Campinas, 06 de fevereiro de 2011
Valter Hugo Mãe, autor português, prefere ser chamado por escrito de valter hugo mãe, em minúsculas. Não há maiúsculas em seu romance. Já em meu romance “amortebeijoparasempre” o narrador, Dimas, ora prefere grafar os nomes próprios com maiúsculas, ora com minúsculas, dependendo da importância que tem o nome próprio no momento em que conta sua história. Valter hugo, segundo a crítica de Marcelo Pen na Folha de S. Paulo, de 22 de janeiro de 2011, usa sintaxe desconexa e “sugestiva” (?). Depois de Joyce, com seu jorro de pensamentos, somente Saramago, ao que parece, conseguiu tamanha inovação linguística. Claro que há o nosso Guimarães Rosa, mas este parece deixar muita coisa cifrada ainda. Saramago consegue subverter a sintaxe e, ao aprender seu modo de narrar, tudo fica claro para o leitor. Rosa já é mais fechado e difícil. O que quero dizer é que essa vontade jovem de mudar a sintaxe, inovar a linguagem, tudo isso me chateia um pouco, pois parece que essas coisas surgem como forma de esconder o fato de a história contada não ser tão boa assim. A forma, nesse caso, pretereria o conteúdo. Nunca li hugo mãe, mas a leitura dessa reportagem me fez pensar nisso. Tive vontade de lê-lo justamente por causa desses pensamentos despertados, uma espécie de preconceito que começa a nascer em mim.
Depois vem outro novo autor português (João Tordo), na mesma página, sob crítica de Adriano Schwartz. Segundo o professor de literatura da USP, o romance “As Três Vidas é um daqueles casos claros em que a ambição de centenas de páginas conspira contra o resultado”. Fico imaginando se o autor escreveu tantas páginas por ambição. Eu, particularmente, não acredito nessa ambição. O que pode ter havido, caso haja excesso, é um falso julgamento, por parte do autor, da necessidade de tantas palavras. Às vezes escrever é tão bom que a gente esquece que pode haver leitores. É um relacionamento engraçado esse de autor e leitor. A única coisa concreta que existe entre os dois é o objeto livro, ou melhor, a palavra escrita, pois nem o escritor é a pessoa que o leitor talvez idealize, nem o leitor é um ser único. E as palavras, apesar de estarem ali, provadas cientificamente como existentes naquela sequência, não querem dizer absolutamente nada de concreto – em se tratando, obviamente, de uma obra literária – pois o que se quer transmitir e o que se entende estão em ambientes improváveis. Assim, o escritor esforça-se para tentar mostrar algo que está além da superfície e o leitor, conhecedor das profundidades dos icebergs, busca avidamente saber, e deleita-se quando descobre, se alguém também percebe essa suprarrealidade.
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