Faz tempo que não escrevo a sério. Nem mesmo quando provocado. Uma grande preguiça tem tomado conta de mim na hora de colocar as palavras no papel. Não é retórica: ainda escrevo no papel, e não é pouco. Preciso andar com caneta e caderno. Não me sinto bem, ainda, sendo o único a usar alguma parafernália eletrônica em público. Quando estou lendo ou escrevendo, quero estar invisível. Para isso, tranco-me no escritório - e não adianta muito, porque sempre alguém vai lá falar comigo, afinal estou em casa - ou vou para algum lugar com cadeira e mesa, de preferência sem garçons. Aí leio, escrevo, penso e faço meu trabalho enquanto ser vivo, que é manter tudo funcionando, inclusive o cérebro.
De vez em quando reclamam da minha falta de interação com as pessoas. Agora, então, que não estou mais ingerindo a imensa quantidade de cerveja de antes, terminou o único motivo que me fazia ligar para as pessoas e marcar algum tipo de reunião. Quero reunir a mim mesmo: juntar os pedaços que vivo espalhando por aí.
Mais quieto, mais chato, ainda assim não consigo a solidão suficiente para meus trabalhos. Esse estar sozinho, quase sempre, só acontece com algum sofrimento, alguma grosseria feita com a maior educação: "por favor, preciso ficar sozinho ". A frase soa antipática, ridícula, sinal de desamor em relação à pessoa que está se doando toda para estar ao meu lado porque gosta de mim e me quer por perto. E quem disse que preciso agradar os outros? O que pretendo é dizer "não" mais vezes. Não sei direito quais são as consequências, mas acredito estar disposto a enfrentá-las. Preciso, cada vez mais, ficar sozinho. O problema, talvez, seja querer compartilhar coisas e não achar quem queira estar perto de um bicho como eu. Mesmo isso não é problema, pensando melhor agora, pois tenho um blog e, ao publicar, vem a sensação de estar compartilhando meus pensamentos, minhas experiências, minha visão desequilibrada do mundo. Não o divulgo muito porque não quero, efetivamente, ampliar possíveis contatos. Quero a sensação do compartilhamento, mas não quero trocar ideias. Como no trecho de Machado de Assis, no conto Noite de Almirante, "Que importa à grande dama o autor da obra?" Assim eu gostaria de existir. Não importa quem sou e o que faço, quero que as palavras publicadas sejam independentes. Como se tudo o que eu escrevesse fosse apócrifo.
Nós, que escrevemos, somos apenas um mero instrumento. Pensar assim traz algum sentido para a vida. Uma função nada especial, mas especializada. Como a de uma caneta esferográfica. Há milhares e milhares, e o que sai de suas esferas não é propriamente responsabilidade delas, mas de seus usuários. Por outro lado, não fosse sua existência, algo muito semelhante a ela seria criado, por se tratar de um instrumento fundamental para a humanidade. Por ser humano, sinto-me mero instrumento de passagem de forças indistintas. E só sinto isso porque não consigo abandonar essa coisa que nem posso chamar de hábito.
Ando muito racional e isso de certa forma deixa-me irritado. Gosto mais quando o mundo mágico toma conta do meu ser e sinto a poesia vibrando com as batidas de meu coração. Continuo vendo poesia em tudo, mas como espectador. Assim não gosto, mas nem sempre a vida se nos apresenta do jeito que gostaríamos.
Eu comecei dizendo que estava sem escrever. Pergunta-se: "o que faz então neste exato momento?" Nada. Escrever essas angústias pessoais não é propriamente escrever, a não ser quando vêm em forma de poema. Aí sim, deixam de ser meramente pessoais para tornarem-se profundamente humanas. O que tem me incomodado é isto: essa sensação de caneta esferográfica esquecida na gaveta, a tinta secando.
Domingo, Maio 22, 2011
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