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quarta-feira, outubro 05, 2011

Gosto de framboesa

Este ser que me sufoca só pode ser imundo. Uma possessão! Talvez seja a melhor definição. Como um demônio, toma conta do meu corpo, modifica minha voz, domina minha razão, pressiona minha cabeça e prostra-me com o rosto nos lençóis. Sob meus olhos, uma maquiagem fúnebre deixa-me com jeito de zumbi. As pessoas olham para mim com cara de nojo, lastimando serem minhas conhecidas.

Preciso de ajuda para expulsar de mim essa coisa! Do contrário, este ser imundo e repugnante tomará conta de minha alma e transformará meu corpo por inteiro.

Um anjo surge com um líquido vermelho. Seria sangue? Estarei transformando-me em algum vampiro? Bebo e é doce. Sabor framboesa, diz-me o anjo a sorrir. Bebo como quem beija. Boca vermelha, primeira delícia nesta manhã de inverno.

Mais tarde, ao tentar respirar fundo, sou impedido pelo ser repugnante, que não me deixa chegar ao fim da minha respiração. Eu queria apenas dar um suspiro, mas não! Enfureço-me e todo o meu corpo, com uma força fora do comum, resolve expelir o demônio numa tosse. Sinto como que um pedaço de carne passando pela minha garganta e invadindo-me a boca. Com nojo, cuspo no chão a parte daquilo que me sufoca. Não identifico o quê, mas sei que é verde e tenta me matar. Ao vê-lo imóvel, depois de um surdo baque, sinto alívio por vê-lo fora de mim. Sei que há muitos pedaços verdes para expelir ainda, mas já consigo dar o primeiro suspiro em paz e começo a sonhar com o anjo do beijo vermelho com gosto de framboesa.

04/out/2011

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