidas hirientes, sentimientos ambiguos, despojados de lógica. Escribo, en conclusión, para ganar un salvoconducto con el que deambular por el laberinto humano.
Álvaro Pombo
Pienso en el pequeño cementerio de Londres, a unos diez minutos a pie de Paddington Green, donde robé un perro feo, de cemento, del sepulcro de una dama ahí enterrada. Al venir a Madrid, abandoné ese perro a su suerte. Escribir esto, ¿es escribir, o no? Es, desde luego, un modo de hacer surgir los recuerdos y las imágenes distinto del modo normal: un modo prefabricado, que desea causar un efecto imborrable al menos en mi alma y luego en la de un lector o un millón, si es posible. Y también es un intento de expresar el ser, el Dios, en la claridad del ser-ahí que era yo en aquel entonces, al borde de la nada.
Benjamín Prado
Yo escribo para divertirme, para entretenerlos, para aprender, para enseñarles, para que sea cierto que "escribir es soñar y que otros lo recuerden al despertar", para que no me olviden, para que no nos callen y, en primer lugar, porque no podría no hacerlo.
Soledad Puértolas
Las alegrías de la vida te desbordan. El dolor y la pérdida te superan y hunden. El tedio y la monotonía pueden resultar aniquiladores. Cuando escribo, estoy fuera de esa realidad. He entrado en otra donde sí es posible buscar un sentido, incluso vislumbrarlo. La soledad, que tantas veces se ha hecho insoportable, se hace ligera y deseable. El estado perfecto. Hay metas, humanidad, sentidos. Hasta cabe la risa, el gran regalo.
Santiago Roncagliolo
Debería decir que escribo porque no sé hacer nada más, pero intentaré una respuesta más profunda: creo que la realidad no tiene ningún sentido. Las cosas pasan a tu alrededor de una manera errática, a menudo contradictoria, y un día te mueres. Las cosas en que creías dejan de ser ciertas de un momento a otro. En cambio, las novelas tienen un principio, un medio y un desenlace. Los personajes se dirigen hacia algún lugar, la gloria, la autodestrucción o la nada, y sus acciones tienen consecuencias en ese camino. Escribo historias para inventar algo que tenga sentido.
Fernando Royuela
Escribo para seducir, para subvertir, para sentirme vivo y muerto, para llorar, amar y maldecir. Escribo para no tener que aguantarme, para negar el mundo, para huir. Escribo porque me da la gana y me lo puedo permitir.
David Safier
¿Se acuerda de cuando era niño y jugaba, inventando historias disparatadas con figuritas de indios, vaqueros o pitufos? ¿O simplemente imaginando en la bañera que era el capitán de un barco pirata que buscaba un tesoro en medio de la tormenta? ¿Se acuerda de cómo se sentía cuando jugaba con otros niños en la calle y vivían increíbles aventuras haciendo de exploradores, cazadores o agentes secretos; luchando contra dinosaurios, monstruos o supermalos que querían destruir la tierra con rayos mortales? Pues bien, todo eso es lo que yo hago todavía. Jugar con mi imaginación. Cada día de mi vida. Y lo seguiré haciendo hasta que me muera. O me vuelva loco.
Jorge Semprún
Si lo supiera, tal vez no escribiría. Quiero decir, si lo supiera con certeza, si a cada momento pudiese proclamar taxativamente, sin vacilar, por qué escribo, y para qué, para quién o quiénes; si así fuera, tal vez no escribiría. O sea que escribo, en cierta medida, para encontrar respuestas al porqué. Escribir no es un acto reflejo, ni una función natural. No se escribe como se come o se ama. No se agota en el hecho de escribir el portentoso, o doloroso, o lo uno y lo otro, milagro de la escritura. No se agota, al escribir, el deseo inagotable de la escritura. Tal vez porque sea ésta la mejor forma de sobrevivir. ¿Por qué escribo? Tal vez para sobrevivir a la muerte, la necesaria muerte que me nombra cada día.
Wole Soyinka
Hace varios años, participé en esta misma experiencia con el periódico francés Libération . En aquella ocasión contesté: "Supongo que por el ser masoquista que llevo dentro de mí". Desde entonces, no he tenido ningún motivo para cambiar mi respuesta.
Antonio Tabucchi
Preferiría formular la pregunta así: ¿Por qué se escribe? Hace tiempo, cuando era joven, escuché a Samuel Beckett responder: "No me queda otra". Las respuestas posibles son todas plausibles pero con signo de interrogación. ¿Escribimos porque tememos a la muerte? ¿Porque tenemos miedo de vivir, porque tenemos nostalgia de la infancia, porque el tiempo pasado corrió deprisa o porque queremos detenerlo? ¿Escribimos porque a causa de la añoranza sentimos nostalgia, arrepentimiento? ¿Porque querríamos haber hecho una cosa y no la hicimos o porque no deberíamos haber hecho algo que hicimos? ¿Por qué estamos aquí y queremos estar allá y si estuviéramos allá nos hubiese resultado mejor quedarnos aquí? Como decía Baudelaire, la vida es un hospital donde cada enfermo quiere cambiar de cama. Uno piensa que se curaría más deprisa si estuviera al lado de la ventana y otro cree que estaría mejor junto a la calefacción.
Andrés Trapiello
Lo natural es hablar, incluso cantar, pero no escribir. Poner las palabras por escrito en un libro es, decía Unamuno, una "tragedia del alma", y acaso se escriba por miedo a quedarse uno a solas con su dolor, como si escribir fuese un remedio, y no un veneno. Así lo siento yo también.
Kirmen Uribe
En noviembre de 2007 tuve la suerte de asistir como escritor invitado a la clase de escritura creativa de Anthony MacCann, en el CalArts de Los Ángeles. Anthony me contó que los mejores de cada promoción son fichados por las grandes productoras para trabajar como guionistas de series de televisión. Se hacen ricos. Los "peores", por el contrario, se dedican a la poesía. A mí me encanta quedarme solo y escribir. "Un solitario impulso de delicia" me lleva a escribir, como decía Yeats en su poema "Un aviador irlandés prevé su muerte". Disfruto casi tanto como los "peores" de CalArts, que, tumbados en el césped del campus con un libro en las manos, levantaban la mirada para ver pasar las nubes. Yo, en la clase de Anthony, sería, sin duda, del grupo de los poetas.
Mario Vargas Llosa
Escribo porque aprendí a leer de niño y la lectura me produjo tanto placer, me hizo vivir experiencias tan ricas, transformó mi vida de una manera tan maravillosa que supongo que mi vocación literaria fue como una transpiración, un desprendimiento de esa enorme felicidad que me daba la lectura. En cierta forma la escritura ha sido como el reverso o el complemento indispensable de esa lectura, que para mí sigue siendo la experiencia máxima, la más enriquecedora, la que más me ayuda a enfrentar cualquier tipo de adversidad o frustración. Por otra parte, escribir, que al principio es una actividad que incorporas a tu vida con otros, con el ejercicio se va convirtiendo en tu manera de vivir, en la actividad central, la que organiza absolutamente tu vida. La famosa frase de Flaubert que siempre cito: "Escribir es una manera de vivir". En mi caso ha sido exactamente eso. Se ha convertido en el centro de todo lo que yo hago, de tal manera que no concebiría una vida sin la escritura y, por supuesto, sin su complemento indispensable, la lectura.
Juan Gabriel Vásquez
Escribo porque me irrita y me entristece el desorden del mundo, y descubrí hace mucho tiempo que en la buena ficción el mundo tiene un orden o su desorden tiene un sentido. Escribo porque mi inteligencia es limitada y sólo soy capaz de entender lo que viene en palabras. Escribo, por lo tanto, porque no entiendo o porque ignoro: "escribe sobre lo que conoces" me parece el consejo más idiota del mundo, porque se escribe, precisamente, para conocer.
Manuel Vicent
Si esta pregunta se me hubiera formulado hace muchos años, cuando empecé a escribir, mi respuesta habría sido más romántica, más literaria, más estúpida. Probablemente habría contestado que escribía para crear un mundo a mi imagen, para poder leer el libro que no encontraba en mi biblioteca, para no suicidarme, para enamorar a una niña, para influir en la sociedad o tal vez cínicamente porque no servía para nada más, ni siquiera para arreglar un enchufe. Sin olvidar lo que este oficio tiene de vanidad y de narcisismo, a estas alturas de la profesión creo que escribo porque es un trabajo que me gusta, que unas veces me sale bien y otras mal, pero en cualquier caso la literatura ya forma parte de un mismo impulso vital que me sirve para sentirme a gusto todavía en este mundo, sin que espere gran cosa de su resultado.
Enrique Vila-Matas
Ah, ya veo, vuelve la vieja y pérfida pregunta. Pero también podrían ustedes preguntarme por qué acabo de hacer un moño en mis zapatos, y por qué no me he contentado con un nudo que, para el caso, me habría servido igual. En algún tiempo remoto, un antepasado hizo el primer moño. Nosotros no somos más que sus imitadores, un eslabón en la cadena ininterrumpida de la tradición. De modo que a quien habría que preguntarle por qué escribo es a ese antepasado, preguntarle por qué quiso ir más allá del nudo.
Juan Eduardo Zúñiga
El jardincillo parece envejecido con los fríos de noviembre y el suelo está cubierto de las hojas caídas de una acacia. Dejo de mirarlo desde la ventana, estoy solo en el cuarto vacío donde tengo los juguetes y los cuentos, en las paredes sujetas con chinchetas hay dos láminas referentes a un país extranjero y extranjero es el autor de un libro que cojo, y me aprendo su nombre: Michel Zevaco. Leo el final del segundo capítulo: un hombre busca sin parar en un cofre lleno de joyas y no encuentra lo más importante para él. Me extraña esto ¿más valioso que joyas? Tengo al lado un cuaderno y lápiz, sin pensar escribo: "Él buscaba algo entre las joyas..." y sigo escribiendo, sigo así hasta hoy.