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sábado, fevereiro 19, 2011

World Press Photo 2011

Concurso internacional de fotografia. Veja as fotos vencedoras aqui: http://www.folha.com.br/fg2140.
São fotos jornalísticas, portanto aparecem tragédias mundiais recentes.
A que eu mais gostei, por parecer uma pintura, foi a fotografia das vítimas de enchentes brigando por comida distribuída por helicóptero do Exército do Paquistão. Feita por Daniel Berehulak, a imagem ganhou o primeiro prêmio da categoria "Pessoas nas Notícias - Reportagens".

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Pessoas com estrela

RUY CASTRO

fonte: FOLHA DE S. PAULO de 11 de fevereiro de 2011

RIO DE JANEIRO - Em 1966, em Londres, um jovem, Bob Nadkarni, aspirante a escultor, ia tomar o ônibus que o levaria à escola de belas artes onde trabalhava como professor. Pregado no poste, havia um anúncio: "Precisa-se de escultor de miniaturas de naves espaciais para filme de science-fiction. Apresentar-se no estúdio tal".
Por acaso, parou no ponto um ônibus que ia naquela direção e, sem pensar, Bob o tomou -significava trocar o emprego na escola por talvez nada. Quando chegou ao endereço, um homem fantasiado de macaco cumprimentou-o. Era um amigo e disse que a fantasia era para uma ponta no filme. Bob foi atendido pelo diretor e contratado. O diretor era Stanley Kubrick. O filme, "2001: Uma Odisseia no Espaço".
O nome de Bob Nadkarni está nos créditos de "2001". Ele ainda trabalhou em outros filmes antes de vir parar no Rio, onde está há 30 anos e tem um misto de pousada e centro cultural, chamado The Maze, no morro Tavares Bastos, no Catete. Em 1966, estava no lugar certo, na hora certa.
Outro jovem, Luís Fernando Verissimo, 22 anos em 1959, flanava certa noite por Roma quando ouviu um alarido anormal da multidão perto da fonte de Trevi. Foi ver o que era -e viu: Federico Fellini filmando a sequência em que Anita Ekberg entra vestida na água e é seguida por um hipnotizado Marcello Mastroianni, em "A Doce Vida".
Mas nada supera o acaso que bafejou o futuro intelectual russo radicado em São Paulo, Boris Schnaiderman, hoje com 93 anos. Em 1925, Boris tinha 8 anos, morava em Odessa, na Rússia, e estava brincando nas imediações de uma escadaria. De repente, quase foi atropelado por um carrinho de bebê. Estava sendo testemunha da filmagem, por Eisenstein, da sequência da escadaria em "Encouraçado Potemkim". Era a história, sem aviso, passando diante de seus olhos.
Algumas pessoas têm estrela.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Metafísica sem Deus (por e-mail)

Interessante a matéria da Ilustríssima de 30 de janeiro.

Veja em http://hemeroteca-fauth.blogspot.com/



 

teste

Testando postagem por e-mail

Wallace Fauth
http://fauth.blogspot.com/

 

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Tinta complica restauro de painéis de Portinari



Estive no Rio de Janeiro e, dentre as dezenas de atividades culturais das quais eu queria participar, fui à exposição dos painéis de Portinari no Teatro Municipal. Nunca havia entrado ali e foi ótima a oportunidade, pois houve (e ainda há) um trabalho imenso de restauração. A sensação é entrar em um prédio novíssimo, mas com o gosto e a moda das primeiras décadas do século XX. Os painéis ocupavam todo o palco e o público pode passar bem próximo. Estão no Brasil para restauração e li, na quinta-feira (2.fev.2011) que foi a pigmentação feita pelo próprio artista que acelerou o surgimento de imperfeições. Pelo que estava escrito na reportagem, “a tinta utilizada na década de 1950  ainda não secou totalmente! Em vez de comprar tinta industrializada, resolveu produzi-la em seu próprio ateliê por razões econômicas (como sempre!). Os técnicos em restauração dizem que das duas, uma: ou Portinari utilizou em excesso um tipo de resina para diluir a tinta, ou... (causa mais provável, conhecendo a malandragem), as tintas, vindas a granel da Inglaterra, foram misturadas a uma quantidade maior de óleo pelo revendedor em São Paulo, para aumentar o volume.
Apesar das “razões econômicas”, Portinari não deixou de ser Portinari. Por que se insite na arte? Tenho pra mim, às vezes, que isso é um tipo de doença. Mas... Quem não é doido?

domingo, fevereiro 06, 2011

Nabokov e as borboletas andinas


Vladimir Nabokov apareceu umas três vezes em textos que li neste começo de ano. Dois deles me lembro bem: em Veríssimo e em uma reportagem da Folha sobre Ciência (31.jan.2011)! O autor de Lolita estava certo quanto a uma hipótese a respeito das borboletas: as borboletas dos Andes vieram da Ásia. O autor russo está me perseguindo e acho que vou me render a essa leitura, principalmente em um momento em que se fala muito sobre Pedofilia. Além disso, minha filha completou 12 anos, a idade da personagem que dá título ao livro e que é objeto de paixão de um professor de poesia de quem a menina era enteada. Está havendo muita sincronicidade com relação a esse Nabokov.
Por falar nisso, gostei da idéia do Desafio Literário. Quem participa, torna-se leitor assíduo e, o que é melhor, consegue organizar sua leitura. Depois de ver isso me deu uma vontade de planejar minha leitura para este 2011!

Cantando pela serra do luar

De F E R R E I R A   G U L L A R

Publicado na Folha de S. Paulo de domingo, 23 de janeiro de 2011, não há comentários a fazer, apenas ler e fechar os olhos, cantando...


CANTANDO PELA SERRA DO LUAR
E me pergunto, quando escrevo esta crônica, de que afinal somos feitos, se de matéria ou de memória
NA ABERTURA da exposição comemorativa de meus 80 anos, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, fui surpreendido por um coral de jovens estudantes que, postado na escadaria, à entrada do museu, começou a cantar "O Trenzinho do Caipira". Após o primeiro momento de espanto, passei a cantar com eles, baixinho, claro, pois não desejava ser ouvido; é que não resisti ao impulso de participar daquele momento.
Não havia ali, a meu ver, um homenageado e, sim, uma encantada confraternização.
Mas, por incrível que pareça, enquanto cantava e me confundia com as demais pessoas ali presentes, veio-me uma constatação: a do contraste entre aquele momento e o outro, distante 40 anos, quando pus letra na tocata da "Bachiana nº 2", de Villa-Lobos.
Muita gente conhece a história do "Poema Sujo", escrito por mim em Buenos Aires, em 1975, mas o que constatei, de súbito, nesse momento de confraternização, foi o contraste entre a alegria de agora e o desamparo em que me encontrava naquele apartamento da avenida Honorio Pueyrredón, certo de que o mundo desabava sobre minha cabeça.
Não pretendo me valer desse pretexto para falar de mim mesmo ou do "Poema Sujo", de que a letra do "Trenzinho" é parte. Não é isso. A surpresa me arrebatou, ali, à entrada do museu, diante daqueles meninos e meninas que o cantavam, reacendendo, inesperadamente, em mim, a manhã de maio de 1975, quando, como quem faz a última coisa possível, escrevia aquele poema que, mal sabia eu, iria tornar-se o mais conhecido e traduzido dentre os tantos que escrevi na vida.
Assim foi que, subitamente, estou de volta àquele momento. Estou desgastado e ferido pelos anos de exílio, pelas perdas, pelas decepções e derrotas. A família, os amigos, o Rio de Janeiro, com suas praias e montanhas lilases, estão fora de meu alcance, e não me conformo com isso. É que, então, ali, era apenas um poeta às voltas com um poema que inventava -a única alegria possível.
Agora, em 2010, diante do coral, no hall de entrada do MNBA, o tempo se abre como um abismo e me suga e me atira, outra vez, para 40 anos atrás, naquele instante esvaído no curso da vida, mas que a cantiga do coral me traz de volta, sem que ninguém ali o perceba, cantando que estão ou encantados com o canto, senão eu que, não obstante, continuo a cantar com eles.
O presente é canto vibrante mas, dentro dele, estou eu-outrora, diante da máquina de escrever Lettera 22, inventando o "Poema Sujo". E é nesse momento do poema, quando lembro das viagens de trem que fazia com meu pai, que a "Bachiana nº 2" invade o quarto (a "Bachiana" que, quando ouvi pela primeira vez, me fez lembrar daquelas viagens e que agora, ao contrário, vem trazida pela lembrança delas). E a letra que, durante 20 anos, tentara escrever, sem o conseguir, escrevo-a então em menos de 20 minutos:
"Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar."
A mesma letra que ouço agora na voz dos garotos, nesse começo de noite em dezembro de 2010. Sim, a mesma, mas outra, pois a que ouvia, escrevendo-a, era quase silêncio, murmúrio que se juntava à melodia de Villa-Lobos tocando na vitrola. E me pergunto, agora, quando escrevo esta crônica, de que afinal somos feitos, se de matéria ou de memória. Mas, veja bem, memória não é passado? Ou não é? Tendo a pensar, fora da lógica aparente, que tudo é presente, todo o vivido, só que, em geral, estamos ocupados demais com o agora para nos darmos conta disso.
De qualquer modo, não poderia nunca imaginar, naquela manhã distante, que aquele murmúrio se tornaria canção, que aqueles versos um dia seriam um canto público na voz de meninos e meninas do meu país, décadas depois, numa noite de alegria e comemoração, quando o que foi sofrimento e desespero se apagou para sempre, pois a própria vida, na sua alquimia, os mudou em festa.
"Lá vai o trem sem destino 
Pro dia novo encontrar
Cantando vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar."

Valter Hugo Mãe


Campinas, 06 de fevereiro de 2011
Valter Hugo Mãe, autor português, prefere ser chamado por escrito de valter hugo mãe, em minúsculas. Não há maiúsculas em seu romance. Já em meu romance “amortebeijoparasempre” o narrador, Dimas, ora prefere grafar os nomes próprios com maiúsculas, ora com minúsculas, dependendo da importância que tem o nome próprio no momento em que conta sua história. Valter hugo, segundo a crítica de Marcelo Pen na Folha de S. Paulo, de 22 de janeiro de 2011, usa sintaxe desconexa e “sugestiva” (?). Depois de Joyce, com seu jorro de pensamentos, somente Saramago, ao que parece, conseguiu tamanha inovação linguística. Claro que há o nosso Guimarães Rosa, mas este parece deixar muita coisa cifrada ainda. Saramago consegue subverter a sintaxe e, ao aprender seu modo de narrar, tudo fica claro para o leitor. Rosa já é mais fechado e difícil. O que quero dizer é que essa vontade jovem de mudar a sintaxe, inovar a linguagem, tudo isso me chateia um pouco, pois parece que essas coisas surgem como forma de esconder o fato de a história contada não ser tão boa assim. A forma, nesse caso, pretereria o conteúdo. Nunca li hugo mãe, mas a leitura dessa reportagem me fez pensar nisso. Tive vontade de lê-lo justamente por causa desses pensamentos despertados, uma espécie de preconceito que começa a nascer em mim.
Depois vem outro novo autor português (João Tordo), na mesma página, sob crítica de Adriano Schwartz. Segundo o professor de literatura da USP, o romance “As Três Vidas é um daqueles casos claros em que a ambição de centenas de páginas conspira contra o resultado”. Fico imaginando se o autor escreveu tantas páginas por ambição. Eu, particularmente, não acredito nessa ambição. O que pode ter havido, caso haja excesso, é um falso julgamento, por parte do autor, da necessidade de tantas palavras. Às vezes escrever é tão bom que a gente esquece que pode haver leitores. É um relacionamento engraçado esse de autor e leitor. A única coisa concreta que existe entre os dois é o objeto livro, ou melhor, a palavra escrita, pois nem o escritor é a pessoa que o leitor talvez idealize, nem o leitor é um ser único. E as palavras, apesar de estarem ali, provadas cientificamente como existentes naquela sequência, não querem dizer absolutamente nada de concreto – em se tratando, obviamente, de uma obra literária – pois o que se quer transmitir e o que se entende estão em ambientes improváveis. Assim, o escritor esforça-se para tentar mostrar algo que está além da superfície e o leitor, conhecedor das profundidades dos icebergs, busca avidamente saber, e deleita-se quando descobre, se alguém também percebe essa suprarrealidade.