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domingo, maio 22, 2011

No link do lado

Para saber de leituras interessantes que tenho feito, veja o link ao lado "hemeroteca do fauth"
VIDA APÓS A MORTE

"Um conto de fadas para pessoas que têm medo do escuro"
 (Stephen Hawking)

Que merda! Eu queria ser o dono dessa frase. Acredito nisso do fundo do meu coração.
Esquecida na gaveta fria
O sangue secando azul:
Decerto o poeta morreu! –
Deserto de poesia.
          Faz tempo que não escrevo a sério. Nem mesmo quando provocado. Uma grande preguiça tem tomado conta de mim na hora de colocar as palavras no papel. Não é retórica: ainda escrevo no papel, e não é pouco. Preciso andar com caneta e caderno. Não me sinto bem, ainda, sendo o único a usar alguma parafernália eletrônica em público. Quando estou lendo ou escrevendo, quero estar invisível. Para isso, tranco-me no escritório - e não adianta muito, porque sempre alguém vai lá falar comigo, afinal estou em casa - ou vou para algum lugar com cadeira e mesa, de preferência sem garçons. Aí leio, escrevo, penso e faço meu trabalho enquanto ser vivo, que é manter tudo funcionando, inclusive o cérebro.
          De vez em quando reclamam da minha falta de interação com as pessoas. Agora, então, que não estou mais ingerindo a imensa quantidade de cerveja de antes, terminou o único motivo que me fazia ligar para as pessoas e marcar algum tipo de reunião. Quero reunir a mim mesmo: juntar os pedaços que vivo espalhando por aí.
          Mais quieto, mais chato, ainda assim não consigo a solidão suficiente para meus trabalhos. Esse estar sozinho, quase sempre, só acontece com algum sofrimento, alguma grosseria feita com a maior educação: "por favor, preciso ficar sozinho ". A frase soa antipática, ridícula, sinal de desamor em relação à pessoa que está se doando toda para estar ao meu lado porque gosta de mim e me quer por perto. E quem disse que preciso agradar os outros? O que pretendo é dizer "não" mais vezes. Não sei direito quais são as consequências, mas acredito estar disposto a enfrentá-las. Preciso, cada vez mais, ficar sozinho. O problema, talvez, seja querer compartilhar coisas e não achar quem queira estar perto de um bicho como eu. Mesmo isso não é problema, pensando melhor agora, pois tenho um blog e, ao publicar, vem a sensação de estar compartilhando meus pensamentos, minhas experiências, minha visão desequilibrada do mundo. Não o divulgo muito porque não quero, efetivamente, ampliar possíveis contatos. Quero a sensação do compartilhamento, mas não quero trocar ideias. Como no trecho de Machado de Assis, no conto Noite de Almirante, "Que importa à grande dama o autor da obra?" Assim eu gostaria de existir. Não importa quem sou e o que faço, quero que as palavras publicadas sejam independentes. Como se tudo o que eu escrevesse fosse apócrifo.
          Nós, que escrevemos, somos apenas um mero instrumento. Pensar assim traz algum sentido para a vida. Uma função nada especial, mas especializada. Como a de uma caneta esferográfica. Há milhares e milhares, e o que sai de suas esferas não é propriamente responsabilidade delas, mas de seus usuários. Por outro lado, não fosse sua existência, algo muito semelhante a ela seria criado, por se tratar de um instrumento fundamental para a humanidade. Por ser humano, sinto-me mero instrumento de passagem de forças indistintas. E só sinto isso porque não consigo abandonar essa coisa que nem posso chamar de hábito.
          Ando muito racional e isso de certa forma deixa-me irritado. Gosto mais quando o mundo mágico toma conta do meu ser e sinto a poesia vibrando com as batidas de meu coração. Continuo vendo poesia em tudo, mas como espectador. Assim não gosto, mas nem sempre a vida se nos apresenta do jeito que gostaríamos.
           Eu comecei dizendo que estava sem escrever. Pergunta-se: "o que faz então neste exato momento?" Nada. Escrever essas angústias pessoais não é propriamente escrever, a não ser quando vêm em forma de poema. Aí sim, deixam de ser meramente pessoais para tornarem-se profundamente humanas. O que tem me incomodado é isto: essa sensação de caneta esferográfica esquecida na gaveta, a tinta secando.

quinta-feira, maio 19, 2011

Poema quase explicado

Em uma bela manhã de fevereiro, após presenciar uma cena terrível de sofrimento diante de uma escolha banal, escrevi o poema abaixo.
(dizem que o poema, quando explicado, perde a magia. Mas esse é desprovido de mágica mesmo).

Querendo, quero o impossível
Vivendo, sou invisível
Sem charme em agonia
Sofrendo no indizível
(entrelinhas de minha inexpressão)
Imponderável sentimento de não-poder
Amargas raízes que não ganham chão
Nenhuma profundidade
E esses ventos, meu Deus!
Os mesmos ventos do quase-sempre
A derrubar os galhos podres da minha alma.

(Campinas, 11 de fevereiro de 2010)

Bastidor, de Ana Holck

          Em 09 de janeiro de 2011, visitei a exposição de Ana Holck no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro. Era o último dia e só visitei a exposição porque esperava o horário da peça "A Lua vem da Ásia", monólogo de Chico Díaz, baseado na obra homônima de Campos de Carvalho publicada em 1956. Ótima peça, aliás.

          "Caminhamos escorados no fino limiar entre uma presença escultórica marcante e sua pulverização, adentrando um produtivo campo de incertezas no qual ver talvez seja menos habitar do que desabituar-se." (do texto "desabitar-se", de Sérgio Bruno Martins, sobre a exposição de Ana Holck)
           Trata-se de uma sala inteira transformada em um imenso biombo de plástico, daquelas pastas polionda usadas na escola. Brancos, opacos, baseando-se na ideia dos pisos hexagonais de concreto. Alguns deles, os de concreto, no chão, escorando as paredes de plástico, ora com hexágonos cheios do material (na verdade policarbonato alveolar), ora com vazios hexagonais. A interpretação faz parte da questão, como dizia, antigamente, meu professor de matemática. Veja detalhes clicando aqui.

           As pessoas que ali vão, falam baixinho, como manda a educação. "Eu pensei que você gostasse de arte", diz uma mulher a um homem, provavelmente o marido e a voz diminui ainda mais quando eu me aproximo mais, tentando saber do diálogo, talvez ouvir a resposta daquele homem que parecia incomodado vendo aquilo. Não ouvi, mas foram duas palávras, no máximo três que ele deixou escapar entredentes com uma cara de quem queria sair logo dali.

          Tenho notado isto faz tempo: esse falar baixo demais como se houvesse medo de expressar a opinião. Não gostar e ser criticado por um não entendedor de arte, ignorante das novas tendências. Ora, o direito de gostar compete a todo ser humano. Não gostar de determinada forma de arte e manifestar-se não é desrespeitar o artista. A sensação que tenho, no entanto, é a de estar no interior de uma igreja - aquele silêncio... Como se duvidar da existência de um sentido para a vida, para a arte ou para deus fosse uma heresia. Eu, por exemplo, não sou muito fã de artes modernas e instalações, apesar de gostar muito da ideia desta última. Minha opinião é bem parecida com a de Ferreira Gullar nesse aspecto. Entretanto, como nas igrejas, mantenho o silêncio como quem vela o que não existe, ou seja, vivo as obviedades.

domingo, maio 15, 2011

As pessoas vivem para quê?

Dias atrás assisti a um vídeo em que se perguntava: as pessoas vivem para quê? E tentava responder: para perder alguém? Para se manter vivas? Para viver mais tempo? Ou para nos deixar? Então, como em uma resposta definitiva, os cinco velhinhos de Taiwan, com idade média de 81 anos, que vão aparecendo tomando remédios e chorando a morte de entes queridos, decidem passear de moto por 13 dias. Para isso, passam por seis meses de preparação. Rodam 1139 quilômetros e, por fim, depois de diversas imagens revelando passado e presente, com muitos sorrisos entre os cinco amigos, a resposta surge: por um simples motivo: sonhos. Para pessoas ordinárias com sonhos extraordinários (For ordinary people with extraordinary dreams). Claro que, como em nossa língua não fica muito bom o jogo de palavras, o ordinário é traduzido para comum. Poderíamos pensar em outra tradução, modificando o extraordinário: Para pessoas comuns, com sonhos incomuns. Mas aí o incomum não teria o apelo do extraordinário. Talvez eu me encaixasse melhor na segunda tradução, pois estou mais para sonhos incomuns do que extraordinários. 

De alguma forma a propaganda mexeu com meus pensamentos. Alguém com a pretensão de dizer o porquê de estarmos vivendo. Vive-se para realizar sonhos extraordinários? Eu não penso nisso. Talvez eu não tenha sonhos, ou talvez eles não sejam extraordinários. Incomuns, pode ser. Mas não acho que se viva para isso. Nem acredito que se viva para alguma coisa. Vive-se e ponto. Não estamos aqui para expiar pecados de vidas anteriores, nem estamos aqui para fazer o bem e conquistar uma cadeira na academia brasileira de anjos. Estamos aqui nos perguntando “e daí?”. Temos algo que nos faz sofrer: a consciência da morte, que os cães, por exemplo, não têm. Mais do que o sonho, há o frio na barriga. Isso é o que talvez nos faça viver, mas não que vivamos para isso. Vive-se em busca de uma felicidade que, já se sabe, é sempre efêmera, pois nós, humanos, estamos sempre nos sentindo incompletos e, segundo o poema Retrato do artista quando coisa, de manoel de Barros, a maior riqueza do homem é essa incompletude e nisso o poeta é abastado. Ao sentirmos nossa incompletude, vamos em busca do que acreditamos que nos complete e, perto de atingir o que julgamos ser o auge, o ponto máximo que criamos, quando nossas mãos aproximam-se do objeto tão desejado, surge o tal frio na barriga. É isso, pensamos, é verdade e está aqui ao alcance das minhas mãos e vou agora tocar meu sonho. Frio na barriga, vista turva, tremedeira, lábios roxos, suor frio, parece que vamos explodir de alegria. Gozo. Nirvana. Depois da conquista, podemos morrer. Daí a ideia dos franceses de chamar de pequena morte o orgasmo. 

O problema é que não morremos. A cada conquista, uma falsa morte. A cada descoberta, uma explosão, como a de Arquimedes, ao descobrir a solução para o problema da coroa que, desconfiava-se, tinha prata misturada ao ouro maciço. Arquimedes saiu nu, pelas ruas, gritando Eureka! Depois disso, mais incompletude, até que um dia, virá um frio bom na barriga e nos levará a vida de vez. Uma grande morte. Um grande orgasmo. O verdadeiro Nirvana.

Se você acredita que vivemos para os sonhos extraordinários, lembre-se do TC Bank, autor da propaganda, pois ele poderá ajudá-lo a realizar seu passeio de moto, de ônibus ou de avião. Sejam quais forem os seus sonhos, o banco lá estará, com suas moedas de ouro. No entanto, por mais extraordinários ou incomuns que sejam, não é para realizá-los que se vive. Vive-se para viver. Para olhar, sentir, respirar... E, queira ou não pensar nisso, vive-se para morrer.
Assista ao vídeo:

Mais Manoel de Barros, também tendo a ver com "As pessoas vivem para quê?"



domingo, maio 01, 2011

Não sei o que fazer dos textos que leio

Não sei o que fazer dos textos que leio. Acabo de ler uma crônica deliciosa sobre alguém que oferece um livro de presente a um admirador de sua biblioteca. O livro é Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez. Quem dá o presente descobre, pouco tempo depois, mas já tarde demais, que o presenteado é crente e está quase pastor. Dito assim é sem graça. Há necessidade de ler a crônica e eu quero compartilhar, mas quem vai querer ler? [quem quiser ler, clique aqui] Quem vai querer ler tudo o que eu acho imperdível ser lido? As pessoas têm lá seus afazeres e eu aqui, sem fazer nada, lendo essas bobagens. E pior: pensando em atrapalhar a vida alheia, querendo que as pessoas interrompam suas vidas para verem o que eu vejo, sentirem o que eu sinto. Impossível. Sonho. Sempre o sonho.

Recorto e guardo, então, o texto na esperança de que algum dia vá compartilhar com alguém a excelente leitura. Um belo domingo de sol, quem sabe, no meio de um bate-papo à beira da churrasqueira, eu possa dizer: sabe o livro do Gabriel García Márquez? Pois li outro dia uma crônica...

E minha pasta está ali: lotada de recortes, alguns amarelados pelo tempo, os quais nunca voltei a ler, tampouco compartilhei com quem quer que seja.

Há duas caixas no meu escritório repletas de revistas de literatura. Das duas últimas vezes que as abri, fiquei com pena de jogar fora. Há capas com Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, muitas matérias que ainda não li e, pelo jeito, talvez nunca chegue a ler. Todos os dias chegam aos meus olhos jornais, revistas, páginas novas do livro que estou lendo, sites da internet, e-mails e, para complicar a situação, eu mesmo produzo mais páginas, como estou fazendo agora. Para quê? Para quem? As pessoas têm seus afazeres e eu, que não tenho afazer algum, arranjei isso de ficar lendo e escrevendo todo o tempo e criando ódio mortal das situações que venham a tirar-me dessa inércia louca de viver assim. Meu salário acabou vindo disso, de certa forma, pois ao lecionar, fui escolher Literatura e Gramática e obrigo várias pessoas a produzirem mais páginas para eu ler: as fatídicas redações. Quero que essas pessoas escrevam bem, que saibam expressar seus pensamentos, seus sentimentos por intermédio das palavras. Para quê?

Olho minha estante e, numa contagem rápida, deve haver uns seiscentos livros aqui. Alguns ainda no plástico de quando comecei uma coleção proveniente de bancas de jornal há uns dez anos. Bonitos exemplares de capa dura e bom papel. Fechados. Um dia vou ler a maioria. Um dia... Um dia que nunca chega e talvez nunca chegará. Os espaços da minha estante estão todos tomados e prometi a mim mesmo que aquele seria meu limite. Para entrar outro livro, algum deverá sair. Foi aí que comecei a acumular novas obras nas estantes do local em que trabalho e lá também parece haver limites. Preciso parar, repito para mim mesmo. E aparentemente eu paro de adquirir obras que vão entrando em uma fila interminável de leitura. Movimento nenhum. Até que, sorrateiramente, pego-me digitando, durante horas, títulos e autores de livros digitais adquiridos gratuitamente por serem de domínio público. Sim, comprei um e-reader para ler em viagens e poder levar muitos livros comigo. Estou com praticamente todos os clássicos da literatura brasileira. Ao todo, no meu leitor digital, há pouco mais de quatrocentos arquivos, entre contos, romances e poesias.

Em minhas leituras diárias de jornais, revistas, romances, poemas, crônicas, contos, redações de aluno, estou sempre passeando por momentos mágicos e quero mostrar para todo mundo. Recorto, copio, colo e salvo em um canto do computador, escrevo minhas experiências de leitura em um blog, em uma caderneta, mas... Falta algo. Uma direção, talvez. Não sei bem o que é, mas estou sem saber o que fazer com toda essa experiência. É como se eu estivesse preocupado com a própria experiência do viver. Para quê? Viver para quê?

Abro um parêntese para acalmar aqueles que podem imaginar que estou prestes a dar cabo de mim, pois se acredito que não há motivos para viver... Calma. Muito menos há motivos para morrer. Morrer eu já sei como é: tudo para de funcionar e a gente se desfaz na terra. Não quero isso. É tão bom abrir Fernando Pessoa, na pessoa de Alberto Caeiro, e ler que o único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum. Tão bom sentir a brisa, viver um pôr-de-sol, mergulhar no mar, brincar. Não, morrer tem menos motivo ainda. Morrer para quê?

Se todo esse sentimento exige alguma ação, a ação é arranjar mais tempo de vida para deliciar-me com o que há de melhor, como as leituras. Escrever essas coisas que não têm serventia também me fazem bem, então por que não fazê-lo? Já que nada parece ter mesmo serventia, vivamos o melhor possível. Crio, então, para mim, o melhor dos mundos. O único problema é que não posso ficar o tempo todo só. É preciso interagir de uma maneira preestabelecida, por menos que eu queira. Se eu pudesse, minha interação seria apenas de compartilhamento dessas mágicas por que passa minha alma diuturnamente. Ah, se eu pudesse, deixaria tudo para ficar com minhas leituras e minhas escritas, mas é preciso comprar o pão, dar bom dia, exercer alguma atividade social. Eu acho até que cumpro bem essas chatices, pois acredito que há até pessoas que gostam de mim, tenho quase certeza. Pelo menos é o que elas me fazem acreditar.

Supondo que tudo esteja muito bem arranjado com relação ao tempo, volto aos primórdios: o que fazer de tudo o que leio? Lixo?

Pois foi o que eu fiz com uma pasta cheia de recortes de dois anos.

Faltam as revistas e alguns livros para poder transformar minha estante em algo mais dinâmico como um rio, como minhas leituras, como minha própria vida.