Sinto-me travado. Totalmente travado. Parece que toda minha vida trava quando estou assim. Por mais que por fora tudo esteja dando certo como nunca deu antes, por dentro estou sem capacidade de movimentos. Vamos lá, wallace, tudo de bom pra você! E a sensação de estar jogando no lixo o que seria "tudo de bom". Nunca o que queremos estará à nossa disposição, dirão alguns. Concordo. Mas há um mínimo que exigimos: as necessidades básicas (alimentarmo-nos e defecar, urinar), e as necessidades da inteligência. Nesse ponto, nada adianta minha vida. Tentei dormir mais cedo, dormir bastante; tentei acordar bem cedo, dormir bem tarde, virar a noite; tentei tomar calmante, tomar energético, tomar cerveja... Nada adianta. Penso em fumar um cigarro, agora. Sei que não vai adiantar. O que adiantaria para mim seria começar. Mas não consigo começar. Não quero começar. Não quero escrever sobre Orestes Barbosa. O nome dele aparece em passagens de avião nos Estados Unidos, mas não é o Orestes: é o bisneto. O sangue dele corre ali. Corre aqui do meu lado e, pasmo ao lembrar-me disso: corre nas veias dos meus filhos. Aí eu travo. Aí penso que não dá para escrever. Nessa hora sou totalmente incompetente. E tenho tantas ideias interessantes para depois. Pelo menos dois romances cercam-me. Mas não começo nada sem antes sair desse impasse de Orestes. Sinto-me travado mesmo. Totalmente dependente desse romance sobre alguém que não conheci, mas de cuja família comecei a fazer parte e sobre a qual não quero dizer nada. Mas é de uma beleza tão grande o que quero contar sobre o Orestes de Chão de Estrelas que não consigo pensar nos outros romances sem antes resolver este. E não resolvo nada. E vejo os dias passando, as horas... Meus filhos amadurecendo, pessoas em volta morrendo, a vida passando e eu sabendo que minha vez está logo ali. E eu protelando, protelando o que preciso fazer... Ás vezes acho que protelar minha missão é uma forma de viver mais. Como se... ao acabar de fazer o que precisa ser feito por mim, minha hora chegará. Pretensão imensa. Como se eu significasse alguma coisa perto do tamanho dos planetas no Universo. Já recebeu aquele e-mail com o tamanho dos planetas e as frasezinhas dizendo que por ser pequeno você é um lixo? Pois é. Não consigo explicar o lixo que sou e ao mesmo tempo um Deus. Um Deus. É assim que me sinto. E é essa solidão divina que me faz sentir um verdadeiro lixo, pois eu não queria ser Deus e ter a responsabilidade dessa criação de merda. Saber-me "criatura" faz-me ter bem a consciência do que deuses são capazes.
Criador de merda, por que não vai dormir um pouco?
Sábado, Junho 04, 2011
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