Livros que pareceram interessantíssimos:
Fernando Pessoa, uma (quase) autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho.
e
Raiva, romance de um escritor argentino, Sérgio Bizzio.
Veja as matérias que saíram na Ilustrada de hoje (26/3/2011):
Vouyerismo sedutor conduz "Raiva"
Em seu primeiro livro, cineasta argentino Sergio Bizzio progressivamente descamba para o delírio
JOCA REINERS TERRON
ESPECIAL PARA A FOLHA
A ficção argentina tem se afastado de seu paradigma mais conhecido, a literatura fantástica, o que bem comprova "Raiva", primeiro romance de Sergio Bizzio (Villa Ramallo, 1956) a ser lançado no Brasil.
A produção literária do cineasta e roteirista (sua história "XXY", dirigida pela mulher, Lucía Puenzo, obteve repercussão por aqui) tem sido prolífica, remetendo-a nesse aspecto e em outros à proverbial graforréia do compatriota César Aira ("Coronel Pringles", 1949).
Os livros deste, além da prolificidade, quase sempre são calçados no absurdo contemporâneo.
Com Bizzio não é diferente, partindo em seus enredos de situações realistas bastante reconhecíveis para progressivamente descambar no delírio.
Em "Reality" (2007), por exemplo, um reality show é invadido por terroristas islâmicos. Contudo, e por exigência dos criminosos, o programa continua no ar.
Desse modo, em movimento inesperado, a realidade contamina com violência o absurdo midiático de exposição pública da intimidade.
Em "Raiva", algo semelhante ocorre: primeiro, o pedreiro José María e a doméstica Rosa se apaixonam.
Agressivo, José María espanca quem dela se aproximar, como o filho do síndico de um prédio vizinho à mansão onde Rosa trabalha.
Ele perde o emprego após ser denunciado, mas assassina o capataz.
Alheia a isso, Rosa continua a recebê-lo no emprego, aproveitando viagem dos patrões. Certa noite, porém, eles voltam desavisadamente. Obrigado a se esconder no sótão, José María permanece na mansão sem que ninguém o saiba.
AMBIGUIDADES ÍNTIMAS
Aí tem início um sedutor jogo de voyeurismo que envolve o leitor, levando-o a avançar páginas em busca do desenlace.
María é subitamente aprisionado à vida secreta dos personagens da casa ao mesmo tempo que transforma sua relação anterior com Rosa em algo que não pode contar com sua intervenção.
Ele usa do telefone para falar com a namorada, mas não tem meios, ou quiçá o direito, de alterar o destino dela, descobrindo assim ambiguidades de sua face íntima, assim como de todos os outros moradores da casa.
De forte base irrealista, a ficção argentina moderna originada em Macedonio Fernández (1874-1952) e perpetrada por Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e muitos outros, tornou-se ilusoriamente representação metonímica de toda a literatura argentina, excluindo a vertente de ordem documental surgida no "Facundo", de Domingo Sarmiento (1811-1888), e continuada em Roberto Arlt (1900-1942).
Sergio Bizzio, assim como César Aira, representa o caminho do meio surgido nos últimos anos.
JOCA REINERS TERRON é autor de "Do Fundo do Poço Se Vê a Lua" (Companhia das Letras)
127 pessoas
Caricatura de Almada Negreiros
José Paulo Cavalcanti Filho lança primeira biografia brasileira de Fernando Pessoa , em que revela 55 novos heterônimos
MARCO RODRIGO ALMEIDA
DE SÃO PAULO
José Paulo Cavalcanti Filho tinha um objetivo quando iniciou sua biografia de Fernando Pessoa (1888-1935): descobrir quem era o "homem real" por trás do grande poeta português.
Após oito anos de pesquisa, o autor e advogado pernambucano acabou deparando-se não com um, mas com 127 "Pessoas".
É esse o número de heterônimos do poeta catalogado pelo livro "Fernando Pessoa: Uma (quase) Biografia", que Cavalcanti lança agora.
As múltiplas personas de Pessoa vão muito além de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, e superam também o que pensavam os especialistas.
Cavalcanti cita no livro que, no início dos anos 1990, eram conhecidos 72 heterônimos de Pessoa. O livro acrescentou 55.
O conceito de heterônimo que adotou é amplo e não se restringe à definição padrão: "nome imaginário que um criador identifica como o autor de suas obras e que apresenta tendências diferentes das desse criador".
Inclui todos os nomes, tendo estilo próprio ou não, com os quais o poeta assinou seus textos. A decisão pode ser contestada, mas a intenção de Cavalcanti nunca foi fazer uma biografia convencional.
As excentricidades já começam pelo subtítulo: "Uma (quase) Autobiografia".
O autor refere-se ao trabalho como o "livro que escrevi com meu amigo Pessoa".
A "amizade" é das mais antigas. Começou em 1966, quando Cavalcanti leu "Tabacaria", um dos principais poemas do autor.
A partir daí, viria a montar umas das principais coleções sobre vida e obra de Pessoa.
O poeta deixou mais de 30 mil páginas com anotações sobre si mesmo, literatura, família e fatos cotidianos.
Cavalcanti usou tantos trechos que chega a dizer que seu livro tem "mais frases de Pessoa do que minhas".
"Mas não se trata", explica, "de Pessoa falando sobre si, é a palavra de Pessoa falando sobre ele. Ou melhor: é o que quero dizer, mas por palavras dele".
Cavalcanti foi ainda além: para dar unidade estilística ao texto, tentou escrever como Pessoa.
Reduziu os adjetivos e adotou outro hábito dele: o uso, em média, de três vírgulas antes de um ponto final.
SEM IMAGINAÇÃO
Durante a pesquisa, Cavalcanti foi até quatro vezes por ano a Portugal. Leu centenas de documentos e entrevistou parentes e pessoas que conviveram com Pessoa.
Dessas andanças, saiu com a certeza de que o poeta é o autor "menos imaginativo" que existe.
"Tudo o que escreveu estava realmente à volta dele. Não tinha nada inventado."
Como exemplo, cita "Tabacaria". O poema menciona cinco personagens e Cavalcanti revela que todos realmente existiram e eram próximos do poeta.
Quando se trata de Pessoa, contudo, nem tudo é claro. "Sabes quem sou eu? Eu não sei", já advertia o poeta.
Sobre sua vida sexual ainda paira uma imensa dúvida. Teria sido gay? Cavalcanti acha que sim, embora não existam provas.
Também não há certeza sobre se teria ou não transado com Ophelia, seu mais conhecido relacionamento (Cavalcanti pensa que não foram além de beijos ardentes e leves toques nos seios).
Cultivar mistérios, ao que parece, fazia parte do estilo de Pessoa, e isso também Cavalcanti tentou incorporar.
O poeta tinha por hábito, diz o biógrafo, embaralhar as datas. O heterônimo Alberto Caeiro, por exemplo, morreu em 1915, mas há textos datados de 1930 atribuídos a ele.
No prefácio do livro, Cavalcanti também colocou uma data futura: 13/6/2011. Dupla homenagem, já que Pessoa nasceu nesse dia, em 1888.
Sábado, Março 26, 2011
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