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sábado, julho 30, 2011

Adriana Lisboa

Ela diz que escrever é como um emprego qualquer. Você acorda de manhã e vai para seu emprego.
Chegando lá, escreve mecanicamente, como a gente faz em nosso emprego qualquer:

IMPERIALISMO CULTURAL

A vida íntima
de uma menina de dez anos
na Somália (Somália é qualquer lugar
neste mundo, neste mesmo mundo):
o clitóris e os lábios vaginais são decepados
a menina é costurada em seguida, deixando-se
apenas uma pequena abertura para a urina e a
menstruação
a menina é imobilizada até que a pele grude
entre suas pernas
e no dia em que estiver pronta para o sexo
seu marido
ou uma mulher respeitada na comunidade
vai abri-la de novo, cortá-la
como se corta uma fruta, como se corta
um envelope que traz um documento
importante
como o avião corta a nuvem
como a nuvem corta o céu.

[Adriana Lisboa]

Q I

As pessoas cuja classificação cai na parte mais baixa da escala de QI tendem resistir a mudar.

sábado, julho 09, 2011

Serviço

Dizem que é muito bom fazer o que a gente gosta e ainda ganhar com isso. Ganhar, aliás, é um pensamento tipicamente ocidental levado às últimas consequências pelos americanos que somos todos nós, mas que só os norte-americanos tomam para si.
O problema é fazer o que a gente gosta quando não se está nem um pouco a fim de fazê-lo. Nesse caso, melhor seria nem receber por isso, já que não se vai dar conta de estar-se sempre a sorrir, no caso dos palhaços, ou de estar-se sempre a pintar, para o caso dos pintores.
Gosto de tudo e quero fazer tudo e o faço.
Não vislumbro ganhos
Nem vejo como isso seja possível:
Estou vivo como um bebê que nem aprendeu a própria língua
Porque se sou humano e não entendo o que outro ser humano diz...
Quando descubro que temos visões de mundo totalmente diferentes,
Vem a mim a falsidade que é o querer aproximar-se.
Tolerar, talvez...
Aproximar-se, jamais.
Aí está essa a distância. Aí o atraso do crescimento global.
A saída não está em todo o mundo falar inglês, mas falar, realmente, uma mesma língua, o que me parece impossível. Uma visão global só seria possível se todos fôssemos capazes de falar todas as línguas, isto é, capazes de compreender todas as nuances das palavras e entonações. Esse tal de "way of life", uma imposição cultural como a estadunidense, é uma bosta. Basta você visitar os estados unidos: tudo muito bem organizado, bem pensado, onde não se vê horário de almoço porque as pessoas estão produzindo algo de útil para a humanidade. Acreditam estar fazendo o melhor.Levam o homem à Lua,tudo "otimizado". Mas você não tem muitas opções além do hambúrguer, da pizza, do taco mexicano ou do frango xadrez chinês. Talvez seja um sonho de muitos poder comer só besteira o tempo todo e achar que está certo, afinal sua vida é sua e por que não viver prazerosamente? Isso remete à infância: se você deixar, seu filho só come doce e hambúrguer. Nos Estados Unidos isso é normal entre os adultos, o que me faz imaginar que, sendo a potência mundial que é, a humanidade está perdida, ou muito imatura.
Enquanto estive aqui, tentei comer uma só vez por dia (hamburguer, pizza e afins) e, à noite, somente uma salada de frutas que se achava em potes por aqui. No terceiro dia "no more" salada de frutas. Não é uma coisa que se encontra com facilidade. Resultado: comi tudo com muita gordura, com muita manteiga e a vida em torno de um grande parque de diversões. Tudo o que a gente sonha quando criança, eles tentam reproduzir na realidade para viverem assim, como adultos... O extremo disso parece ser o Michael Jackson: aquele que parece nunca ter crescido. Ídolo por essas bandas. Querer ser criança... Bando de idiotas. Não que eu queira ser adulto, pois o que chamam adulto mostra-se frágil como um bebê. Queria apenas ver a humanidade avançando... Há uma claridade enorme na minha maneira de ver tudo assim, meio de longe. Ao mesmo tempo, tenho a sensação de estar ficando cego (literalmente), como se fosse proibido enxergar demais.
A paisagem de Las Vegas é surreal. Digna de um Salvador Dali. Está amanhecendo. Tiro a foto e vou dormir.