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Domingo, Maio 01, 2011

Não sei o que fazer dos textos que leio

Não sei o que fazer dos textos que leio. Acabo de ler uma crônica deliciosa sobre alguém que oferece um livro de presente a um admirador de sua biblioteca. O livro é Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez. Quem dá o presente descobre, pouco tempo depois, mas já tarde demais, que o presenteado é crente e está quase pastor. Dito assim é sem graça. Há necessidade de ler a crônica e eu quero compartilhar, mas quem vai querer ler? [quem quiser ler, clique aqui] Quem vai querer ler tudo o que eu acho imperdível ser lido? As pessoas têm lá seus afazeres e eu aqui, sem fazer nada, lendo essas bobagens. E pior: pensando em atrapalhar a vida alheia, querendo que as pessoas interrompam suas vidas para verem o que eu vejo, sentirem o que eu sinto. Impossível. Sonho. Sempre o sonho.

Recorto e guardo, então, o texto na esperança de que algum dia vá compartilhar com alguém a excelente leitura. Um belo domingo de sol, quem sabe, no meio de um bate-papo à beira da churrasqueira, eu possa dizer: sabe o livro do Gabriel García Márquez? Pois li outro dia uma crônica...

E minha pasta está ali: lotada de recortes, alguns amarelados pelo tempo, os quais nunca voltei a ler, tampouco compartilhei com quem quer que seja.

Há duas caixas no meu escritório repletas de revistas de literatura. Das duas últimas vezes que as abri, fiquei com pena de jogar fora. Há capas com Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, muitas matérias que ainda não li e, pelo jeito, talvez nunca chegue a ler. Todos os dias chegam aos meus olhos jornais, revistas, páginas novas do livro que estou lendo, sites da internet, e-mails e, para complicar a situação, eu mesmo produzo mais páginas, como estou fazendo agora. Para quê? Para quem? As pessoas têm seus afazeres e eu, que não tenho afazer algum, arranjei isso de ficar lendo e escrevendo todo o tempo e criando ódio mortal das situações que venham a tirar-me dessa inércia louca de viver assim. Meu salário acabou vindo disso, de certa forma, pois ao lecionar, fui escolher Literatura e Gramática e obrigo várias pessoas a produzirem mais páginas para eu ler: as fatídicas redações. Quero que essas pessoas escrevam bem, que saibam expressar seus pensamentos, seus sentimentos por intermédio das palavras. Para quê?

Olho minha estante e, numa contagem rápida, deve haver uns seiscentos livros aqui. Alguns ainda no plástico de quando comecei uma coleção proveniente de bancas de jornal há uns dez anos. Bonitos exemplares de capa dura e bom papel. Fechados. Um dia vou ler a maioria. Um dia... Um dia que nunca chega e talvez nunca chegará. Os espaços da minha estante estão todos tomados e prometi a mim mesmo que aquele seria meu limite. Para entrar outro livro, algum deverá sair. Foi aí que comecei a acumular novas obras nas estantes do local em que trabalho e lá também parece haver limites. Preciso parar, repito para mim mesmo. E aparentemente eu paro de adquirir obras que vão entrando em uma fila interminável de leitura. Movimento nenhum. Até que, sorrateiramente, pego-me digitando, durante horas, títulos e autores de livros digitais adquiridos gratuitamente por serem de domínio público. Sim, comprei um e-reader para ler em viagens e poder levar muitos livros comigo. Estou com praticamente todos os clássicos da literatura brasileira. Ao todo, no meu leitor digital, há pouco mais de quatrocentos arquivos, entre contos, romances e poesias.

Em minhas leituras diárias de jornais, revistas, romances, poemas, crônicas, contos, redações de aluno, estou sempre passeando por momentos mágicos e quero mostrar para todo mundo. Recorto, copio, colo e salvo em um canto do computador, escrevo minhas experiências de leitura em um blog, em uma caderneta, mas... Falta algo. Uma direção, talvez. Não sei bem o que é, mas estou sem saber o que fazer com toda essa experiência. É como se eu estivesse preocupado com a própria experiência do viver. Para quê? Viver para quê?

Abro um parêntese para acalmar aqueles que podem imaginar que estou prestes a dar cabo de mim, pois se acredito que não há motivos para viver... Calma. Muito menos há motivos para morrer. Morrer eu já sei como é: tudo para de funcionar e a gente se desfaz na terra. Não quero isso. É tão bom abrir Fernando Pessoa, na pessoa de Alberto Caeiro, e ler que o único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum. Tão bom sentir a brisa, viver um pôr-de-sol, mergulhar no mar, brincar. Não, morrer tem menos motivo ainda. Morrer para quê?

Se todo esse sentimento exige alguma ação, a ação é arranjar mais tempo de vida para deliciar-me com o que há de melhor, como as leituras. Escrever essas coisas que não têm serventia também me fazem bem, então por que não fazê-lo? Já que nada parece ter mesmo serventia, vivamos o melhor possível. Crio, então, para mim, o melhor dos mundos. O único problema é que não posso ficar o tempo todo só. É preciso interagir de uma maneira preestabelecida, por menos que eu queira. Se eu pudesse, minha interação seria apenas de compartilhamento dessas mágicas por que passa minha alma diuturnamente. Ah, se eu pudesse, deixaria tudo para ficar com minhas leituras e minhas escritas, mas é preciso comprar o pão, dar bom dia, exercer alguma atividade social. Eu acho até que cumpro bem essas chatices, pois acredito que há até pessoas que gostam de mim, tenho quase certeza. Pelo menos é o que elas me fazem acreditar.

Supondo que tudo esteja muito bem arranjado com relação ao tempo, volto aos primórdios: o que fazer de tudo o que leio? Lixo?

Pois foi o que eu fiz com uma pasta cheia de recortes de dois anos.

Faltam as revistas e alguns livros para poder transformar minha estante em algo mais dinâmico como um rio, como minhas leituras, como minha própria vida.

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