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Domingo, Maio 15, 2011

As pessoas vivem para quê?

Dias atrás assisti a um vídeo em que se perguntava: as pessoas vivem para quê? E tentava responder: para perder alguém? Para se manter vivas? Para viver mais tempo? Ou para nos deixar? Então, como em uma resposta definitiva, os cinco velhinhos de Taiwan, com idade média de 81 anos, que vão aparecendo tomando remédios e chorando a morte de entes queridos, decidem passear de moto por 13 dias. Para isso, passam por seis meses de preparação. Rodam 1139 quilômetros e, por fim, depois de diversas imagens revelando passado e presente, com muitos sorrisos entre os cinco amigos, a resposta surge: por um simples motivo: sonhos. Para pessoas ordinárias com sonhos extraordinários (For ordinary people with extraordinary dreams). Claro que, como em nossa língua não fica muito bom o jogo de palavras, o ordinário é traduzido para comum. Poderíamos pensar em outra tradução, modificando o extraordinário: Para pessoas comuns, com sonhos incomuns. Mas aí o incomum não teria o apelo do extraordinário. Talvez eu me encaixasse melhor na segunda tradução, pois estou mais para sonhos incomuns do que extraordinários. 

De alguma forma a propaganda mexeu com meus pensamentos. Alguém com a pretensão de dizer o porquê de estarmos vivendo. Vive-se para realizar sonhos extraordinários? Eu não penso nisso. Talvez eu não tenha sonhos, ou talvez eles não sejam extraordinários. Incomuns, pode ser. Mas não acho que se viva para isso. Nem acredito que se viva para alguma coisa. Vive-se e ponto. Não estamos aqui para expiar pecados de vidas anteriores, nem estamos aqui para fazer o bem e conquistar uma cadeira na academia brasileira de anjos. Estamos aqui nos perguntando “e daí?”. Temos algo que nos faz sofrer: a consciência da morte, que os cães, por exemplo, não têm. Mais do que o sonho, há o frio na barriga. Isso é o que talvez nos faça viver, mas não que vivamos para isso. Vive-se em busca de uma felicidade que, já se sabe, é sempre efêmera, pois nós, humanos, estamos sempre nos sentindo incompletos e, segundo o poema Retrato do artista quando coisa, de manoel de Barros, a maior riqueza do homem é essa incompletude e nisso o poeta é abastado. Ao sentirmos nossa incompletude, vamos em busca do que acreditamos que nos complete e, perto de atingir o que julgamos ser o auge, o ponto máximo que criamos, quando nossas mãos aproximam-se do objeto tão desejado, surge o tal frio na barriga. É isso, pensamos, é verdade e está aqui ao alcance das minhas mãos e vou agora tocar meu sonho. Frio na barriga, vista turva, tremedeira, lábios roxos, suor frio, parece que vamos explodir de alegria. Gozo. Nirvana. Depois da conquista, podemos morrer. Daí a ideia dos franceses de chamar de pequena morte o orgasmo. 

O problema é que não morremos. A cada conquista, uma falsa morte. A cada descoberta, uma explosão, como a de Arquimedes, ao descobrir a solução para o problema da coroa que, desconfiava-se, tinha prata misturada ao ouro maciço. Arquimedes saiu nu, pelas ruas, gritando Eureka! Depois disso, mais incompletude, até que um dia, virá um frio bom na barriga e nos levará a vida de vez. Uma grande morte. Um grande orgasmo. O verdadeiro Nirvana.

Se você acredita que vivemos para os sonhos extraordinários, lembre-se do TC Bank, autor da propaganda, pois ele poderá ajudá-lo a realizar seu passeio de moto, de ônibus ou de avião. Sejam quais forem os seus sonhos, o banco lá estará, com suas moedas de ouro. No entanto, por mais extraordinários ou incomuns que sejam, não é para realizá-los que se vive. Vive-se para viver. Para olhar, sentir, respirar... E, queira ou não pensar nisso, vive-se para morrer.
Assista ao vídeo:

Mais Manoel de Barros, também tendo a ver com "As pessoas vivem para quê?"



2 comentários:

Anônimo disse...

As pessoas têm buscas diferentes. Cada nível de maturidade pede um sonho pertinente a ele. Talvez tudo não passe de uma questão de escolher como trabalhar a ansiedade. Sonhos extraordinários exigem que esforços enormes sejam aplicados tanto nos desejos possíveis quanto nos irrealizáveis. É desolador perceber que o pesar da frustração tende a durar e a penetrar mais do que o êxtase da conquista.

Já a busca simples por sonhos banais traz a serenidade e o conforto embutidos na consciência de que viver para morrer é um processo natural e humano. Amadurecer, a meu ver, é a dádiva de conseguir amansar a ansiedade na paz de uma ciranda de pequenas vontades e modestas realizações. As sensações podem até parecer menos volumosas. No entanto, tornam-se bem mais perenes, como a própria morte.

Wallace Fauth disse...

Seja lá quem você for, gostei do seu comentário. Obrigado.